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O relatório rejeitado pela maioria dos membros da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), após uma manobra governista, trouxe à tona questões sobre o escândalo do banco Master que ainda precisam de esclarecimentos ou mais investigações. Segundo analistas, elas podem dar novo fôlego e aumentar a pressão para uma nova CPI, desta vez exclusivamente para investigar o caso Master.
O relatório revelou a falta de comprovação de legalidade de 251.718 contratos firmados de 2021 e 2025 para que o Master fizesse descontos diretos das folhas de pagamento de aposentados e pensionistas. O INSS chegou a bloquear R$ 2 bilhões ligados ao banco.
“Muitas perguntas ficaram sem resposta e, como a CPMI do INSS não foi prorrogada, há uma possibilidade de tudo o que o relatório apontou abrir espaço para uma nova CPI, desta vez exclusivamente para apurar o Master”, destaca o constitucionalista André Marsiglia.
A oposição já tem assinaturas suficientes para abrir a comissão, mas ela vem sendo travada pelas presidências do Senado e da Câmara.
O relatório, com mais de cinco mil páginas, cita o banco mais de 200 vezes e Vorcaro pelo menos 32. São mais de 300 páginas descrevendo-os como peças importantes em um suposto esquema fraudulento que envolvia vários níveis de irregularidades. A Gazeta do Povo procurou a defesa de Vorcaro e a assessoria do Master, mas até a publicação da reportagem, não obteve retorno. O espaço segue aberto.
No dia da leitura do relatório na última sexta-feira, a defesa de Vorcaro afirmou que ele tem adotado postura de colaboração com as autoridades, ao mesmo tempo em que contesta medidas consideradas excessivas, como a prisão preventiva e pedidos de indiciamento. Vorcaro segue preso, mas agora está na superintendência da PF em Brasília.
Segundo os advogados, Vorcaro sempre esteve à disposição da Justiça e confia que o acesso integral aos autos esclarecerá os fatos, além de negar qualquer tentativa de obstrução das investigações.
“Resta saber se há disposição dentro do próprio Congresso para intensificar as investigações com uma nova CPI e o risco do nome de mais parlamentares e autoridades vir à margem”, reforça o constitucionalista.
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Relatório aponta ausência de documentação em mais de 80% das operações do Master
Relatórios técnicos e apurações da Controladoria-Geral da União (CGU) que deram base às apurações da CPMI indicaram fragilidades estruturais nos controles internos e na governança das operações. Entre os achados, está a ausência de documentação em 84,3% das operações analisadas em determinado período e falhas em validações biométricas em grande parte dos contratos mais recentes, sobretudo os fixados em 2024 e 2025.
Também haveria, segundo o relatório, suspeitas de manipulação da margem consignável, o que teria ampliado o comprometimento da renda dos beneficiários com o aumento do endividamento, além da terceirização de processos para correspondentes bancários com baixa supervisão.
Para o relator, o senador Carlos Viana, a CPMI não teve tempo hábil para se aprofundar nessa investigação. Viana reforçou que o banco concentrou sua atuação em uma modalidade considerada de maior risco, e acumulou elevado número de reclamações por cobranças indevidas e averbações não autorizadas.
“Essas são perguntas que precisam de respostas e, como os responsáveis pelo banco sequer foram ouvidos pela CPMI e as quebras de sigilos foram uma verdadeira novela, é indispensável esse aprofundamento nas apurações. Afinal, os aposentados continuam pagando por empréstimos que não contrataram? Ninguém respondeu isso”, reforça a economista e analista de mercado Regina Martins.
As investigações ainda apontam o envolvimento do banco em esquemas de cessão de carteiras de crédito consideradas irregulares e conexões com empresas suspeitas de participação em redes de lavagem de dinheiro. Segundo a CPMI, esses foram alguns dos motivos pelos quais o INSS decidiu não renovar o acordo de cooperação técnica com a instituição.
Vorcaro é apontado como responsável pela condução das operações investigadas. O relator havia proposto seu indiciamento por organização criminosa, fraude, lavagem de dinheiro e gestão temerária, mas com a rejeição do relatório, o indiciamento caiu por terra.
Possíveis práticas ilícitas envolvendo familiares e integrantes do STF
O relatório faz uma recomendação específica para a "apuração de possíveis práticas ilícitas envolvendo familiares de integrantes e integrantes do Supremo Tribunal Federal e o Banco Master". Este ponto sugere que as investigações da CPMI revelaram indícios de um envolvimento mais amplo e sensível do Banco Master, alcançando até mesmo o STF.
