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Documentos com a CPI

Master distribuiu R$ 220 milhões em contratos com autoridades; veja quem são os beneficiados

Banco Master
Sede do Banco Master, em São Paulo. (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

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Relatórios enviados pela Receita Federal e pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) à CPI do Crime Organizado nas últimas semanas listam uma série de pagamentos realizados pelo Banco Master a políticos, ex-autoridades e a comunicadores a partir de empresas a eles vinculadas. Juntos, os repasses, que por si só não representam crime, somariam mais de R$ 220 milhões ao longo dos últimos anos.

De acordo com dados divulgados pela Folha e confirmados pela reportagem, Henrique Meirelles (ex-ministro da Fazenda) teria recebido R$ 18,5 milhões; a Pollaris Consultoria, ligada a Guido Mantega (ex-ministro da Fazenda), recebeu R$ 14 milhões; a MV Projetos e Consultoria, de Marconi Perillo (ex-governador de Goiás), R$ 14,5 milhões; o escritório do ex-presidente Michel Temer, R$ 10 milhões; escritórios ligados ao presidente do União Brasil, Antônio Rueda, R$ 6,4 milhões.

A Lewandowski Advocacia, vinculada a familiares do ex-ministro do STF e da Justiça e Segurança do governo Lula, Ricardo Lewandowski, recebeu ao menos R$ 6,1 milhões; a A&M Consultoria, de ACM Neto, levou R$ 5,45 milhões; a WF Comunicação, do ex-ministro do governo de Jair Bolsonaro, Fabio Wajngarten, recebeu R$ 3,8 milhões. A BN Financeira, ligada a Bonnie Bonilha, nora do senador Jaques Wagner (PT), levou R$ 12 milhões; além de R$ 289 mil que foram pagos diretamente ao senador.

Também aparecem repasses de R$ 21 milhões à Massa Intermediação e R$ 3 milhões à Gralha Azul Empreendimentos, ambas do Grupo Massa ligados ao apresentador Ratinho. A mulher do ministro do STF Alexandre de Moraes recebeu R$ 80 milhões, repassados ao escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados.

O portal Metrópoles teria recebido pagamentos de serviços relacionados à cobertura e consultorias ligadas ao Banco Master no valor de pouco mais de R$ 27 milhões. Segundo relatórios da Receita Federal e do Coaf, os valores teriam sido declarados como repasses oficiais por serviços de produção de conteúdo, análises e consultoria jornalística de 2022 a 2025. O portal teria atuado como prestador formal de serviços, com emissão de notas fiscais e contabilização a órgãos fiscais.

Outros lados: como os beneficiados justificam os pagamentos

Os citados nos relatórios afirmam, em linhas gerais, que os valores recebidos decorrem de atividades legais e devidamente formalizadas.

Michel Temer declarou ao jornal Folha de S.Paulo que prestou serviços de mediação jurídica ao banco e diz que os valores são menores que os divulgados. Ele não respondeu a um pedido de informações feito pela reportagem.

Henrique Meirelles, que é ex-ministro da Fazenda, afirmou ter atuado como consultor em temas macroeconômicos. Guido Mantega, que exerceu o mesmo cargo, disse que exerceu consultoria econômica sem conhecimento de eventuais irregularidades.

Ricardo Lewandowski sustentou que sua atuação em serviços jurídicos ocorreu após deixar o STF e antes de sua entrada no governo.

Antônio Rueda afirmou que os serviços prestados por seus escritórios foram técnicos e regulares. “Não confirmamos informações baseadas em dados fiscais supostamente vazados de forma ilícita. Declarações de imposto de renda são sigilosas por lei. Todos os serviços prestados pelos escritórios são legais, contratados regularmente e com plena conformidade tributária”, disse em nota.

Ainda segundo o presidente do União Brasil, os serviços jurídicos prestados ao conglomerado Master tiveram caráter “estritamente técnico, com atuação relevante e devidamente documentada: dezenas de pareceres, centenas de reuniões, mais de mil audiências, cerca de 20 mil manifestações nos autos e aproximadamente 400 acordos realizados ao longo do período”.

