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Voto no "menos pior"

O voto útil está transformando o primeiro turno em um plebiscito?

Lula e Flávio voto útil
As campanhas de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) tentam angariar o "voto útil" já no primeiro turno. (Foto: Montagem da Gazeta do Povo sobre fotos de Ricardo Stuckert e Vittor Sales)

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O modelo de eleição brasileira para os cargos do Executivo prevê dois turnos, mas a disputa presidencial ultimamente tenta resolver o pleito como se houvesse apenas uma única etapa. À medida que a votação se aproxima, candidatos, partidos e militantes passam a repetir o mesmo argumento: é preciso concentrar votos em quem aparece na frente para impedir a vitória do adversário. A lógica é simples — e politicamente poderosa. O eleitor que não gosta de nenhum dos favoritos é chamado a escolher aquele que considera menos ruim, no chamado “voto útil”. 

Embora seja uma estratégia eleitoral conhecida por sua aplicação no segundo turno, o fenômeno produz um efeito importante sobre a fotografia que sai das urnas no primeiro domingo de eleição: candidatos que poderiam representar parcelas relevantes do eleitorado podem desaparecer na contagem final. E isso ocorre não necessariamente por falta de identificação com suas propostas, mas porque seus potenciais eleitores foram convencidos de que votar neles seria desperdiçar o voto. 

Cientista política e professora da FGV, Luciana Veiga vê aí uma distorção da lógica esperada de uma eleição em dois turnos. Na avaliação dela, o primeiro turno deveria permitir ao eleitor expressar sua preferência entre as diferentes alternativas, enquanto a decisão entre dois nomes deveria ficar apenas para a segunda etapa. 

“A lógica de um sistema eleitoral em dois turnos é fazer com que o eleitor, num primeiro momento, no primeiro turno, vote em quem ele gostaria de votar. O que a gente está vendo é uma anomalia do que se poderia esperar do sistema”, avaliou, em entrevista à Gazeta do Povo. 

Na avaliação da especialista, a campanha eleitoral pode transformar o primeiro turno em uma espécie de plebiscito antecipado. Em vez de perguntar ao eleitor qual candidato representa melhor suas ideias, a pergunta passa a ser outra: quem você precisa impedir que vença? 

O eleitor escolhe o “voto útil” sempre contra alguém 

Essa mudança altera também o conteúdo da campanha. Em uma disputa marcada pelo antilulismo e pelo antibolsonarismo, boa parte da mobilização eleitoral deixa de depender da identificação com um programa de governo e passa a depender fortemente da rejeição ao adversário. 

Rangel Ramiro Ramos, doutor em Ciência Política e professor da PUC-PR, resume essa dinâmica de forma direta. “O eleitor acaba sendo mobilizado muito mais por um ódio, por uma ojeriza, por alguém que ele detesta. A narrativa do voto útil é uma ferramenta discursiva para alimentar essa campanha, porque no fundo essa ideia de voto útil meio que não existe tecnicamente dentro da eleição”, explicou. 

A expressão “voto útil”, afinal, não aparece na legislação eleitoral como uma categoria diferente de voto. Todo voto destinado a um candidato é contabilizado dentro das regras estabelecidas para a eleição. O que existe e é explorado pelas campanhas é uma estratégia política para convencer o eleitor de que determinadas escolhas têm maior capacidade de produzir o resultado que ele deseja. 

É neste ponto que a pressão se torna relevante. Um eleitor pode preferir um terceiro candidato, mas abandonar essa opção porque acredita que ela não tem chances de chegar ao segundo turno. O resultado é uma eleição em que a intenção de impedir determinado candidato pode pesar mais do que a preferência por aquele que efetivamente receberia o voto. 

Candidaturas começam a morrer antes da urna 

O fenômeno não afeta apenas o eleitor. Candidaturas menores também precisam enfrentar a lógica pragmática dos próprios partidos. Foi assim com o ex-ministro Ricardo Salles (Novo), candidato ao Senado em São Paulo que abriu mão da disputa em favor de dois de seus até então adversários: Guilherme Derrite (PP) e André do Prado (PL).

Apontado pela campanha como principal articulador do acordo, o candidato à reeleição e governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos) afirmou que o grupo “está dando um exemplo de que as diferenças podem ser deixadas de lado”. 

Também do Novo, o presidenciável Romeu Zema reconheceu a pressão para desistir do pleito, mas garantiu que seguirá na disputa até o fim. “Irei até o último minuto. Tenho compromisso com o meu partido, meus apoiadores e comigo mesmo. Nunca desistir de nada”, declarou em entrevista ao site Plox.

Na política brasileira, esse processo é conhecido como “cristianização”: o candidato oficial permanece na disputa, mas perde progressivamente o apoio de lideranças, aliados e até de setores da própria estrutura partidária, que passam a apostar em outra candidatura considerada mais competitiva. 

Luciana Veiga explica que o cálculo não é exclusivamente ideológico. Há também uma dimensão financeira e institucional. “Quando a base em última instância começa a apoiar outro candidato e ele fica isolado, isso desencoraja os partidos e o próprio sistema em relação às candidaturas”, avaliou. 

O cálculo, portanto, é relativamente simples: se uma candidatura presidencial tem poucas chances de chegar ao segundo turno, recursos, tempo, estrutura e atenção podem ser deslocados para candidatos competitivos nas eleições proporcionais. 

