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Seis dias depois de ser lançada pré-candidata a deputada federal pela Unidade Popular (UP), Dany Oliveira aparecia como principal porta-voz da greve da USP nos jornais. Diretora do DCE Livre e da UNE pelo Movimento Correnteza — braço estudantil do partido —, ela é a face mais visível de uma mobilização que começou com reivindicações por permanência estudantil e foi se transformando, semana a semana, em uma frente política organizada contra o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) a menos de cinco meses das eleições.
A greve nas três universidades estaduais paulistas — USP, Unesp e Unicamp — mobilizou cerca de 5 mil pessoas, que marcharam do Largo da Batata, em Pinheiros, em direção ao Palácio dos Bandeirantes, sede do governo de São Paulo, nesta quarta-feira (20).
Ao chegar ao entorno do palácio, os manifestantes anunciaram que só sairiam quando recebidos pelo governador. À noite, conseguiram reunião com representantes da Casa Civil — mas os estudantes relataram que a reunião ocorreu na entrada do prédio, cercado por cordões policiais.
De acordo com eles, o encontro terminou sem acordo e sem resposta sobre a ação policial que expulsou os invasores da reitoria da USP no último dia 10. A mobilização começou como uma disputa interna na USP. Em 15 de abril, 105 cursos deliberaram pela paralisação após a reitoria apresentar uma minuta que os estudantes interpretaram como uma restrição à autonomia dos espaços estudantis.
Às demandas originais — aumento do auxílio-permanência e melhores condições nos restaurantes universitários — somaram-se, ao longo das semanas, as pautas políticas contra a gestão do governador Tarcísio de Freitas, pré-candidato à reeleição em outubro. Entre elas, críticas às privatizações da Sabesp, do metrô e das rodovias, além de pautas contra a violência policial e reivindicações por políticas para mulheres.
Da USP, o movimento chegou ao interior paulista. Saíram dos campi da Unesp 17 ônibus para o ato desta quarta. Alguns foram parados e revistados pela PM durante o trajeto.
Partidos e sindicatos entram em cena na greve das universidades em SP
Na programação de greve do Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade de Direito da USP no Largo São Francisco, é possível rastrear o caminho da politização.
Ao longo das semanas, passaram pelo Largo São Francisco o ex-deputado José Genoíno (PT), convidado para falar sobre "repressão estatal ao movimento estudantil", e o deputado estadual Eduardo Suplicy (PT), que conduziu uma roda de conversa sobre renda básica de cidadania.
Em 13 de abril, a faculdade sediou um evento intitulado "Contra o Imperialismo e pela Democracia: América Latina Soberana", com logos de organizações políticas de esquerda nas artes de divulgação.
A presença de políticos no ato desta quarta não se limitou à esquerda. O ex-deputado estadual Douglas Garcia, filiado ao União Brasil, foi ao protesto e houve confronto entre a equipe do ex-parlamentar e os estudantes universitários. Não foi a primeira vez: em 11 de maio, os vereadores Rubinho Nunes e Adrilles Jorge, também do União Brasil, foram ao ato grevista. Nunes foi agredido e saiu do local com o nariz fraturado.
O rosto mais visível da greve na USP também revela a dimensão político-partidária do movimento. Dany Oliveira, diretora do DCE, é também diretora da UNE pelo Movimento Correnteza, o braço estudantil da UP, partido de linha marxista-leninista.
No dia 1º de maio, ela foi lançada como pré-candidata a deputada federal pela UP. Já disputou duas vezes uma vaga de vereadora em São Paulo, em 2020 e 2024, sem sucesso. A UP também tem pré-candidata à Presidência da República: a dentista Samara Martins.
O Correnteza, fundado em 2017 e presente em todos os estados do país, integrou a gestão do DCE da USP a partir de setembro de 2025. O grupo adota uma estratégia de agitação permanente — com invasões de espaços, distribuição de jornal e assembleias convocadas por megafone — e tem histórico de episódios de confronto com autoridades em outras universidades, como a Universidade Federal do Paraná (UFPR) e a Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp).
As críticas mais contundentes ao método do grupo, curiosamente, vêm de setores da própria esquerda universitária, que acusam o Correnteza de aparelhar entidades estudantis para projetar uma agenda partidária.