Segundo Rueda, trata-se de atividade profissional legítima, regular e plenamente compatível com o exercício da advocacia no país, sem qualquer interferência da atuação pública em relações privadas de natureza jurídica”. ACM Neto declarou que os contratos foram firmados de forma lícita e transparente

Fabio Wajngarten, por sua vez, usou sua conta no X para informar que atua na defesa do banqueiro Daniel Vorcaro. “Fui apresentado ao Daniel no primeiro semestre de 2025 por meio dos advogados dele, passando a integrar a equipe de defesa dele, da qual faço parte até o presente momento. O contrato tem cláusulas de confidencialidade razão pela qual não pode ser publicizado."

"Além disso, não sou sequer mais politicamente exposto, já que não exerço qualquer cargo público há mais de cinco anos”, descreveu na rede social. Já a BN Financeira afirmou que todos os serviços foram realizados mediante emissão de notas fiscais e devidamente declarados.

Representantes do Grupo Massa, do apresentador Ratinho, também sustentaram que os valores recebidos estão ligados a contratos publicitários e parcerias comerciais, negando qualquer irregularidade. Em nota, o grupo disse que "possui mais de 30 anos de atuação em diversos setores econômicos” e que “construiu uma trajetória pautada por práticas amplamente reconhecidas pelo mercado com rendimentos declarados à Receita Federal, incluindo campanhas publicitárias e parcerias com diversas marcas e empresas”.

O grupo afirmou ainda que sua atuação não se confunde com a conduta de terceiros com os quais manteve relações contratuais. Em relação aos pagamentos como pessoa física, Jaques Wagner afirmou que os valores correspondem a rendimentos financeiros, e não a contratos com o banco.

À Folha a direção do Metrópoles afirmou que todos os recursos recebidos foram relativos a contratos regulares de prestação de serviços jornalísticos e de consultoria, com total conformidade tributária e legal.

A empresa ressaltou que não há qualquer investigação sobre irregularidades em relação aos repasses e que todas as operações estão devidamente registradas e declaradas à Receita Federal. Segundo a assessoria de imprensa da empresa, os valores não representam financiamento ou patrocínio de conteúdo editorial, mas pagamentos por serviços específicos contratados formalmente pelo banco.

O escritório de Viviane Barci de Moraes declarou que não confirma as informações divulgadas sobre pagamentos do Banco Master, afirmando que os dados foram “incorretos e vazados ilicitamente”, lembrando que dados fiscais são sigilosos.

Em nota enviada em março, o escritório disse  que a banca prestou serviços de consultoria e atuação jurídica de fevereiro de 2024 a novembro de 2025, incluindo 94 reuniões de trabalho, mobilização de 15 advogados e coordenação de outros três escritórios especializados, e esclarece que nunca conduziu nenhuma causa para o Banco Master no STF. A reportagem não obteve retorno da MV Projetos e Consultoria de Marconi Perillo.

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Dados foram levantados pela Receita Federal e órgãos de controle

Os pagamentos estão relacionados a serviços como consultorias jurídica e empresarial. Os valores atribuídos a pessoas físicas e empresas no caso Master foram obtidos a partir de um cruzamento técnico de dados fiscais e financeiros conduzido por órgãos de controle. Segundo fontes a par das investigações, as informações têm origem em instituições de fiscalização e controle que operam com bases distintas, mas complementares.

Enquanto a Receita reúne dados declaratórios, como notas fiscais, escrituração contábil e declarações de imposto de renda, o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) monitora a movimentação bancária efetiva, com base em comunicações obrigatórias feitas por instituições financeiras. Para analistas, há poucas chances de os valores informados à CPI não condizerem ou estarem próximos à realidade dos pagamentos efetivados.

Isso porque, na prática, a Receita Federal permite identificar quanto determinada empresa ou pessoa declarou ter recebido ou pagou em impostos ao longo de um período, com base em documentos fiscais e registros contábeis. Já o Coaf acompanha o fluxo real do dinheiro, apontando transferências, datas, frequência de operações e origem dos recursos por meio dos chamados Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs).

Esses relatórios são produzidos quando há indícios de movimentações atípicas, como valores elevados ou operações fora do padrão esperado, o que aciona mecanismos de alerta dentro do sistema financeiro. Vale destacar que a maioria dos pagamentos elencados à CPI não geraram avaliação de relatórios de inteligência do Coaf, mas se tratavam de movimentações registradas pela Receita Federal.

