
A universidade, por sua própria natureza, é um local onde as ideias deveriam ter livre curso, o local do debate, da busca honesta pelo conhecimento e pela verdade – a razão última da própria atividade de estudar. No entanto, uma vez que a negação das verdades objetivas acabou tomando conta da intelectualidade em muitas áreas, as ideias passaram a se impor, primeiro, pela simples capacidade de persuasão de quem as enunciava e, depois, pelo volume com o qual são defendidas. E, no estágio em que estamos atualmente, os que falam mais alto já não se contentam em vencer as discussões na contagem de decibéis: eles também se empenham em calar todos os que discordam.
Na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), um doutorado foi parar na Justiça graças ao patrulhamento das opiniões da doutoranda, sobre temas alheios ao objeto da pesquisa que ela desenvolvia. A psicóloga Celina Lazzari desenvolvia uma tese sobre “A escuta do assistente social na infância e questões de gênero”, devidamente aprovada pelo Comitê de Ética da instituição; o colegiado, no entanto, elaborou um parecer pela suspensão do estudo, após receber uma denúncia. O motivo: Lazzari também é fundadora de um movimento com o objetivo de proteger crianças da ideologia de gênero, e fundadora-diretora de uma associação de defesa dos direitos das mulheres e crítica ao transativismo. As denúncias recebidas pelo Comitê de Ética não tinham relação com a pesquisa – que Lazzari havia estruturado de forma a impedir qualquer viés –, mas com manifestações ocorridas fora do ambiente acadêmico, incluindo entrevistas à Gazeta do Povo.
Para os patrulheiros, o importante é que todos saibam de sua capacidade de vigiar e punir, atrapalhando a carreira acadêmica de alguém, o que já basta para criar um clima de autocensura
O Ministério Público Federal foi contrário à suspensão do doutorado, afirmando que as universidades não podem monitorar opiniões, manifestações intelectuais ou posicionamentos expressos fora do ambiente universitário, muito menos usá-los em decisões que afetem a vida acadêmica dos estudantes. O juiz Diógenes Tarcísio Marcelino Teixeira concordou, e escreveu na sentença que “a ausência de apontamento de qualquer falha metodológica ou risco real aos participantes reforça a conclusão de que a suspensão não se fundou em irregularidade da pesquisa em si, mas em desconforto com as posições expressas pela pesquisadora em contextos externos ao ambiente acadêmico”.
A Justiça deu razão a Celina Lazzari, que defendeu sua tese em junho, mas o estrago já está feito. Ela agora é doutora, mas sabe que ficou marcada pelo que lhe aconteceu. “Eu gostaria de continuar essa pesquisa, mas não sei se terei abertura dentro das universidades para dar seguimento a ela”, disse ela à Gazeta do Povo. De fato, seria preciso que ela encontrasse uma série de gente corajosa – não só orientadores, mas toda uma cadeia de comando dentro do ambiente universitário – disposta a receber alguém que já está marcada pela patrulha ideológica, e essa é uma combinação cada vez mais rara. Para os patrulheiros, deixar que Lazzari receba o doutorado é um preço pequeno a pagar; muito mais importante é que todos saibam de sua capacidade de vigiar e punir, atrapalhando a carreira acadêmica de alguém, o que já basta para criar um clima de autocensura.
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O caso de Celina Lazzari não é uma aberração; é a regra atualmente vigente. Patrulheiros ideológicos impedem palestras, cursos e atividades culturais – às vezes, recorrendo à violência física para isso –, e perseguem professores, contando quase sempre com a omissão cúmplice de diretores, que validam a censura sob o argumento da “proteção da integridade física” dos censurados, dando aos censores exatamente o que eles desejam. Isso explica que, em maio, um grupo de acadêmicos tenha lançado um manifesto “pelo pluralismo e pela liberdade acadêmica”, título que dispensa maiores explicações.
O tema, no entanto, tem estado ausente das manifestações dos pré-candidatos à Presidência da República e a outros cargos que poderiam, de alguma forma, influenciar as diretrizes do ambiente universitário, especialmente nas instituições públicas. Por mais que a economia em frangalhos e os escândalos de Brasília estejam na linha de frente das discussões, temos insistido que a recuperação do sentido mais profundo de uma garantia essencial para a democracia, a liberdade de expressão, é uma prioridade nacional. Esse processo, no entanto, não passa apenas pelo combate aos abusos de um Judiciário que se habituou a calar – e que se recusa a informar à sociedade as dimensões de sua fúria censora –, mas também pede atenção à triste situação de locais que, de templos da busca pelo conhecimento, tornaram-se centros de imposição brutal de visões de mundo e perseguição ao dissenso.



