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Crise institucional

Vazamentos sobre Moraes intensificam pressão da oposição por CPMI do Master e apoio a Mendonça

Girão
O senador Eduardo Girão (Novo-CE) voltou a cobrar presencialmente do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), a instalação da CPI do Banco Master (Foto: Jeferson Rudy/Agência Senado)

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Novas mensagens vazadas do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, que apontam cumplicidade entre o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e o controlador do Banco Master ao longo do dia da sua primeira prisão, em 17 de novembro do ano passado, elevaram a cobrança da oposição pela abertura de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) – no Congresso ou só no Senado – para tratar do escândalo financeiro e institucional.

Além de reforçar a pressão sobre o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), parlamentares de direita passaram a manifestar apoio ainda mais explícito a André Mendonça, relator do caso Master no STF, a propor medidas adicionais de proteção ao ministro e à sua família e, por fim, a exigir gestos de autocontenção da Corte diante das evidências de conflito de interesses envolvendo Vorcaro e os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli.

Diálogos extraídos do celular do banqueiro - sob custódia da Polícia Federal (PF) - indicam proximidade entre Vorcaro e Moraes em meio a investigações de irregularidades no caso do Banco Master, que tinha contrato de R$ 129 milhões com escritório de advocacia da esposa do ministro, Viviane Barci. Conversas reveladas pela colunista Malu Gaspar, de O Globo, provocaram forte reação dos oposicionistas, que veem nelas indícios de corrupção, advocacia administrativa e obstrução da Justiça.

Outra mensagem que chamou a atenção da oposição foi a de uma conversa entre Vorcaro e o grupo chamado de “A Turma”, na qual o banqueiro afirmou que iria colocar o portal de notícias DCM no Inquérito das Fake News. A fala foi vista como prova de acesso privilegiado de Vorcaro a Moraes e submissão a ele do relator do inquérito.

Em nota enviada ao jornal O Globo, na quinta-feira (5), o ministro negou haver as mensagens divulgadas e as classificou como “ilações mentirosas” e “ataque” ao STF.

O gabinete do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), informou nesta sexta-feira (6) que uma análise técnica realizada nos dados telemáticos do empresário Daniel Vorcaro — tornados públicos pela CPMI do INSS — concluiu que as mensagens de visualização única enviadas por ele em 17 de novembro de 2025 não foram direcionadas ao ministro. Segundo a nota divulgada pela Secretaria de Comunicação do STF, a verificação nos arquivos apreendidos indica que essas mensagens não correspondem aos contatos telefônicos de Moraes registrados no material analisado.

De acordo com o comunicado, os prints das mensagens encontrados no celular de Vorcaro aparecem associados a pastas de outros contatos presentes em sua lista telefônica. Nos arquivos extraídos pelos investigadores, tanto a mensagem quanto o contato correspondente estão armazenados na mesma pasta do computador de quem fez os registros — no caso, o próprio Vorcaro — o que indicaria que o conteúdo estava ligado a outras pessoas, e não ao ministro do STF. A nota acrescenta que os nomes dos contatos não foram divulgados porque estão sob sigilo decretado pelo ministro André Mendonça, embora constem nos arquivos disponibilizados pela CPMI do INSS à imprensa. Confira a nota do gabinete do ministro Alexandre de Moraes na íntegra no fim da matéria.

Já a Polícia Federal afirmou que conduz todas as suas investigações seguindo rigorosos padrões de segurança no tratamento de informações, com respeito aos direitos fundamentais, como a privacidade e a intimidade. Segundo a instituição, nenhum relatório ou representação apresentados no âmbito da Operação Compliance Zero incluiu dados que não fossem relevantes para o andamento das investigações, e não foram inseridas informações relacionadas à vida privada dos investigados.

A corporação também declarou que não compete à PF editar ou selecionar conversas e dados extraídos de equipamentos apreendidos, pois isso poderia violar o direito ao contraditório e à ampla defesa. Os materiais da operação estão sob custódia da Polícia Federal desde novembro de 2025 e da Procuradoria-Geral da República desde janeiro de 2026, tendo sido posteriormente disponibilizados à defesa e à CPMI do INSS por decisões judiciais. Por orientação do diretor-geral, a equipe responsável ainda pediu ao relator do caso a abertura de apuração sobre o vazamento de informações sigilosas. Leia a nota da Polícia Federal na íntegra no fim da matéria.

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Deputados de oposição pedem a prisão de Moraes

O deputado Maurício Marcon (PL-RS) reagiu às revelações publicadas pelo jornal O Globo e afirmou que o conteúdo das mensagens justificaria medidas ainda mais duras do que uma CPI ou processo de impeachment. Para ele, as conversas reforçariam suspeitas de que o ministro teria usado sua posição no STF para bloquear investigações relacionadas ao banco. “Ele precisa fazer companhia ao banqueiro na prisão”, declarou.

