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Além do lulismo

Não gosta da esquerda de hoje? Vai piorar: conheça os novos extremistas eleitos em 2026

Ana Elisa, Renato Freitas e Guilherme Cortez: jovens políticos da esquerda mais extrema e radical que chegam à Câmara em 2027
Ana Elisa, Renato Freitas e Guilherme Cortez: jovens políticos da esquerda mais extrema e radical que chegam à Câmara em 2027 (Foto: Ricardo Stuckert/PT/Ana Elisa), Orlando Kissner/Alep/Renato Freitas e Rodrigo Costa/Alesp/Gustavo Cortez)

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Se você não gosta da esquerda de hoje, espere para conhecer a próxima. Parte dela foi eleita no último dia 4 e chega à Câmara e às assembleias legislativas falando em revolução, reestatização, legalização do aborto e fim do ensino religioso nas escolas públicas.

Composta por jovens que se projetaram na internet, essa turma quer ocupar o espaço do lulismo apostando em ideias extremas. Mas, enquanto os velhos sindicalistas do PT ainda negociavam com o patrão, a nova geração olha torto para quem acredita em diálogo.

A lista tem mais de 20 nomes espalhados por sete estados e pelo Distrito Federal, divididos entre PT, PSOL e PCdoB. O grupo reúne influenciadores comunistas, militantes de movimentos sociais e ativistas woke. Alguns vão assumir o primeiro mandato. Outros já tinham uma cadeira e passaram para um cargo diferente.

Mas será que esse bloco vai fazer alguma diferença? Ou só aumentar o barulho dos camaradas que já vivem de gritaria?

“Muso” de Caetano Veloso

Os novos parlamentares se destacam pela votação expressiva, pela forte presença digital ou pelas propostas que combinam Marx, agenda identitária e métodos de ditaduras socialistas — tudo, claro, com uma conta salgada para o contribuinte pagar.

Aos 21 anos e com 524 mil votos para deputada federal, Ana Elisa (PT-MG) foi chamada para ajudar Lula na internet, mas virou dor de cabeça com prints antigos sobre “zoar brancos” e proibir padres nas redes. Suas propostas de campanha incluíram ampliar benefícios estudantis e cotas raciais. Ou seja: uma embalagem digital para a velha receita de expandir o Estado.

Já Renato Freitas (PT-PR), conhecido por invadir uma igreja católica e se envolver numa briga de rua em plena luz do dia, vai trocar a Assembleia Legislativa do Paraná por Brasília. O advogado defende a legalização da maconha e, quando o assunto é polícia, troca a pose de valentão pelo discurso contra a violência.

Estreando direto na Câmara, Jones Manoel (PSOL-PE) faz questão de se definir como comunista, marxista-leninista e revolucionário. Ele quer reestatizações, jornada de 30 horas sem redução salarial, anistia a pequenos traficantes e fim do ensino religioso nas escolas públicas.

Dublê de historiador, influencer e debatedor profissional, Jones também é uma espécie de “muso” de Caetano Veloso — que admitiu olhar com mais carinho para o socialismo depois de seguir suas dicas de leitura.

Só pensa na China

Outro que já começa no Congresso, Elias Jabbour (PCdoB-RJ) só pensa na China. Assessor direto de Dilma no Banco dos Brics, o geógrafo fala em reindustrialização comandada pelo Estado e revogação do arcabouço fiscal. Em bom português: mais poder para o governo, menos freio para os gastos.

Com jeito de bom moço e discurso “ecossocialista”, o advogado Guilherme Cortez (PSOL-SP) passa de deputado estadual a federal. Seu programa vai da regulação de aluguéis e reversão de privatizações à legalização do aborto e da maconha, com o rompimento de relações com Israel no pacote.

Quem chega pela primeira vez à Assembleia paulista é Sofia Favero (PSOL), que fez fama com a página Travesti Reflexiva e deve muito ao apadrinhamento de Erika Hilton. Recebeu 407 mil votos e põe na conta da direita a insistência no tema do pronome neutro.

Também no âmbito estadual, Humberto Matos (PCdoB) chega ao parlamento gaúcho com um currículo parecido com o de Jones Manoel: é professor de História e influenciador especializado em discussões sem fim no YouTube.

Humberto quer organizar a juventude radicalizada na internet e se inspira na China para planejar os gastos públicos em ciclos de cinco anos — porque, pelo visto, o Estado brasileiro ainda manda pouco.

