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Arqueologia

Escola de Aristóteles e Alexandre, o Grande pode ter sido identificada em ruínas na Grécia

Pintura de Gerard Hoet retrata o encontro entre o jovem Alexandre, o Grande, e Aristóteles, relação que marcou a formação do futuro rei macedônio.
Pintura de Gerard Hoet retrata o encontro entre o jovem Alexandre, o Grande, e Aristóteles, relação que marcou a formação do futuro rei macedônio. (Foto: Wikimedia Commons)

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Há mais de 2,3 mil anos, um jovem príncipe macedônio – Alexandre, O Grande – teria recebido aulas de um dos maiores filósofos da Antiguidade – Aristóteles – em um complexo construído especialmente para formar a elite do reino.

Agora, novas escavações na antiga cidade de Mieza, no norte da Grécia, revelaram salas de ensino, estruturas esportivas, espaços para banquetes e objetos ligados à escrita que reforçam a hipótese de que o local seja justamente o antigo Ginásio Real onde Aristóteles ensinou Alexandre, o Grande.

A pesquisa arqueológica é conduzida pela arqueóloga Angeliki Kottaridi e ganhou novos elementos – publicados pelo Ministério da Cultura da Grécia no dia 3 de setembro deste ano – após escavações iniciadas em 2024.

O conjunto ocupa cerca de 30 mil metros quadrados e apresenta características compatíveis com um grande ginásio da época de Filipe II, pai de Alexandre. Entre os achados estão quatro estiletes usados para escrever, moedas, cerâmicas, pisos de mosaico e elementos arquitetônicos.

Apesar da força das evidências, os arqueólogos ainda não afirmam ter encontrado um objeto que possa ser diretamente associado a Alexandre. A identificação do complexo com a escola descrita pelas fontes antigas é uma conclusão arqueológica em desenvolvimento, sustentada pela localização, pela cronologia, pela arquitetura e pela função do conjunto.

Onde ficava a escola de Aristóteles e Alexandre?

A antiga Mieza ficava na região da atual Naousa, no norte da Grécia, aos pés do monte Vermio. A cidade fazia parte do reino da Macedônia e estava situada entre importantes centros políticos do período, como Aigai, a antiga capital, e Pella.

A região já era conhecida por suas ruínas, mas pesquisas mais recentes permitiram compreender melhor a função de um enorme complexo público construído em meados do século 4º a.C., durante o reinado de Filipe II. Segundo o Ministério da Cultura da Grécia, o conjunto corresponde ao Ginásio Real de Mieza e apresenta características que o aproximam de construções associadas à corte macedônica.

A associação com Aristóteles e Alexandre não surgiu apenas com as escavações atuais. Fontes antigas já relacionavam Mieza ao período em que o filósofo teria sido encarregado da educação do jovem príncipe. Na biografia de Alexandre, o historiador Plutarco relata que Filipe II providenciou um local para a formação do filho e de outros jovens nobres macedônios.

A própria tradição arqueológica de Mieza também passou por mudanças. Durante décadas, uma área próxima ao santuário das Ninfas chegou a ser apontada como a possível Escola de Aristóteles. Pesquisas posteriores, porém, passaram a considerar mais provável que o local das aulas estivesse no monumental Ginásio Real.

O que os arqueólogos encontraram?

O complexo descoberto ajuda a entender por que um ginásio macedônio não pode ser comparado simplesmente a uma escola moderna. Na Grécia antiga, esses espaços reuniam educação intelectual, treinamento físico e convivência social.

Em Mieza, os arqueólogos encontraram a palestra, área destinada aos exercícios, além de um estádio e de um longo pórtico coberto, conhecido como xystos, com aproximadamente 200 metros. O conjunto também inclui o chamado Didaskaleio, identificado como a área de ensino, onde foram encontradas salas de aula com bancos de pedra.

