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Até poucos dias, Dom Rafael de Orleans e Bragança, de 40 anos, era uma figura pouco conhecida pelos brasileiros, embora ocupe o segundo lugar na linha sucessória da família imperial caso a monarquia seja restaurada. O cenário mudou um pouco após ele criticar o Supremo Tribunal Federal (STF).
Em horas, um vídeo dele sobre a corte vídeo ultrapassou 1 milhão de visualizações. O perfil recém-lançado no Instagram saltou de 40 mil para 140 mil seguidores.
“Quem julga o julgador?” perguntou ele. “Diante de uma crise como essa, é natural procurarmos os culpados. Mas talvez valha a pena fazer uma pergunta um pouco mais profunda: o problema são as pessoas ou é o sistema?”
O atual chefe da Casa Imperial é Dom Bertrand de Orleans e Bragança, de 85 anos, e sem filhos. Ele é tio de Dom Rafael, que assumiu o posto de herdeiro imediato após a morte do pai, Dom Antônio, em 2024.
Nascido em Petrópolis, engenheiro de produção formado pela PUC-Rio, ele vive há 8 anos em Londres, onde é sócio de uma consultoria.
O príncipe está de casamento marcado para novembro com a aristocrata italiana Margherita delle Piane, de 38 anos. O casal namora há quatro anos e se conheceu através do irmão dela, casado com uma prima de Dom Rafael.
Este romance traz ao mundo moderno nuances dos antigos contos de fadas. O fato de ela não ser princesa, ameaça a posição dele na linha sucessória. Pelas regras não atualizadas da família imperial, o casamento com uma pessoa sem título de nobreza exige autorização do chefe da família.
Por enquanto, reina o silêncio. “São discussões internas, as coisas serão resolvidas à medida que forem avançando”, disse Dom Rafael à Gazeta do Povo.
Em meio às mazelas da República e à projeção do príncipe, grupos pró-monarquia aproveitam para crescer. Um dos argumentos é o fato de que entre os países no topo do ranking em desenvolvimento humano, menor corrupção e democracia consolidada, estão Suécia, Dinamarca, Reino Unido, Espanha, Noruega e Holanda, todos monarquias constitucionais parlamentaristas.
Leia a entrevista de Rom Rafael à Gazeta do Povo.
Como é a educação de um membro da família real?
Fomos educados para servir ao Brasil, não para esperar um trono. Temos muito orgulho do legado que carregamos, da importância que a família teve não só para o Brasil, mas para Portugal e, subindo mais na genealogia, até para outros lugares. Crescemos com a ideia: de que maneira posso melhor representar esse legado? Independentemente da minha posição na linha de sucessão, meu sobrenome sempre deu o selo de como devo me comportar, deve ser exemplar. Espera-se que os descendentes continuem um bom trabalho a serviço do que é certo. E aprendemos que não era para tirarmos proveito de nada.
Quem são os monarquistas brasileiros?
Vem muito do brasileiro conservador nos costumes, que preza pela família, pelos valores morais, pelos princípios cristãos. O Brasil é um país cristão e esses princípios de base formaram a nossa sociedade. O movimento sempre existiu, só estava adormecido, o brasileiro não sabia que era monarquista (risos). No final das contas, não tem uma figura que represente a todos e o rei está acima de qualquer ideologia política. O movimento monarquista tem ganhado muita força exatamente porque a representação do chefe de Estado vem para conciliar uma crise política. Em monarquias, o chefe de Estado, o monarca, é o apaziguador. A crise política é passageira porque tem essa figura maior.
Poderia citar um exemplo desse papel sendo exercido pelo monarca?
Sim. Em 2011, a Bélgica atravessava uma crise política. Foram 541 dias sem que o Congresso conseguisse formar governo, com duas regiões em disputa: Flandres [ao Norte, liderada pelo Partido Nacionaista] e a Valônia [ao Sul, liderada pelo Partido Socialista]. Pensaram em dividir o país. E foi o rei [Alberto II] quem manteve a estabilidade e não deixou o pior acontecer.
Como restaurar a monarquia no Brasil?
