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No dia seguinte à revelação, em detalhes, da relação entre Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, aliados do ministro no Supremo Tribunal Federal (STF) se fecharam em articulações para encontrar uma saída para a crise institucional. Ao mesmo tempo, a revelação de um depoimento de Vorcaro, prestado na semana passada à equipe do ministro André Mendonça, relator da investigação do Banco Master, ampliou as suspeitas sobre a atuação no caso do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
Como ocorre todas as quartas-feiras, os ministros se reuniram no plenário da Corte para a sessão de julgamentos. Moraes e Mendonça sentaram-se lado a lado, nas poltronas que sempre ocupam no recinto. Não interagiram ao longo da sessão em que foram analisados processos tributários previamente pautados. Ao contrário de outros momentos de crise, desta vez o presidente do STF, Edson Fachin, e o decano, Gilmar Mendes, optaram por não se pronunciar antes dos julgamentos para defender a Corte.
Havia, entre todos os ministros, uma tentativa de aparentar normalidade. Antes e depois da sessão, Moraes conversou em risadas e tom bem-humorado com Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin, seus principais defensores no STF. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, também próximo do grupo e que, assim como Moraes, teve reveladas relações próximas com Vorcaro, manteve-se distante e discreto.
Antes da sessão, pela manhã, Fachin se manifestou num evento dentro do tribunal, reconhecendo o momento de “especial gravidade” e indicando que o relatório da PF, que apontou como Vorcaro consultava Moraes sobre como escapar da investigação sobre as fraudes no Master, terá “o devido encaminhamento institucional”.
A tendência é de que uma decisão – entre a abertura de inquérito, menos provável, e o arquivamento do caso, hoje mais plausível – seja tomada na semana que vem.
O caminho defendido por Mendonça é submeter o documento à apreciação dos demais ministros numa sessão pública, para que deliberem sobre a eventual abertura de um inquérito contra Moraes, que não votaria. Nos bastidores, especula-se que o relator não teria votos suficientes – no mínimo mais 4 – para abrir a investigação.
Outra saída aventada, principalmente pelo grupo próximo de Moraes, é fazer uma reunião fechada entre os ministros, semelhante à que foi realizada no gabinete de Fachin, em fevereiro, que afastou, por consenso, o ministro Dias Toffoli da relatoria do caso Master. A aposta é que um desfecho assim evitaria expor ainda mais o tribunal, ante o risco de, numa sessão pública, as suspeitas sobre Moraes serem realçadas.
O documento listou 52 mensagens enviadas pelo banqueiro a Moraes; detalhou a contratação do escritório advocatício de sua família; apontou a ansiedade do executivo em honrar pagamentos de R$ 80 milhões; e revelou a cessão de aeronaves para o escritório, além da oferta de cartões de crédito para os filhos do ministro.
Em seu pronunciamento, na manhã desta quarta, Fachin afirmou que atuaria com “serenidade, responsabilidade e firmeza” em relação a duas questões: de um lado, aos “sérios elementos de fatos” – referência indireta às mensagens comprometedoras de Vorcaro para Moraes –, e de outro lado, “à atuação processual” do caso – uma menção implícita ao procedimento adotado por Mendonça para apurar a conduta do colega.
Os aliados de Moraes sustentam que Mendonça agiu de forma irregular ao requisitar da Polícia Federal o relatório sobre a relação de Vorcaro com o ministro. Argumentam que, assim que tivessem surgido os primeiros indícios da ligação do banqueiro com o colega, Mendonça deveria ter levado a questão para deliberação no plenário. É o mesmo entendimento expressado pelo procurador-geral, Paulo Gonet, na manifestação em que defendeu a nulidade das provas sobre Moraes.
Esse grupo de ministros quer arquivar logo o caso alegando que Mendonça atropelou o rito processual por interesses políticos e pessoais. Insinuam, nos bastidores, que o magistrado teria a intenção de beneficiar a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL) – Mendonça rechaça essas ilações e conta com o apoio de Fachin, preocupado com a reputação declinante do STF, que corrói a legitimidade e autoridade institucional.
Os dois entendem que um arquivamento a portas fechadas pioraria ainda mais a imagem do tribunal. Já o grupo de Moraes considera que uma deliberação pública não apenas desgastaria o colega, como alimentaria ainda mais a pressão por um impeachment, sobretudo por parte dos candidatos à Presidência e ao Senado nas eleições.
