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Disputa no meio digital

Com humor e descontração, direita exibe vantagem nas redes; esquerda tenta reagir

Com discurso conservador, fé cristã e domínio das redes sociais, Nikolas Ferreira se tornou referência da geração Z de direita no Brasil.
Com discurso conservador, fé cristã e domínio das redes sociais, Nikolas Ferreira se tornou referência da geração Z de direita no Brasil. (Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados)

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A campanha eleitoral de 2026 ainda não foi aberta no calendário oficial, mas já dá mostras de vigor no ambiente digital. Nas redes sociais, onde o engajamento vale tanto quanto o tempo de TV, direita e esquerda travam uma disputa diária por atenção, narrativa e influência sobre milhões de eleitores.

O embate online mostra que a direita domina a linguagem informal e viral das plataformas, já a esquerda tenta adaptar seu discurso tradicional ao meio onde leveza, humor e rapidez são decisivos. O resultado é a vantagem dos conservadores.

Exemplos recentes ajudam a ilustrar esse cenário, como a viralização de uma postagem descontraída na qual Romeu Zema (Novo) e Flávio Bolsonaro (PL), presidenciáveis da direita, aderiram à onda de vídeos do bordão “será?”, brincando com a chance de Flávio ser o vice de Zema. Apesar da brincadeira, PL e Novo mantêm as pré-candidaturas dos dois políticos ao Planalto.

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A linguagem jovem virou estratégia central de comunicação política. Nessa construção deliberada, gafes e símbolos do adversário viram conteúdo replicável. Falas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por exemplo, são frequentemente editadas e reapresentadas em formatos curtos e irônicos.

Casos como o vídeo da “paca na Páscoa” - no qual a primeira-dama Rosângela Lula da Silva, a Janja -, apareceu cozinhando o animal silvestre que tem caça proibida pelo Ibama - ou a frase “as pessoas honestas que gostariam que eu fosse” mostram como a rotina de episódios pontuais é ressignificada para produzir desgaste político. Tudo sem que a esquerda consiga evitar.  A lógica é simples: quanto mais compartilhável, mais eficaz.

Lula e aliados, por sua vez, investem em equipes próprias e terceirizadas para responder ao avanço da direita nas redes sociais. Um dos recursos que passaram a usar é a inteligência artificial (IA) para criar vídeos satíricos contra adversários e a atuação coordenada de influenciadores. Mas o alcance da esquerda nas mídias sociais permanece inferior.

Para especialista, o engajamento conquistado não é acaso, mas método

Para o cientista político Leandro Gabiati, professor do Ibmec-DF, existem evidências consistentes de uma maior interação entre internautas de direita. “Perfis conservadores acabam tendo sempre mais curtidas, comentários e compartilhamentos”, diz. Ele aponta que a base digital da direita está mais mobilizada e ativa.

Ele explica que esse desempenho está relacionado a fatores estruturais: linguagem simples, formatos nativos das redes e produção descentralizada. “Diferentemente de campanhas tradicionais, o conteúdo difundido não depende de estruturas partidárias, mas de uma rede orgânica de criadores”.

Além disso, completa Gabiati, o humor ácido dos direitistas atua como um facilitador cognitivo. Isso porque o modo de se expressar reduz resistências, amplia o alcance e transforma mensagens políticas em produtos consumíveis. “Na era de atenção fragmentada, isso traz vantagem competitiva decisiva”.

Nikolas já alcança 22 milhões no Instagram e engaja mais que o Oscar

Principal referência da direita na web, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) consolidou-se como o parlamentar com mais seguidores nas redes sociais do Brasil, com 22 milhões no Instagram, superado apenas pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que, mesmo em prisão domiciliar e incomunicável, segue com quase 27 milhões de seguidores nessa rede social.

O avanço de Nikolas foi impulsionado por vídeos virais, ampliando alcance e engajamento. Lula, por sua vez, tem 14 milhões de seguidores no Instagram. O perfil do petista ampliou alcance com conteúdos sobre crises globais e os discursos do petista na ONU em 2025. O deputado mineiro passou Lula em número de seguidores em janeiro de 2025 e seguiu em alta.

No caso de Nikolas, alguns vídeos atingiram a marca de milhões de visualizações, enquanto conteúdos virais, como os relacionados ao Pix, ao “PL da misoginia” e à mobilização “Acorda, Brasil”, atingiram de 10 a 40 milhões de visualizações, milhões de curtidas e forte replicação digital.

A “Caminhada da Liberdade”, em janeiro, elevou esse desempenho a outro patamar, gerando mais interações por postagens do que as relacionadas ao Oscar.

Com humor e descontração, a performance digital do deputado empolga o PL e a campanha de Flávio Bolsonaro, que buscam inspiração em seus conteúdos.

Professor vê desafio geracional e narrativo para a estratégia da esquerda

Para o professor Elton Gomes, da Universidade Federal do Piauí (UFPI), a dificuldade da esquerda nas redes sociais vai além da simples técnica aplicada. Trata-se também de um descompasso geracional e cultural. “Os líderes mais velhos enfrentam barreiras para compreender e operar a lógica de memes e outros tipos”, diz.

A ação petista e governista esbarra basicamente na forma. Segundo Gomes, os conteúdos muito institucionais ou “pasteurizados” tendem a circular menos em ambientes digitais que privilegiam autenticidade e espontaneidade.

Já para o consultor empresarial Marco Túlio Bertolino, a percepção de uma renovação digital associada à direita também pesa. “Embora as ideias não sejam necessariamente novas, sua difusão ampliada entre jovens cria a sensação de novidade frente a uma esquerda que luta para se reinventar”.

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