Qualquer movimento legítimo tem que vir, primeiro, por aclamação popular. A monarquia depende do reconhecimento popular para existir. Sem esse movimento, não tem restauração e nem deveria haver. O movimento precisa ser claro, não pode ser simplesmente saudosismo. E por vias democráticas, com plebiscito e revisão constitucional.
A atual Constituição não conversa com uma monarquia constitucional parlamentarista. É preciso que ofereça ao monarca a chefia de Estado, que defina como seria essa divisão e a criação desse novo poder. A Constituição de 1824 tinha existia o Poder Moderador. Nas monarquias modernas, ele não tem esse nome, mas continua existindo. De uma maneira ou de outra, os reis ainda têm o poder de veto. Eles ainda têm o poder de influência nos outros poderes. Porém, pelo simples fato de existir, nem precisam ir além porque todos jogam dentro das regras. As crises que vemos hoje ocorrem porque todo mundo fica se arbitrando. Como disse no vídeo: Quem julga o julgador? O STF apita o próprio jogo quando eles mesmos estão envolvidos em um escândalo e, ao mesmo tempo, são a voz da Justiça.
O imperador pode demitir ministros?
Pode, mas tem que vir do Congresso.
Então, a Monarquia Parlamentarista resolveria problemas que a República não está conseguindo?
Evitaria abusos. O que está acontecendo teria um basta e a Casa seria reorganizada por não estar funcionando. Como já falei, minha família foi educada para servir e ser exemplo. Se você tem na chefia do governo, na chefia do Estado uma pessoa de caráter ilibado e transparente, vira uma referência, um modelo a seguir. É liderar pelo exemplo. A monarquia é apartidária, não tem viés político, não tem aliança política, não tem benefício fazer esse tipo de aliança, então consegue uma posição isolada, ponderada e blindada. É possível transmitir os reais valores e isso se reflete no comportamento da sociedade.
Acredita estar preparado para esse papel?
A chefia de Estado é uma posição cívica. Não é um emprego. É um trabalho que eu já faço, representando o país e a família. Morando no exterior, sempre defendo o Brasil verdadeiro, é não falar só de problemas. É uma diplomacia. Além do Poder Moderador, o monarca é o chefe da diplomacia e das Forças Armadas.
Em 2025, o Senado recebeu uma sugestão para realizar um novo plebiscito sobre a monarquia. A proposta teve mais de 30 mil apoios no e-Cidadania. A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) foi a relatora e deu parecer contrário à proposta. Como viu isso?
Acho que a reprovação foi mais pela maneira como a sugestão foi escrita e não, necessariamente, porque os senadores sejam contra um plebiscito. O texto dava margem para interpretar que qualquer família possa se candidatar a Chefia de Estado. Por isso, digo que tem que ter um movimento organizado. Tem que reverter a ordem das coisas. Não pode ter plebiscito antes de uma nova Constituição que preveja isso de maneira sólida e robusta, para restabelecer a união e a reconstrução que esperamos.
Não é utópico acreditar na volta da monarquia quando gerações foram ensinadas a celebrar o 15 de novembro como “Proclamação”, e não um golpe contra o Império?
Essa questão do ensino… lembro que chegávamos do colégio, mostravamos o que tínhamos aprendido e passavamos a limpo o que não estava bem contado. Mostram o Brasil Império como algo completamente ultrapassado, como se fosse Roma Antiga, algo que não existe mais. Passam pelos caminhos que a República fez para chegar aonde estamos hoje e, veja, não estamos em nenhum lugar.
Quem sustentaria o imperador?
O monarca não tem que buscar remuneração, repito, é função cívica. Veja o exemplo de Liechtenstein, é uma monarquia e o príncipe não recebe dinheiro do governo. O Brasil não tem necessidade de onerar mais o cidadão, criar um fundo, um ministério, mais despesa, inchar ainda mais o Estado. Muito pelo contrário, tem que reduzir. Temos que enxugar bastante dentro da própria estrutura governamental, tem muito custo pra cortar para ser mais eficiente e produtivo. A família está há 137 anos fora do poder e a gente se sustenta com nossos próprios meios.
E as viagens internacionais oficiais, quem pagaria?