Entre as medidas sugeridas, está o aprofundamento da análise de contratos e relações que possam indicar tráfico de influência ou outras irregularidades no contexto das apurações sobre fraudes em empréstimos consignados. Uma das recomendações previa que a Polícia Federal e o Ministério Público Federal examinassem os contratos de honorários advocatícios, sobretudo os fixados com escritórios de familiares de ministros do STF ou de outras autoridades.
O relatório ainda recomenda a análise de contratos firmados com a advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, além da verificação do relacionamento entre o ministro Dias Toffoli e Daniel Vorcaro. Nesses casos, a orientação era que órgãos como o Senado, a PF e o MPF avaliassem se havia indícios de irregularidades ou eventual tráfico de influência, com base em informações reunidas durante a investigação. Os ministros e a esposa de Moraes negam quaisquer irregularidades.
O relatório critica ainda o fato de Toffoli ter dificultado o acesso às provas durante investigação da Polícia Federal e diz que foi Mendonça quem acabou determinando o compartilhamento delas com membros da CPMI.
Auditorias da CGU chamavam atenção a créditos consignados
A CPMI concentrou seus trabalhos na investigação de descontos ilegais aplicados diretamente nas folhas de pagamento de aposentados e pensionistas, mas foi encerrada antes de aprofundar outra frente considerada igualmente grave: as irregularidades envolvendo o crédito consignado. Com isso, uma parte relevante do esquema acabou não sendo explorada de forma mais detalhada pela comissão.
Embora o Banco Master não apareça de forma direta em todos os pontos das auditorias da CGU sobre consignados, o relatório aponta falhas importantes de controle e governança, além de um alto volume de reclamações de beneficiários por cobranças indevidas e contratos não autorizados. Esse cenário indica que havia indícios de atuação irregular também nessa modalidade, mas que não chegaram a ser plenamente investigados.
Banco virou alvo após a Operação Sem Desconto
A operação Sem Desconto, deflagrada pela Polícia Federal e pela CGU em abril do ano passado, é mencionada no relatório da CPMI como uma ação para combater o esquema nacional de descontos associativos ilegais. Embora o foco principal da operação fosse em descontos não autorizados e direto das folhas dos beneficiários, o relatório estabelece uma conexão com o Banco Master em seções posteriores, indicando que as investigações se aprofundaram para incluir outras formas de fraude, como as que envolveriam consignados.
Segundo o relatório, para esses empréstimos o banco priorizava o cartão consignado de benefício, especialmente o produto Credcesta, que gerava dívidas "impagáveis" graças aos descontos mensais focados em juros. Além disso, o relatório aponta que o Master se envolveu em esquemas fraudulentos de cessão de carteiras de crédito consignado, adquirindo-as de empresas de fachada ou mal fiscalizadas e as revendendo com prêmio injustificado, mesmo quando eram fraudulentas e os créditos não haviam sido concedidos aos beneficiários.
CPMI lista crimes de Daniel Vorcaro
Daniel Vorcaro foi formalmente listado na seção de proposição de indiciamentos, apesar de negados pela maioria dos membros da CPMI. O pedido de indiciamento foi uma das conclusões mais diretas do relatório sobre o suposto envolvimento de Vorcaro e do Master nas fraudes que precisariam, segundo o próprio relator Carlos Viana, de aprofundamento nas investigações.
Atualmente Vorcaro é investigado pela Polícia Federal, mas não foi formalmente indiciado.
O relator pediu o indiciamento de Vorcaro com base no que elencou de uma série de crimes. Os principais são: falsidade ideológica, estelionato eletrônico e previdenciário, gestão fraudulenta e temerária, crime contra a economia popular, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
As evidências que fundamentaram esse pedido, conforme o relatório da CPMI, incluem: coordenar supostos núcleos financeiros e políticos para fraudar o INSS, articular descontos ilegais de dezenas de milhões de reais dos aposentados para o núcleo central da organização criminosa, assinar acordos de cooperação técnica com o INSS para viabilizar descontos abusivos, operar cartão consignado com taxas de juros desreguladas e exorbitantes, entre outras.
Em março de 2026, Vorcaro teve a prisão determinada, pela segunda vez, pelo ministro André Mendonça, do STF, diante de indícios de que poderia atrapalhar as investigações, inclusive com risco de destruição de provas. As apurações também apontam a existência de uma estrutura paralela usada por ele para monitorar e intimidar críticos, além de possíveis tentativas de influência sobre decisões do Banco Central e investigações sobre pagamentos para evitar exposição negativa.
Sua defesa negocia uma possível delação premiada, que não deve livrá-lo de indiciamento mas pode reduzir suas penas.