A Adusp, associação dos docentes da USP, que aprovou paralisação para o ato desta quarta, nega qualquer dimensão eleitoral no movimento. "Não há qualquer dimensão político-eleitoral na mobilização. Quem tem provocado a mobilização é a intransigência do Cruesp", respondeu a entidade em nota, referindo-se ao Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas.
A associação reivindica reajuste salarial pelo IPCA mais 3%, com calendário para recompor perdas acumuladas desde 2012 — período em que os docentes teriam perdido 15,9% do poder de compra.
Mas dentro das próprias universidades, a leitura é diferente. Um interlocutor próximo à administração da Unesp, que preferiu não se identificar, avaliou que o padrão se repete todo ano: a mobilização costuma ganhar força no mês de maio, quando as universidades definem o dissídio salarial, e os diretórios centrais dos estudantes têm ligação histórica com partidos políticos. Na avaliação dele, a universidade acaba funcionando como anteparo para pressionar o governo do estado.
A vereadora Janaína Paschoal (PP-SP), professora de Direito Penal na USP, é ainda mais direta. "Sempre houve muita instrumentalização dos ambientes universitários pela esquerda. Mas eu entendo que piorou. Nesses dias de greve, vários políticos de esquerda participaram de atos e atividades dentro de prédios públicos, que foram tomados, inviabilizando as atividades acadêmicas, que são pagas pela sociedade", disse ela em entrevista à Gazeta do Povo.
Paschoal questiona também a base da principal reivindicação estudantil. "A pauta para elevar o auxílio financeiro para permanência é complicada, pois mesmo os que estudam meio período querem R$ 1.800 para estudar. Não há como explicar isso para os jovens entregadores, que trabalham o dia todo para pagar sua faculdade e ainda financiam as universidades públicas por seus impostos."
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A luta unificada das três estaduais seria, na avaliação de integrantes do DCE Livre, expressão de um projeto de precarização aplicado pelo governo Tarcísio de Freitas — e o ato desta quarta-feira deveria servir de desentrave para outras categorias em conflito com o governo do estado.
A reunião no Palácio dos Bandeirantes contou com quatro representantes da USP, um da Unesp e um da Unicamp, além de dois advogados e a deputada estadual Mônica Seixas (PSOL).
Os estudantes saíram sem acordo e sem compromisso de novo encontro com o Executivo. "Para nós, essa é uma posição intransigente e vexatória", disse Malena Rojas, diretora do DCE da Unicamp. A greve nas três universidades segue, com nova rodada de negociação com as reitorias.
Governo cita investimento recorde e evita responder sobre motivação eleitoral
Por trás das reivindicações está também uma disputa orçamentária estrutural. As três universidades estaduais paulistas são financiadas por fatias fixas do ICMS, garantidas por decreto estadual desde 1989: 5% para a USP, 2,2% para a Unicamp e 2,34% para a Unesp.
O problema é que a reforma tributária aprovada em 2024 prevê a substituição gradual do ICMS pelo IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) até 2033.
Sem uma emenda à Constituição estadual que transfira o vínculo para o novo imposto, as universidades receberão proporcionalmente menos à medida que o ICMS perde participação na arrecadação. Até agora, não há proposta aprovada nem calendário definido na Assembleia Legislativa.
As reitorias trataram a crise como pauta interna e de financiamento, evitando confronto com o governo do estado. A USP não emitiu nota sobre o ato, mas destacou a criação de grupos de trabalho sobre permanência estudantil e ampliação de bolsas para alunos em vulnerabilidade econômica.
A Unicamp informou que realizou, na terça-feira (19), a primeira reunião de sua comissão de negociação com 23 representantes discentes, e que uma nova rodada está prevista após a consolidação das pautas pelos estudantes. A Unesp destacou que seu orçamento para permanência estudantil em 2026 é de R$ 110,7 milhões — valor que a instituição chama de recorde.
O governo do estado, por meio da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação, afirmou acompanhar a situação junto às reitorias e informou que, desde 2023, repassou mais de R$ 64,3 bilhões às instituições estaduais — valor 28,9% superior ao investido nos quatro anos anteriores. O governo estadual não se pronunciou sobre a motivação da greve.
A PM, por sua vez, limitou-se a informar que o planejamento operacional foi estruturado "para garantir a segurança de todos, preservar a ordem pública e assegurar o direito de ir e vir da população".