Já tem orçamento dentro do governo para isso. Hoje o chefe de governo e o chefe de Estado são a mesma pessoa. Portanto, não vai mudar. As delegações dessas viagens oficiais são enormes e não tem necessidade. O gasto não será maior, será menor. A representação é uma pessoa, não precisa levar trinta.
Como foi sua recente viagem à China com empresários brasileiros, recebido na Embaixada do Brasil em Pequim?
Admiro a China pelo crescimento econômico e a transformação que passou. O avanço tecnológico e as barreiras de tecnologia que estão derrubando são impressionantes. A escala que eles têm, com um bilhão e quinhentos milhões de pessoas, também impressiona. Em termos de regulamentação, incentivo e competição, diria que, de certa maneira, é até mais capitalista do que os Estados Unidos, que tem muita regulamentação. É contraditório porque é o Partido Comunista Chinês (PCCh), mas tem uma liberdade econômica muito grande. E a China é o maior parceiro comercial do Brasil.
Muitos temem os acordos firmados entre o PCCh e o governo Lula.
Tem riscos? Sim. O Brasil tem que buscar sempre o que é melhor para o Brasil, não pode ser dependência política. Parceria comercial tem que ser bilateral, boa para ambos. Na sala de negociação tem que garantir a soberania do país. Não é para fazer negócios só com quem tem mais alinhamento ideológico. Nem pode ter dependência política do tipo, se mudar o governo, não quero falar com ele porque sou contra as ideologias dele.
Como vê a relação Governo Trump X Governo Lula?
A gente pode ser contra as posições,opiniões e ideologias do chefe de Estado de outra nação. Entendo que o Lula tenha essa situação com o Trump. Vários países têm embate com Trump. Mas, repito, tem que olhar para o que é melhor para o Brasil. O Trump é claro: “America first”. Ele quer o melhor para a América. Ao negociar uma parceria, ele olha para os interesses dele, não faz politicagem. Não estou tomando partido, nem dizendo que estou de acordo com as políticas e posicionamentos dele, apenas uma observação factual, ele foi claro: Make America Great Again. No governo brasileiro prévio, Bolsonaro tinha divergências ideológicas com Biden e manteve uma aproximação de paz com os Estados Unidos.
Como vê a crise na Europa com a imigração muçulmana?
A Europa tenta remediar um problema que poderia ter prevenido. O Ocidente, a sociedade cristã, permite liberdade religiosa. Tudo bem, as pessoas devem professar a fé que se sentem melhor. O problema foi a Europa ter incentivado essa liberdade de tal maneira que os imigrantes mulçumanos impuseram as próprias regras, a Lei da Sharia, que permite a pedofilia, a poligamia, o apedrejamento, um monte de absurdos que não condiz com nossos princípios, e não digo nem conservador, mas os valores do Ocidente.
A população europeia está em uma pirâmide inversa de crescimento, tendo menos filhos, enquanto a muçulmana se multiplica. Já tem uma segunda ou terceira geração de mulçumanos que são ingleses, franceses etc. O Brasil tem que se programar, se prevenir. Deixar claro que não aceita que sistemas jurídicos paralelos concorram com a lei brasileira. A imigração pode acontecer, mas é como abrir a porta da sua casa, você espera que as pessoas se comportem dentro das suas regras.
Seu primo, o deputado federal Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PL-SP) , protocolou o Projeto de Lei 824/2026, anti-Sharia. Conversam sobre política?
Sim. A gente troca bastante ideia. É família, né? A família é muito grande, mas sempre que temos oportunidade, estamos juntos. Também converso com amigos que têm uma visão ideológica completamente diferente. Gosto de ouvir, quero entender o ponto de vista do outro, como enxerga a situação. Quero estar munido de informação para não ter uma visão unilateral das coisas.
Como surgiu a ideia dos vídeos?
Há algum tempo vinha pensando que deveria fazer algo mais público. O movimento monarquista já vinha aparecendo mais. Com a crise no STF e a eleição, que é sempre um período delicado, veio o momento oportuno. As pessoas me perguntam onde me coloco nessa história. Então, achei por bem questionar: estamos há 137 anos sob uma República, será que este modelo de instituições está realmente funcionando, é o ideal?



