Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Caso Master

PF diz que Vorcaro bancou luxo de Ciro Nogueira enquanto senador atuava em favor do Master

Ciro Nogueira Banco Master Daniel Vorcaro
Documentos da investigação do caso Master apontam supostas vantagens recebidas pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI), segundo a Polícia Federal (Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senad)

Ouça este conteúdo

A Polícia Federal (PF) afirma que o banqueiro Daniel Vorcaro bancava um padrão de vida de luxo para o senador Ciro Nogueira (PP-PI) ao mesmo tempo em que recebia do parlamentar atuação em favor de interesses do Banco Master no Congresso. A conclusão consta em documentos da investigação do caso Master que tiveram o sigilo levantado nesta terça-feira (16) pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Segundo os investigadores, a relação entre os dois envolvia uma série de vantagens econômicas e patrimoniais concedidas pelo banqueiro ao senador, em um esquema de benefícios mútuos que "extrapolava relações de mera amizade". A Gazeta do Povo procurou o gabinete do senador, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria.

Na decisão que tornou públicos os documentos, Mendonça reproduz a avaliação da Polícia Federal de que os elementos reunidos apontam, em tese, para um "arranjo funcional e instrumentalmente orientado para obtenção de benefícios mútuos" entre o senador e o banqueiro.

VEJA TAMBÉM:

Para os investigadores, a relação ia além da proximidade pessoal e envolvia a utilização do mandato parlamentar em favor de interesses privados ligados ao grupo financeiro comandado por Vorcaro.

Entre os principais indícios citados pela PF está a chamada "Emenda Master", apresentada por Ciro Nogueira em agosto de 2024 para ampliar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

Segundo a investigação, a proposta foi elaborada pela assessoria do Banco Master, encaminhada a Vorcaro, impressa e entregue em um envelope endereçado ao senador em sua residência. O texto protocolado no Senado reproduziu integralmente a versão produzida pelo banco.

Os investigadores também identificaram a circulação de minutas de outros projetos de interesse do banqueiro entre a residência do senador e pessoas ligadas ao Banco Master.

De acordo com a PF, propostas relacionadas ao mercado de carbono e à transição energética passaram por um circuito informal de revisão antes de serem encaminhadas ao gabinete parlamentar, com cuidados específicos para evitar que o transporte dos documentos fosse associado ao banco ou ao senador.

Em contrapartida, segundo a representação policial, Vorcaro teria proporcionado uma série de vantagens econômicas ao parlamentar. Além de custear viagens internacionais, hospedagens em hotéis de luxo, restaurantes e voos privados, o banqueiro teria colocado à disposição de Ciro Nogueira um imóvel de alto padrão e autorizado o uso de seu cartão de crédito para despesas pessoais.

Segundo a PF, entre os diversos gastos e regalias oferecidos ao parlamentar estão:

  • Viagens e hospedagens de luxo: o banqueiro teria pago hospedagens no hotel Park Hyatt, em Nova York, além de despesas em restaurantes de alto padrão e outros gastos para o senador e sua acompanhante.
  • Uso de cartão de crédito: diálogos interceptados revelam que Daniel Vorcaro orientou o pagamento de contas de Ciro Nogueira em restaurantes e o envio de seu próprio cartão de crédito para o senador utilizar em St. Barths.
  • Voos e imóveis: a investigação aponta o custeio de voos privados e a disponibilização gratuita, e por tempo indeterminado, de um imóvel de elevado padrão para uso do parlamentar.

VEJA TAMBÉM:

Primo de Vorcaro é apontado como operador financeiro ligado ao núcleo de Ciro Nogueira

Primo do banqueiro Daniel Vorcaro, Felipe Cançado Vorcaro é apontado pela PF como o principal operador financeiro do grupo investigado no caso Master. Segundo os investigadores, cabia a ele conectar as decisões estratégicas do núcleo comandado pelo banqueiro à execução das movimentações patrimoniais e societárias que beneficiariam o núcleo político ligado ao senador Ciro Nogueira.

De acordo com a representação da PF, Felipe atuou diretamente em duas frentes consideradas centrais para o esquema. A primeira envolveu a venda de 30% de uma empresa de investimentos para outra do ramo imobiliário. A segunda é administrada formalmente por Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima, irmão do senador.

Embora a participação societária fosse avaliada em cerca de R$ 13 milhões, a operação foi fechada por R$ 1 milhão, diferença que, segundo os investigadores, representaria uma vantagem econômica indevida em favor do grupo ligado ao parlamentar. A segunda frente dizia respeito à chamada parceria utilizada para operacionalizar repasses periódicos ao núcleo político.

Mensagens extraídas dos aparelhos apreendidos mostram Felipe consultando Daniel Vorcaro sobre a continuidade dos pagamentos mensais de R$ 300 mil. Em uma das conversas reproduzidas pela PF, o banqueiro responde afirmativamente e afirma que os repasses eram "muito importantes". Posteriormente, há referências ao aumento dos valores para R$ 500 mil.

Os investigadores também afirmam que Felipe recorreu a instrumentos particulares e a um "contrato de gaveta" para permitir que a participação societária adquirida pela empresa ligada à família de Ciro Nogueira gerasse dividendos sem chamar a atenção dos mecanismos de fiscalização.

PF vê indícios de lavagem de dinheiro para ocultar origem dos recursos

Além das suspeitas de corrupção envolvendo Daniel Vorcaro e o senador Ciro Nogueira (PP-PI), a Polícia Federal afirma ter identificado mecanismos destinados a dificultar o rastreamento da origem e do destino dos recursos movimentados pelo grupo investigado. Segundo a representação, a estrutura financeira utilizada pelos envolvidos apresentava características típicas de operações de lavagem de dinheiro.

Os investigadores apontam que parte dos valores era movimentada por meio de empresas ligadas a familiares, operações societárias consideradas atípicas e uso de dinheiro em espécie.

De acordo com a corporação, esse tipo de movimentação teria como objetivo reduzir a rastreabilidade dos valores e dificultar a identificação de sua origem. O padrão identificado é apontado pelos investigadores como compatível com práticas de lavagem de dinheiro, em razão da fragmentação das operações e da utilização de estruturas empresariais voltadas a ocultar os beneficiários finais dos recursos.

A investigação também cita que a parceria entre as empresas teria sido utilizada para formalizar repasses ao núcleo político. Segundo a PF, a empresa ligada à família de Felipe Vorcaro funcionava como fonte primária dos recursos, enquanto a companhia vinculada à família de Ciro Nogueira aparecia como destinatária formal dos valores.

Para os investigadores, a combinação dessas estruturas com o uso de numerário em espécie reforça os indícios de ocultação patrimonial e lavagem de capitais apurados no caso.

Outro lado

A reportagem entrou em contato com o senador Ciro Nogueira, com as defesas de Daniel Vorcaro, de Felipe Cançado Vorcaro e de Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima, mas não recebeu retorno de nenhum dos citados. O espaço segue aberto para manifestações.

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.