Mendonça e seus defensores, por sua vez, alegam que o procedimento adotado é regular, porque não havia certeza, até então, de que as mensagens captadas no celular de Vorcaro dirigiam-se, de fato, a Moraes.
Nas conversas pelo WhatsApp, o banqueiro e o ministro apagavam as mensagens em texto e se comunicavam por imagens, contendo textos digitados no bloco de notas, e que se apagavam após abertas pelo interlocutor. Em razão disso, a PF teve dificuldade em reconstituir os diálogos e se certificar de que eram travados entre Vorcaro e Moraes.
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Depoimento de Vorcaro complica Andrei Rodrigues
Em paralelo às articulações de ministros para salvar Moraes, veio à tona, nesta quarta (2), a revelação de que, na quinta-feira da semana passada, dia 27, Vorcaro prestou depoimento a um juiz auxiliar de Mendonça e a um membro da Procuradoria-Geral da República (PGR). O banqueiro pediu para ser ouvido porque teria sido vítima de “graves intimidações” por parte da Polícia Federal – policiais do órgão não participaram do ato.
Trechos do depoimento, revelados pelo jornal O Estado de S. Paulo, registram que Vorcaro relatou que sua colaboração premiada não foi aceita pela PF porque poderia implicar o diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues. As mensagens que o banqueiro enviou a Moraes mostram que ele queria que o ministro o ajudasse a convencer Andrei e Gonet a barrarem investigações sobre as fraudes no Master, que poderiam atrapalhar a venda do banco para investidores estrangeiros.
É o que se depreende de uma mensagem enviada por Vorcaro a Moraes em 30 de outubro de 2025, em meio às investigações da PF e MP sobre as fraudes financeiras do Master:
“O problema agora é que tive informações informais e em confidencia de turma do banco central, que G [Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central] e os diretores estao na pressao maxima de novo para uma medida, pois o bacen esta muito pressionado pela PF [Polícia Federal] e MP [Ministério Público] , alegando que farao algo contra mim. É importante reforçar com Andrei e Paulo pra nao deixar ninguem de baixo fazer uma sacanagem que ai vai tudo pro saco. Estou disponível pra tratar e explicar qq coisa, so nao pode ter sacanagem. Vou te mandar os nomes que tem ido ao Bacen alegando que farao algo em breve”
Em depoimento prestado na quinta-feira (27) ao juiz auxiliar de Mendonça e a um membro da PGR, revelado pelo Estadão, Vorcaro afirmou que a Polícia Federal rejeitou sua delação para blindar Andrei Rodrigues. O diretor-geral da PF participou de um evento em Londres promovido e pago pelo Master.
Interlocutores de Andrei na PF negam qualquer relação próxima dele com Vorcaro e alegam que as declarações do banqueiro seriam um artifício para que ele emplaque junto à PGR uma terceira tentativa de fechar um acordo de colaboração. Duas propostas anteriores foram recusadas pelos dois órgãos por falta de novidades em relação ao que já havia sido descoberto nas investigações e porque Vorcaro não teria admitido, de forma satisfatória, crimes que, no entendimento da PF, ele teria cometido.
Nesta quarta, após a revelação do depoimento, Paulo Gonet pediu a Mendonça que também arquive esse relato. O procurador-geral ressaltou que as propostas de delação foram rejeitadas porque Vorcaro não teria apresentado novas provas.
“O indeferimento formalizado pela autoridade policial em ato fundamentado respaldou-se justamente na ausência de acréscimo informativo de natureza inédita, conclusão reiterada por esta Procuradoria-Geral da República que, ao examinar o acervo ofertado, igualmente recusou o pacto ante a manifesta debilidade de seu conteúdo”, escreveu Gonet.
Em nota, o gabinete de André Mendonça confirmou a realização do depoimento e afirmou que ele foi feito a pedido da defesa de Vorcaro. Informou que a PF não participou do ato porque uma resolução do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) veta a presença de investigadores para garantir “a incolumidade física e psicológica do depoente”.
Nas últimas semanas, Andrei Rodrigues e André Mendonça protagonizam um embate. O diretor-geral da PF tem questionado a atuação do ministro na supervisão do inquérito das fraudes no INSS, que avançou e levou à abertura de novas investigações sobre Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), por suspeita de tráfico de influência em órgãos do governo.