Radical até no nome

Parte desse movimento se organizou na autointitulada Bancada da Esquerda Radical, lançada em julho por figuras como Jones Manoel, Renato Freitas e os já veteranos psolistas Sâmia Bomfim e Glauber Braga. O manifesto do grupo propõe revogar as reformas trabalhista e previdenciária, acabar com a autonomia do Banco Central, regular preços e promover reestatizações.

Muita intervenção? Para eles ainda é pouco. “O manifesto é da esquerda radical, mas o programa não é socialista”, explicou Sâmia ao site Ópera Mundi.

Segundo ela, são medidas que “servem para o avanço de consciência da população” — na direção que a militância considera correta, naturalmente.

Mas se o antigo sindicalismo sentava à mesa para negociar salários e benefícios, a nova extrema-esquerda não está muito para conversa com a “burguesia”. Pelo contrário: seu discurso, pelo menos no papel, tem tintas revolucionárias.

No segundo turno contra Flávio Bolsonaro, todos ainda estão no mesmo palanque. Depois da eleição é que veremos quem topa fazer acordo e quem leva a conversa de revolução a sério.

Uísque e charuto

Isso não significa que a paz reine na extrema-esquerda. Afinal, rachar o movimento é uma tradição mais antiga do que o próprio Manifesto Comunista.

Elias Jabbour, que não faz parte da Bancada da Esquerda Radical, já provocou os camaradas ao perguntar como o grupo pretende aprovar seu programa sem negociar com o Centrão. Glauber Braga respondeu com Lênin: o mandato deve servir para mobilizar as ruas e pressionar o Congresso, não para convencer dirigentes em conversas regadas a uísque e charuto.

Mais tarde, Jabbour reconheceu a importância da pressão popular defendida por Glauber e companhia. E a revolução sobreviveu à tensão.

Mas sempre aparece alguém para avisar que o radicalismo está meio aguado. O decano Zé Maria, do PSTU, disse que a bancada presta um “desserviço” à construção de uma alternativa política para os trabalhadores.

Para ele, apoiar Lula mantém esse eleitorado preso ao PT. E um programa sem ruptura imediata com o capitalismo é concessão demais.

Guilherme Boulos também já deu suas alfinetadas nos extremistas. Famoso por invadir prédios com o MTST, ele chamou o movimento de “academicista” e “lacrador”, que “só prega para convertido” e “não bota dez pessoas na rua”.

A rixa é antiga. Jones Manoel acusa Boulos de tentar barrar sua candidatura pelo PSOL e diz que o ministro se acomodou ao governismo. “O Brasil tem uma coisa muito curiosa: os nossos radicais deixam muito rápido de ser radicais”, afirmou o youtuber, em entrevista para a Folha de S.Paulo.

Minoria barulhenta

As brigas internas, no entanto, não têm impedido a extrema-esquerda de pautar o Congresso e conquistar apoio para suas propostas.

Para a advogada Anne Dias, comentarista da Gazeta do Povo, a mobilização de Erika Hilton pelo fim da escala 6x1 é um exemplo de como uma minoria consegue colocar os demais parlamentares sob pressão. “Uma voz sozinha conseguiu fazer todo esse barulho”, diz.

Um deputado não precisa convencer os colegas a aderir ao socialismo. Basta tornar uma proposta popular o suficiente para que votar contra ela pareça um risco eleitoral.

E o alerta não se limita à esquerda. A advogada teme que parlamentares da nova direita também abracem projetos populistas para agradar ao público e garantir a reeleição.

Mobilizados pelo ressentimento

Para Anne Dias, portanto, é um erro tratar o fenômeno dos jovens políticos radicais de esquerda como apenas um bando de perfis barulhentos na internet.

Esses nomes, segundo ela, devem ocupar o espaço deixado pelo lulismo — incapaz de preparar sucessores e acompanhar as mudanças na comunicação. “O lulismo morreu, a esquerda não morreu. A esquerda sempre existiu e vai continuar existindo”, afirma a comentarista.

Não que Lula ainda não seja a figura central do seu campo político. Mas novas lideranças vêm construindo uma relação própria com o eleitor, sem depender da bênção do presidente. E a diferença, para Anne, está principalmente na maneira de conquistar esse público.

Ela destaca a fórmula usada por Ana Elisa em sua campanha de mais de meio milhão de votos em Minas Gerais: apresentar o adversário como inimigo e manter a audiência mobilizada pelo ressentimento. “É a estratégia de separar o mundo em dois e atacar o meu oponente”, explica.

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