Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Eleições 2026

Disputa de EUA e China por terras raras do Brasil invade o debate presidencial

commodities ferro
Barcaças carregadas de minério no Rio Paraguai. (Foto: Leandro Grandi/Agência Vale)

Ouça este conteúdo

A briga entre Estados Unidos e China pelas terras raras do Brasil invadiu o debate político e acirra a polarização. O tema escalou após a empresa americana USA Rare Earth anunciar, este mês, a compra da mineradora Serra Verde, em Minaçu (GO), por US$ 2,8 bilhões. A negociação faz parte de um esforço americano para reduzir a dependência de fornecedores chineses de produtos minerais essenciais para a fabricação de chips e itens de alta tecnologia.

Segundo analistas ouvidos pela Gazeta do Povo, as terras raras reforçam o embate ideológico: enquanto a esquerda defende agenda nacionalista e hostil aos Estados Unidos, a direita acusa o governo brasileiro de intervencionismo, de travar investimentos e de favorecer indiretamente a dominação chinesa do Brasil.

A empresa americana agora opera a mina Pela Ema – única no território nacional que está na ativa no ramo de mineração de terras raras. Essa é também uma das únicas minas fora da Ásia que produz neodímio, praseodímio, térbio e disprósio, insumos usados em ímãs, baterias, turbinas, drones e eletrônicos. Com 90% da produção global de terras raras, a China controla preços e suprimentos.

O negócio evocou o tom geopolítico porque a USA Rare Earth recebeu apoio financeiro de US$ 1,6 bilhão do governo americano e financiamento de US$ 565 milhões à Serra Verde. Além disso, a produção da mina terá contrato de fornecimento de 15 anos sustentado por capital público e privado dos EUA.

Lula e partidos de esquerda investem no discurso de soberania nacional

Governistas encaram o caso da mina goiana como questão de soberania. Há uma semana, na Espanha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse que o Brasil negocia com qualquer país, mas “ninguém será dono de nossas riquezas minerais”. Para ele, as terras raras servirão para industrializar o país.

No Congresso, a base governista reagiu rápido. O líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (SC), e outros deputados de esquerda apresentaram projetos para criar a estatal Terrabras, adotar regime de partilha inspirado no pré-sal e limitar exportações. A proposta é o contraponto à parceria com os EUA.

Esquerda critica parceria com os EUA proposta por Flávio Bolsonaro

No fim de março, durante o encontro conservador CPAC, nos EUA, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, disse que o Brasil é a “solução” para os EUA reduzirem a dependência da China em terras raras e que o país é campo de batalha para definir o futuro do hemisfério ocidental.

Guilherme Boulos (PSOL), ministro da Secretaria Geral da Presidência, classificou a fala de Flávio como o “fato mais grave das eleições de 2026 até aqui” e acusou o senador de se comprometer a “entregar as terras raras do Brasil aos Estados Unidos” em troca de apoio do governo de Donald Trump.

Os deputados petistas Lindbergh Farias (RJ) e Gleisi Hoffmann (PR) chamaram Flávio e seu grupo de “vendilhões da pátria”. Já o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães (PT), chamou o presidenciável do PL de “candidato a gerente de negócios dos bilionários dos EUA no Brasil”.

Direita vê sanha estatista do governo e risco de o país perder investimentos

A oposição, por sua vez, aponta riscos de estatismo, insegurança jurídica e uso político da mineração. Entidades do setor mineral criticaram projetos da Terrabras por preverem a absorção de funções do Serviço Geológico do Brasil, regime de partilha e presença mínima de 50% da estatal na produção.

Os deputados da bancada do Novo Marcel Van Hattem (RS), Luiz Lima (RJ), Adriana Ventura (SP) e Gilson Marques (SC) protestaram publicamente e pediram a rejeição de projetos para criar a estatal das terras raras, alegando inconstitucionalidade e os chamando de estatizantes e intervencionistas.

Antes da popularização do debate sobre as terras raras, o então deputado Jair Bolsonaro (PL) já classificava em 2016 o nióbio como símbolo de soberania mineral. Na Câmara, ele disse que o mineral gerava cobiça internacional e acusou o PT de deixar “vazar bilhões de dólares”, entregando riquezas minerais para os chineses.

Governo desiste de criar a Terrabras, mas PT estuda levá-la à campanha

Lula recuou da ideia de criar a Terrabras, defendida por parte do PT e do governo. Venceu a tese de que o projeto teria resistências no Congresso e no setor de mineração, além de trazer riscos fiscais. A área econômica rejeitou, alegando alto custo e baixa eficácia, tal qual o monopólio do urânio.

O Executivo decidiu então barrar a inclusão da iniciativa no marco dos minerais críticos e priorizar incentivos setoriais e um conselho ligado à Presidência. Apesar disso, o 8º Congresso do PT, realizado no último fim de semana em Brasília, tratou do tema como pauta prioritária nas eleições.

O conselheiro de empresas Ismar Becker acredita no alto potencial do Brasil em terras raras e a prova disso seria justamente o interesse manifestado pela esquerda. “A proposta de estatal carrega o risco de se repetir os erros no pré-sal, que custaram anos de atrasos e desperdícios de recursos”, resumiu.

Debate sobre terras raras segue a lógica da polarização, diz especialista

Eduardo Galvão, professor de Políticas Públicas do Ibmec-DF, avalia que a disputa pelas terras raras fez um tema técnico virar eleitoral. “A reação do governo, o envolvimento de [Ronaldo] Caiado [ex-governador de Goiás e pré-candidato à Presidência] na venda da mina e a judicialização dela emoldurou o duelo de soberania nacional versus atração de investimentos”.

Esse tipo de divisão, acrescenta ele, conecta economia, identidade nacional e política externa na mesma narrativa. Para os governistas, o tema abre espaço para reforçar o discurso de controle estratégico de recursos naturais, com críticas públicas de Lula sinalizando risco em decisões descentralizadas.

Já para Caiado e setores da oposição, o caso pode ser lido como agenda de desenvolvimento e inserção do país em cadeias de valor globais. “A defesa da atração de capital estrangeiro e da exploração mais acelerada desses recursos conversa com eleitores interessados em crescimento e emprego”, afirmou.

Partidos acionam PGR e STF contra a venda de mina

Deputados do PSOL, Rede e PCdoB recorreram à Procuradoria-Geral da República (PGR) para barrar a venda da mineradora Serra Verde, alegando eventuais ilegalidades e invasão de competência da União pelo então governador Ronaldo Caiado (PSD), pré-candidato à Presidência, na mediação da venda.

Os deputados Talíria Petrone (PSOL-RJ) e Orlando Silva (PCdoB-SP) instaram a PGR contra a Agência Nacional de Mineração (ANM) e a venda da mina sob argumento de que o aval do órgão não pode ser só documental e que o financiamento estatal americano sugere intervenção em ramo estratégico.

A deputada Heloisa Helena (RJ) e o seu partido, a Rede Sustentabilidade, entraram no STF com ação para suspender a venda da Serra Verde, alegando que a operação transfere controle econômico sobre ativos estratégicos pertencentes à União sem proteção suficiente ao interesse nacional.

VEJA TAMBÉM:

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.