As estruturas preservadas permitem identificar diferentes ambientes do complexo e são fundamentais para compreender sua função como espaço de formação dos jovens macedônios.As estruturas preservadas permitem identificar diferentes ambientes do complexo e são fundamentais para compreender sua função como espaço de formação dos jovens macedônios. (Foto: Divulgação/Ministério da Cultura da Grécia)

Outro achado chama atenção pelo tamanho e pelo acabamento. Um complexo com mais de 160 metros quadrados reúne um espaço central e dois andrones, salões destinados a banquetes. Os ambientes preservam pisos de mosaico e bases elevadas onde eram colocados os leitos usados pelos participantes dos banquetes. Cada salão podia receber cerca de 20 pessoas.

Também foram encontrados fragmentos de elementos arquitetônicos de estilos jônico e dórico. Alguns pisos, estruturas e detalhes construtivos apresentam semelhanças com o palácio de Aigai, associado à família real macedônica. Para os pesquisadores, essas características ajudam a reforçar a importância e a função do conjunto.

O que os quatro estiletes revelam?

Entre os objetos encontrados, quatro estiletes estão entre os mais simbólicos para a hipótese de que o local tenha funcionado como espaço de ensino. Esses instrumentos eram utilizados para escrever na Antiguidade e foram encontrados no complexo durante as pesquisas arqueológicas.

O achado não significa, porém, que os pesquisadores tenham encontrado materiais escolares que pertenceram diretamente a Alexandre. Os estiletes são evidências do uso educacional do espaço, mas não permitem identificar individualmente quem os utilizou.

Ainda assim, sua presença ganha relevância quando analisada em conjunto com as salas de aula, a cronologia do edifício e as referências históricas a Mieza como local de formação dos jovens da elite macedônica.

O Ginásio Real também revela o padrão de educação reservado aos jovens das famílias mais importantes da Macedônia. Além do aprendizado intelectual, a formação incluía exercícios físicos e preparação para a vida pública e militar.

No caso de Alexandre, esse processo ocorreu em um momento decisivo para a história do reino, quando Filipe II consolidava o poder macedônio e preparava o filho para assumir responsabilidades políticas.

Aristóteles teria chegado a Mieza em 343 a.C., quando Alexandre tinha cerca de 13 anos. O filósofo permaneceu ligado à educação do príncipe e de outros jovens nobres. Mais tarde, Alexandre se tornaria rei da Macedônia e iniciaria uma campanha militar que levaria seu domínio por vastas áreas da Ásia.

Aristóteles realmente ensinou Alexandre?

A relação entre os dois personagens é registrada por fontes antigas e faz parte da tradição histórica sobre a formação de Alexandre. O Ministério da Cultura grego considera Mieza o local onde Aristóteles ensinou o jovem rei e outros descendentes da elite macedônica.

O ponto que a arqueologia tenta esclarecer agora é mais específico: qual estrutura de Mieza corresponde ao espaço mencionado pelos relatos antigos.

Nesse sentido, as descobertas recentes são importantes porque permitem associar uma construção monumental do século 4º a.C. a um complexo educacional compatível com a época e com a posição social dos alunos descritos pelas fontes. A pesquisa também encontrou estruturas que combinam ensino, atividade física e convivência, exatamente o tipo de ambiente esperado de um ginásio grego.

Ainda assim, a cautela permanece. Não há, até o momento, uma inscrição ou objeto que diga de forma direta que Alexandre esteve naquele prédio. Historiadores consultados pelo Live Science consideraram as evidências favoráveis à identificação, mas também destacaram a necessidade de novas pesquisas e de uma publicação científica detalhada dos dados arqueológicos.

As escavações devem continuar, especialmente na parte leste do complexo. A expectativa é compreender melhor a arquitetura, a organização das salas e as atividades desenvolvidas no Ginásio Real.

Para a arqueologia, o trabalho pode ajudar não apenas a esclarecer onde ocorreu a formação de Alexandre, mas também a reconstruir como funcionava a educação dos jovens da elite macedônica no período em que o reino se transformava em uma das maiores potências do mundo antigo.

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