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Editorial

Ao descartar a Ucrânia, Trump também “faz o diabo” por uma eleição

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Vladimir Putin e Donald Trump durante encontro em agosto de 2025. (Foto: ChatGPT sobre foto de Octavio Guzmán/EFE)

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No Brasil, Lula está cumprindo o roteiro descrito pela ex-presidente Dilma Rousseff anos atrás: “fazer o diabo” para ganhar uma eleição. Do esforço pela disseminação de fake news à compra de votos descarada por meio da distribuição de “bondades” que custarão caro ao bolso do brasileiro, o petista adotou o vale tudo desavergonhado na busca pelo quarto mandato. Mas ele não é o único governante a perder os escrúpulos diante de uma eleição: nos Estados Unidos, Donald Trump não é candidato, mas seu partido pode perder a maioria em ao menos uma das casas legislativas nas midterms de novembro; e, com a inflação preocupando o eleitor, o republicano decidiu não apenas “fazer o diabo”, mas abraçar o próprio – no caso, o ditador russo, Vladimir Putin.

Em 9 de outubro, Trump anunciou um acordo para a compra de óleo diesel russo, que na prática faz letra morta de todas as sanções que o mundo ocidental vinha aplicando após a agressão russa contra a Ucrânia, iniciada quase cinco anos atrás. Com isso, Trump nada mais faz que ajudar a financiar a máquina de guerra de Putin, que vinha dando sinais de desgaste e será revitalizada com o dinheiro norte-americano. Não à toa o acordo foi criticado pela União Europeia como um “presente” ao ditador russo, e até mesmo políticos republicanos se manifestaram contra a medida.

Trump está ativamente ajudando a Rússia, financiando Vladimir Putin com a compra de combustíveis e prejudicando o esforço ucraniano contra o verdadeiro destruidor do país

Mas foi quando o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, disse se sentir traído por Trump que o norte-americano, notoriamente incapaz de ouvir uma crítica, saiu disparando. Trump acusou a Ucrânia de forçar um aumento nos preços internacionais do diesel com ataques a refinarias russas, quando na verdade a Ucrânia vinha respeitando uma trégua em ataques a infraestrutura energética anunciado por Trump (e que a Rússia diz jamais ter sido acertado). E foi além, dizendo que Zelensky “destruiu a Ucrânia” e acusando-o novamente de estar no poder de forma ilegítima – as eleições presidenciais ucranianas deveriam ter ocorrido em 2024, mas o país está sob lei marcial, que inclui a suspensão dos pleitos, até porque seria impossível realizar eleições com parte do país ocupado por uma força invasora. Como se não bastasse, a Ucrânia acusou uma restrição no uso do pacote StarShield, a versão militar do Starlink, restrição essa que teria ocorrido por ordem do governo norte-americano – o serviço foi totalmente restabelecido após a reclamação se tornar pública.

O absurdo da situação é gritante. Não é como se os Estados Unidos estivessem em algum tipo de dificuldade financeira que os impedisse de seguir ajudando a Ucrânia a resistir contra uma agressão não provocada; é muito pior: Trump está ativamente ajudando a Rússia, financiando Vladimir Putin com a compra de combustíveis e prejudicando o esforço ucraniano contra o verdadeiro destruidor do país. Ou estamos diante de uma incapacidade crônica de distinguir entre agressor e vítima, o que já seria inaceitável diante do óbvio ululante, ou estamos diante de uma escolha deliberada por beneficiar o agressor, o que seria de uma indignidade sem precedentes na história norte-americana.

“Preços mais baixos para os americanos, especialmente para nossos grandes agricultores, pecuaristas e caminhoneiros, são minha maior prioridade”, disse Trump para justificar o acordo para compra de diesel russo. Mas a maior prioridade do presidente norte-americano não é essa: é a vitória de seu partido nas midterms. Olhando com toda a honestidade intelectual, que diferença existe entre um presidente que destrói a economia de seu país, prometendo benesses sem fim, para ganhar uma eleição e um presidente que destrói a ordem internacional, validando uma agressão imperialista, para ganhar uma eleição?

“Devemos apoiar todos os nossos aliados democráticos e não devemos trair a fé daqueles que estão arriscando suas vidas (…) para desafiar a agressão apoiada pelos soviéticos e garantir os direitos que nos pertencem desde o nascimento”, afirmou Ronald Reagan mais de 40 anos atrás. A União Soviética se foi – em grande parte porque o mundo livre jamais deixou de ajudar a resistência ao totalitarismo comunista –, mas um de seus herdeiros está no Kremlin. E Trump, ao trair a fé dos ucranianos dessa forma, demostra estar muito abaixo de seu antecessor, para quem ajudar povos livres contra agressores autoritários era um imperativo moral para os Estados Unidos.

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