Para as direções partidárias, a eleição para a Câmara dos Deputados tem peso decisivo. O tamanho das bancadas interfere na sobrevivência política e financeira das siglas, inclusive no acesso aos recursos públicos destinados aos partidos e nas regras relacionadas à cláusula de desempenho. 

O efeito é uma espécie de círculo vicioso. Quanto mais os eleitores acreditam que apenas dois candidatos têm chances reais, mais os partidos abandonam os demais. E quanto mais os partidos abandonam essas candidaturas, menos competitivas elas parecem aos eleitores. A alternativa perde votos porque é considerada inviável; e parece inviável, em parte, porque perdeu votos. 

A urna não separa o voto convicto do voto útil 

Existe ainda um problema menos visível. As pesquisas conseguem medir a rejeição e a intenção de voto; a urna, não. O voto de um eleitor em um candidato de sua preferência e o voto de outro que tenta escolher o menos pior têm o mesmo peso. No final, quem vota por convicção e quem não quer perder o voto produzem exatamente a mesma informação: um voto para determinado candidato. 

A cientista política da FGV reforça que não existe na urna nenhum campo indicando “voto por convicção”, “voto útil” ou “voto contra alguém”. Como explica Veiga, “se o eleitor vai votar com o peito cheio de adesivos ou ‘de nariz fechado’, para a comunicação do sistema político, os dois votos valem a mesma coisa. Não tem um asterisco ali.” 

Isso significa que uma candidatura pode terminar uma eleição com milhões de votos e, ainda assim, o resultado não revelar quantos daqueles eleitores realmente a escolheram como primeira opção. E para a especialista, isso é especialmente problemático em um cenário como o das eleições do próximo domingo, quando cerca de 40% dos eleitores não demonstram intenção de votar nem em Lula (PT), nem em Flávio Bolsonaro (PL). 

A percepção se reflete na pesquisa Quaest divulgada em 28 de setembro de 2016. O levantamento mostrou que na pesquisa espontânea, quando os nomes dos candidatos não são apresentados aos eleitores, Lula e Bolsonaro somam 58% das intenções de voto. Os restantes indicam indecisão ou a preferência por outros nomes e até mesmo pelos votos nulos ou brancos. 

Metodologia: 2.004 entrevistados pela Quaest de 24 a 27 de setembro de 2026. A pesquisa foi contratada pela Editora Globo e pela Globo Comunicação e Participações S.A. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 2 pontos percentuais. Registro no TSE sob o nº BR-06520/2026. 

Decisão focada na rejeição mata a possibilidade de “terceira via” 

A consequência política é relevante. Se uma parcela expressiva do eleitorado abandona sua primeira preferência para evitar determinado resultado, a votação final pode transmitir aos partidos uma sensação de apoio maior do que aquela existente antes da campanha pelo voto útil. 

Em um cenário em que um candidato chega com uma votação significativa em terceiro lugar, a indicação dada pelos votos é que pelo menos algum ponto de seu programa de governo chamou a atenção dos eleitores. 

Quem passa para o segundo turno teria, em tese, uma visão estratégica em adotar esse ponto de interesse, ou ao menos buscar o voto desses eleitores. Mas com a polarização transformando o primeiro turno em um plebiscito, os derrotados perdem até mesmo esse pequeno poder de barganha. 

Voto útil no primeiro turno atrofia a diversidade ideológica 

Para os especialistas ouvidos pela reportagem, a narrativa do voto útil atinge o núcleo fundamental do regime democrático: a liberdade de escolha e a convivência com projetos distintos de país. O voto motivado pela rejeição já no primeiro turno atua como uma engrenagem que antecipa o pleito e espreme o eleitorado entre apenas duas opções quando há mais de uma dezena de nomes na disputa. 

De acordo com o professor Ramos, a democracia perde sua substância quando o debate público é reduzido à rejeição sumária do adversário. “O ponto central da democracia é exatamente a possibilidade de diversidade, de possibilidades de várias escolhas, de distribuição de poder, de maior participação das pessoas. A narrativa do voto útil só alimenta ainda mais a polarização”, ponderou. 

Para ele, substituir a apresentação de propostas pelo incentivo ao “voto no menos pior”, leva ao empobrecimento do ambiente político, privando a sociedade de discussões profundas sobre os seus problemas estruturais. 

A consequência mais grave desse processo é a invisibilização da insatisfação popular, em especial dos eleitores que não se sentem representados por nenhuma das candidaturas líderes. “Quando você desencoraja essa pessoa a se identificar em um voto alternativo, ela deixa de comunicar ao sistema o que está expressando nas pesquisas. Isso não é bom para a democracia”, disse Veiga. 

Há, nesse mecanismo, um paradoxo. O voto útil é apresentado como a maneira mais racional de fazer o voto produzir resultado. Mas, quando todos os eleitores que não se identificam com os líderes adotam a mesma lógica, as próprias urnas passam a mostrar uma realidade mais estreita do que aquela existente antes da votação. 

Não quer dizer que o eleitor esteja errado ao fazer um cálculo estratégico. Escolher um candidato para impedir a vitória de outro também é uma decisão política legítima. Mas quando esse raciocínio domina o primeiro turno, o resultado pode deixar de revelar com clareza o tamanho da diversidade de pensamento dos eleitores. 

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