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"Milk trekker"

Homem percorre o mundo a pé em busca de queijos raros e tradições esquecidas

Queijos produzidos de formas tradicionais podem revelar a história e as características dos lugares onde são feitos.
Queijos produzidos de formas tradicionais podem revelar a história e as características dos lugares onde são feitos. (Foto: Waldemar Brandt/Unsplash)

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Trevor Warmedahl não viaja em busca apenas de sabores diferentes. Para ele, um queijo pode contar a história de um povo, revelar características de uma paisagem e preservar conhecimentos transmitidos por gerações. É com essa perspectiva que o americano, também conhecido como “Milk Trekker”, percorre regiões remotas do mundo atrás de produtores que ainda mantêm métodos tradicionais de fabricação.

A jornada começou depois que Warmedahl, que trabalhava como produtor comercial de queijos em Seattle, nos Estados Unidos, percebeu um paradoxo: utilizava leite de animais que nunca havia visto.

A constatação o levou a abandonar o emprego e partir em busca de uma relação mais direta entre o animal, o território, o produtor e o alimento.

Desde então, Trevor já passou por mais de 20 países, entre eles:

  • Mongólia;
  • Geórgia;
  • Itália;
  • Bulgária;
  • Paquistão;
  • Áustria;
  • Camboja.

O resultado dessa experiência é o projeto Milk Trekker, que reúne viagens, pesquisas, registros, oficinas e produção de conteúdo sobre queijos tradicionais e modos de vida pastoris.

Em 2026, Warmedahl também lançou o livro Cheese Trekking, no qual aprofunda a relação entre viagens, produção de queijo, território e cultura. Em entrevista ao culture, ele explicou que começou a documentar essas tradições por sentir que havia urgência em registrá-las.

“Comecei a viajar e documentar por uma sensação de urgência, porque sentia que essas coisas estavam ameaçadas e desaparecendo. Eu queria vê-las enquanto ainda existiam”, afirmou à publicação.

Da Mongólia às montanhas da Geórgia em busca de queijos

Uma das experiências que mais marcaram Warmedahl ocorreu na Mongólia, em 2019. Em Ulan Bator, ele viveu sozinho em uma iurta e descobriu uma cultura na qual o leite e os derivados têm forte significado simbólico. Antes da fabricação de queijos, mulheres lançavam leite ao ar como uma forma de libação e respeito.

Depois, Warmedahl seguiu para as estepes mongóis e passou um verão convivendo com uma família de pastores. Acordava antes do amanhecer para ordenhar iaques, acompanhava os animais a cavalo e aprendia a preparar aaruul, uma espécie de coalhada seca, de sabor agridoce, tradicional da Mongólia.

Outro episódio marcante ocorreu em Tusheti, região montanhosa da Geórgia próxima à fronteira com a Rússia. Ali, o pesquisador acompanhou pastores que produziam o Tushuri guda, um queijo semelhante ao feta, maturado dentro de peles de ovelha colocadas do avesso.

No fim da temporada, Warmedahl caminhou cerca de 130 quilômetros pelo vale junto aos pastores e a um rebanho de aproximadamente 300 ovelhas. A experiência, conforme contou à BBC, mostrou como a produção do queijo está integrada ao próprio deslocamento dos animais e ao modo de vida daquela comunidade.

O projeto Milk Trekker leva Trevor Warmedahl a propriedades onde antigas técnicas de fabricação ainda são mantidas.O projeto Milk Trekker leva Trevor Warmedahl a propriedades onde antigas técnicas de fabricação ainda são mantidas. (Foto: Guillermo Suarez | Unsplash)

Para encontrar experiências como essas, ele não depende de roteiros turísticos convencionais. Muitas vezes, começa pesquisando um queijo e tentando descobrir quem ainda o produz. Em outras ocasiões, chega a uma região e simplesmente começa a caminhar ou perguntar.

Ao culture, Warmedahl contou que já precisou enviar dezenas de e-mails para desconhecidos, bater em portas e contar o que estava tentando pesquisar até encontrar alguém disposto a recebê-lo. Também contou com indicações de pessoas ligadas à preservação de determinados queijos e com a hospitalidade de comunidades pastoris.

Quando o território vira ingrediente de um excelente produto

Foi na Itália que Warmedahl teve uma das experiências decisivas para compreender o conceito de terroir aplicado ao queijo. Em 2019, durante uma visita a Bra, no Piemonte, ele experimentou queijos produzidos sem culturas comerciais de fermentação.

Depois, conheceu um produtor da região que também não utilizava culturas iniciadoras. Ao ordenhar as ovelhas, o produtor apontou para os próprios animais como a origem dos microrganismos responsáveis pela fermentação.

Warmedahl acompanhou os animais nos campos e percebeu aromas de terra úmida, grama, folhas em decomposição e lã. Mais tarde, dentro da queijaria, encontrou características semelhantes nos próprios queijos.

Para ele, foi a primeira experiência concreta de como o ambiente pode se expressar no alimento. “Essa é a ideia do cheese trekking: visitar produtores de queijo, provar os queijos no lugar onde são feitos e tentar compreender a rede de relações que faz o queijo ser o que é”, explicou ao culture.

Essa visão ajuda a explicar por que Warmedahl não trata o queijo apenas como alimento. Para ele, trata-se de uma espécie de registro comestível de uma comunidade. O leite carrega características dos animais, que por sua vez estão ligados ao pasto, ao clima e à paisagem. Os métodos de fabricação acrescentam ainda o conhecimento acumulado pelos produtores.

Queijos que quase desapareceram despertaram a curiosidade de Trevor

Entre os produtos que mais despertam a curiosidade de Warmedahl estão aqueles que sobreviveram à industrialização e continuam sendo feitos em pequena escala. Na Geórgia, ele chama alguns deles de “queijos fósseis”, por terem quase desaparecido e agora estarem sendo recuperados como parte de um movimento de valorização cultural pós-soviético.

Na Turquia, país que ainda pretende explorar mais profundamente, o interesse está nos queijos maturados dentro de peles de cabra com pelos. O tulum peyniri, segundo ele, representa uma tradição pastoril e uma maneira completamente diferente de produzir e conservar alimentos.

A busca por essas técnicas também está ligada à preocupação de Warmedahl com o futuro da produção de laticínios. Em sua visão, a diversidade de animais, paisagens, microrganismos e técnicas é justamente o que dá aos queijos suas características particulares – e essa diversidade está ameaçada pela industrialização.

“Quero ver os ingredientes básicos da fabricação de queijo serem regionalizados tanto quanto possível”, afirmou ao culture. Para ele, é preciso questionar de onde vêm os ingredientes e como eles influenciam o produto final, em vez de produzir alimentos anônimos, feitos para serem sempre iguais.

Por isso, a próxima parada da jornada de Trevor Warmedahl pode ser tão importante quanto as anteriores. Mais do que encontrar um novo sabor, o “Milk Trekker” procura descobrir quais histórias ainda sobrevivem escondidas em uma roda de queijo, antes que elas desapareçam.

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