“De modo geral, o valor final atribuído a cada beneficiário surge do cruzamento das bases de dados”, alerta o economista e analista de mercado, Rui São Pedro. Ele lembra que, em casos de movimentações suspeitas, técnicos comparam o que foi declarado à Receita com o que efetivamente transitou pelo sistema bancário. Na relação enviada à CPI ainda não há confirmações de quais pagamentos teriam passado pelo cruzamento de dados.

“Quando há compatibilidade entre os dados, os montantes são consolidados como valores recebidos. Em casos de divergência, podem surgir indícios de inconsistência que motivam análises mais aprofundadas”, explica. Esse processo também envolve a identificação dos verdadeiros beneficiários dos recursos, com análise de CNPJs, quadros societários e vínculos com pessoas politicamente expostas.

Apesar do nível de detalhamento, especialistas ressaltam que esses dados estão protegidos por sigilo fiscal e bancário, o que limita a divulgação integral e o aprofundamento público das análises. Além disso, os registros indicam a existência e o volume das transações, mas não permitem, por si só, concluir sobre a legalidade ou a efetiva prestação dos serviços contratados.

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Legalidade de contratos e os riscos à integridade devem ser analisados

Segundo o doutor em Direito pela USP Luiz Augusto Módolo, os valores elevados não são, por si só, indício de irregularidade, desde que estejam respaldados por instrumentos legais, emissão de notas fiscais e compatibilidade com a atividade, como consultoria econômica ou serviços jurídicos.

O jurista sustenta que, sem prova de ilegalidade ou ausência de entrega, os pagamentos podem ser considerados legítimos, ainda que suscitem questionamentos político ou ético.

Na opinião do economista Rui São Pedro, é fundamental avaliar se os montantes pagos estão alinhados com padrões de mercado e se há proporcionalidade entre custo e benefício para a instituição contratante. “Pagamentos considerados muito acima da média, sem indicadores claros de retorno econômico, podem sugerir ineficiência, má alocação de recursos ou até desvio de finalidade empresarial, especialmente em contratos de consultoria, cuja mensuração de resultados é mais subjetiva”, alerta.

“Ainda que os acordos sejam formais, esse tipo de relação pode levantar dúvidas sobre conflitos de interesse, tentativa de acesso privilegiado a autoridades ou uso indireto de influência política”, diz.

O penalista Márcio Nunes afirma que os dados devem ser analisados na tentativa de identificar possíveis indícios de fraudes ou crimes como corrupção, lavagem de dinheiro ou tráfico de influência, apesar de nenhum indício apontar para tais situações. “Nessa linha, a atenção recai não apenas sobre os contratos em si, mas sobre o fluxo dos recursos, a eventual existência de triangulações financeiras e a compatibilidade entre os valores pagos e os serviços efetivamente prestados”.

CPI não terá tempo para analisar pagamentos

Os documentos, obtidos a partir de dados fiscais e compartilhados com a comissão parlamentar, abrangem movimentações de 2022 a 2025. Em muitos casos, os valores foram pagos ao longo de anos em contratos de prestação de serviços. “Parte dos montantes mencionados ainda pode ter sofrido retenção de impostos na fonte, o que indica que os valores líquidos recebidos podem ser inferiores aos totais declarados”, lembra Rui São Pedro.

A documentação indicaria, para membros da CPI, que o Banco Master manteve relações contratuais com personagens influentes.

“Em fases iniciais, ainda era possível alegar desconhecimento sobre a origem dos recursos ou sobre quem os repassava, mas, a partir de determinado ponto em 2025, esse argumento deixa de ser plausível”, afirma Módolo.

Ele observa que a situação de ministros ou ex-ministros, torna-se particularmente delicada quando contratos continuam a gerar pagamentos após a assunção de cargo público, criando potenciais conflitos com regras de ética e limites legais.

Os dados permanecem sob sigilo fiscal limitando a capacidade de aprofundamento das investigações pela CPI. A comissão, que se aproxima de seu encerramento, não deve avançar significativamente na análise individualizada de contratos ou na verificação da execução dos serviços. “Isso restringe o alcance das apurações e pode transferir eventuais desdobramentos para outros órgãos de controle, como o Ministério Público Federal e a Polícia Federal”, lembra Nunes.

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