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Cara e ineficiente

Segurança pública custa bilhões, não resolve violência e vira principal desafio para eleitos

População brasileira exige ação na área da segurança pública, com propostas de soluções reais e rápidas para o domínio de territórios e serviços essenciais tomados por criminosos.
População brasileira exige propostas de soluções reais e rápidas para o domínio de territórios e serviços essenciais tomados por criminosos. (Foto: Infografia/Gazeta do Povo a partir de imagem de Marcelo Camargo/Agência Brasil)

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Entra eleição, sai eleição, e a sensação generalizada é que a situação só piora — e não é que falte dinheiro para o combate ao crime no Brasil: caro e ineficiente, o aparato de segurança pública nacional custa centenas de bilhões de reais por ano do bolso dos contribuintes.

De acordo com dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública mais recente, de 2025, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) com dados compilados até o ano anterior, as despesas com segurança pública em todas as esferas de poder somaram R$ 153 bilhões apenas em 2024, com projeção de aumento crescente para este e os próximos anos.

(Esta reportagem faz parte da série Brasil Seguro, que examina erros em políticas de segurança pública e traz exemplos do que fazer para assegurar a autoridade da lei. Confira aqui os outros textos da série.)

O valor equivale a 1,3% do Produto Interno Bruto (PIB) do mesmo período do gasto — ou quase metade dos investimentos em saúde pública, que alcançaram cerca de 3,8% do PIB em 2022, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apesar disso, os cidadãos brasileiros convivem com a sensação de insegurança e de que está “tudo dominado” pela violência das facções criminosas.

E essa percepção vem sendo intensificada, conforme indicam pesquisas de opinião recentes recentes colhidas por institutos renomados — apesar da queda relevante e consistente ao longo dos anos de alguns índices criminais importantes, como o de homicídios (mortes violentas).

Quedas estatísticas não bastam para os candidatos

E não vai adiantar os candidatos a cargos públicos nas eleições deste ano, tanto ao Legislativo quanto ao Executivo, se apegarem a quedas estatísticas. A população exige propostas de soluções reais e rápidas para o domínio de territórios e serviços essenciais tomados por criminosos, como as milícias cariocas e o Comando Vermelho (CV) país afora, o descontrole nos roubos e furtos de aparelhos celulares, a corrupção policial e muito mais.

De acordo com pesquisa Genial/Quaest divulgada no dia 15 de abril, a violência é o principal problema do Brasil para 27% dos entrevistados. A corrupção aparece em segundo lugar, com 19% das menções, seguida pelos problemas sociais (16%) e pela saúde (14%). A economia aparece com 9% no ranking de preocupação dos brasileiros, e a educação fecha a lista, com 7% das respostas.

O levantamento foi realizado entre os dias 9 e 13 de abril e reflete a opinião de 2.004 eleitores com 16 anos ou mais. A sondagem foi feita com questionários telefônicos e entrevistas presenciais, e tem margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. A taxa de confiança do levantamento é de 95%. 

Na série histórica da Genial/Quaest sobre o tema, a violência vem se mantendo no topo da lista das preocupações das pessoas desde o início de 2025 — o ápice ocorreu em novembro de 2025, quando os números chegaram a atingir quase 40%.

Estados pagam maior parte da conta 

Um levantamento da Confederação Nacional de Municípios (CNM), divulgado em maio, revelou que os gastos das cidades brasileiras com segurança pública aumentaram 66% entre 2016 e 2025. No período de aproximadamente uma década, os valores saltaram de R$ 7,5 bilhões para R$ 12,4 bilhões.

Segundo os dados divulgados, o crescimento dos gastos das prefeituras com segurança pública se deve especialmente a dois fatores: aumento de despesas com Defesa Civil devido a tragédias climáticas e o aumento do uso de guardas municipais. Os municípios reclamam que foram obrigados a ampliar seus próprios efetivos de segurança diante da ausência de cobertura adequada das forças policiais estaduais e federais, como a Militar, a Rodoviária e a Federal, cuja responsabilidade é das administrações dos estados e da União.

De acordo com os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, que abrem esta reportagem, a União declarou gastos totais de R$ 21 bilhões em 2024 na área da segurança pública, um aumento de 22% em relação ao ano anterior. Os estados, por sua vez, registraram R$ 118,5 bilhões em despesas na área, com crescimento de 2,4%. Por sua vez, os municípios declararam R$ 13,5 bilhões em gastos com segurança pública, o que representa um aumento de 18,8% no mesmo período.

Na análise do Fórum de Segurança Pública, o período de 2021 a 2024 revela que foram justamente os municípios os entes que mais ampliaram proporcionalmente sua participação no financiamento da política de segurança pública: enquanto a União aumentou as despesas em 36,9% e os estados em 19,8%, os municípios aumentaram em expressivos 58,2% os gastos com segurança pública no mesmo período — um resultado muito parecido com o do levantamento da CNM divulgado em maio deste ano.

Criminalidade faz brasileiro deixar de circular em determinados horários e locais

Os índices de criminalidade e a sensação de insegurança, no entanto, não diminuem na mesma proporção em que os gastos avançam. Se por um lado os índices de homicídio apresentam queda consistente ao longo dos últimos anos — o número de homicídios caiu 24,9% na década encerrada em 2023, segundo o FBSP — por outro, o furto e roubo de telefones celulares e a presença de facções criminosas no cotidiano das pessoas só pioram, com poucos avanços ano a ano.

O Brasil registra uma média de 2,5 mil celulares roubados ou furtados por dia, o que equivale a quase 1 milhão de ocorrências anuais. Estelionatos (especialmente eletrônicos); violência contra crianças e adolescentes; apreensão de drogas sintéticas e tentativas de fraudes são outras modalidades de crime que incomodam a população e que continuam a crescer.

Se em 2018 o Brasil registrou 1,5 milhão de roubos, em 2024 esse número caiu para cerca de 700 mil, menos da metade em um período de seis anos. Os casos de estelionato, por sua vez, subiram de 400 mil para 2,2 milhões de registros no mesmo período, um aumento de 550%.

De acordo com a pesquisa “Governança criminal na América Latina: prevalência e correlações”, realizada na universidade britânica de Cambridge e publicada em agosto de 2025 na revista de ciência política Perspectives on Politicsuma população entre 50,6 milhões a 61,6 milhões de pessoas no Brasil vive em locais que possuem regras diferentes das vigentes para os demais cidadãos. São territórios onde prevalece também (ou apenas) o que mandam as facções criminosas. Trata-se de algo entre 25% e 30% da população nacional, de acordo com o último Censo do IBGE.

Outro levantamento recente sobre o problema, do instituto de pesquisas Datafolha divulgado em outubro do ano passado, traz um número um pouco menos catastrófico, mas ainda muito alarmante: ao menos 28 milhões de brasileiros vivem em territórios sob jugo de facções criminosas ou milícias no país. O crescimento foi de cinco pontos percentuais em um ano.

Assim, não é surpresa que uma pesquisa da Confederação Nacional do Comércio (CNC) revele que 42% dos cidadãos em capitais admitem ter deixado de circular em determinados horários ou locais por medo específico de ter o celular subtraído. Além disso, o custo das apólices de seguro para smartphones subiu 22% entre 2025 e 2026, segundo a mesma pesquisa.

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