Em vídeo publicado nas redes sociais, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) comentou ponto a ponto as mensagens vazadas entre Vorcaro e Moraes para sustentar a gravidade do episódio. O parlamentar afirmou que, em sua avaliação, o ministro nem teria que passar por processo de impeachment no Senado e deveria ser preso imediatamente. Aliados do deputado apostam em novas mobilizações de rua para pressionar a reação de autoridades.

Entre oposicionistas, também cresce a preocupação com a segurança de André Mendonça, responsável por decisões recentes relacionadas ao caso no STF. Parlamentares ressaltam o apoio do ministro às diligências da PF, em contraste com decisões anteriores do ex-relator, Dias Toffoli.

Nos bastidores, integrantes da oposição afirmam que Mendonça enfrenta pressões internas e tentativas de contenção por colegas da Corte. Eles citam decisões de Flávio Dino e Gilmar Mendes no âmbito das CPIs do Crime Organizado e do INSS, além de posicionamentos contrários do procurador-geral da República, Paulo Gonet, que ficaram evidenciados na prisão de Vorcaro nesta semana.

Especialista aposta em autocorreção do STF para conter escalada de tensão

Diante dos fatos, o cientista político Ismael Almeida vê como “o caminho natural” para a oposição reforçar o pedido de instalação de CPI do Master no Congresso e proteger a condução das ações no STF por André Mendonça.

Ele acredita, contudo, que os próximos desdobramentos dessa crise não virão do Legislativo, mas do próprio Judiciário, sobretudo com a tendência de mais revelações emergirem da análise de mensagens.

“O clima dentro no STF não está nada bom também. Não se deve descartar então a hipótese de, em pouco tempo, os próprios ministros da Corte endossarem silenciosamente o expurgo de algum deles para aliviar pressões internas e externas”, prevê. Almeida vê limites à capacidade de intervenção dos colegas de Mendonça para supostamente conter as investidas presididas por ele.

Antes mesmo da divulgação do novo conjunto de mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro e ao ministro Alexandre de Moraes, o senador Eduardo Girão (Novo-CE) voltou a cobrar presencialmente do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), a instalação da CPI do Banco Master, seja apenas no Senado, como propôs, ou no Congresso, a partir da Câmara.

Girão argumentou que já não falta mais qualquer requisito formal para a abertura da investigação parlamentar. Ele lembra que o pedido conta com o apoio de 51 senadores e foi apresentado diante de irregularidades financeiras e conexões político-institucionais envolvendo o banco. Em mensagens, Vorcaro se gabou de ter se reunido com Alcolumbre em Brasília.

O ex-desembargador e advogado Sebastião Coelho, pré-candidato ao Senado pelo DF, anunciou que pretende iniciar campanha política junto ao eleitorado do Amapá para pressionar Alcolumbre a recuar de sua resistência à instalação de CPIs e à tramitação de pedidos de impeachment contra ministros do STF. O alvo principal das críticas são Moraes, Toffoli e Mendes, que, segundo ele, deveriam ser responsabilizados diante da gravidade das revelações do caso Master.

Oposição e CPIs reclamam de blindagens do STF a Moraes e Toffoli 

Outra expectativa entre oposicionistas é a possibilidade de Vorcaro negociar um acordo de delação premiada após ter sido preso novamente na quarta-feira (4), em nova fase da investigação da PF sobre o escândalo do Master. A operação foi autorizada por Mendonça com base em novos elementos de prova, incluindo mensagens que apontam crimes como corrupção, lavagem de dinheiro, ameaça violenta a jornalistas e invasão de bancos de dados.

A eventual colaboração do banqueiro, contudo, dependerá da estratégia da defesa e pode levar mais tempo do que esperam adversários do governo federal.

Presidentes de comissões parlamentares em funcionamento também aproveitaram o episódio para renovar críticas a decisões do STF que interferiram em investigações legislativas.

O senador Alessandro Vieira (MDB-SE), relator da CPI do Crime Organizado, e o senador Carlos Viana (Podemos-MG), presidente da CPI do INSS, defenderam maior respeito às prerrogativas do Congresso, sobretudo no tocante à quebra de sigilos e à condução de apurações sobre esquemas financeiros e corrupção.

Governistas tentam reagir com guerra de narrativas relacionadas ao Master

Do lado governista, a reação tem sido tentar associar o escândalo do Master ao governo anterior. Aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) apontam supostos favorecimentos ocorridos durante a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Para isso, eles citam a atuação do ex-presidente do Banco Central (BC) Roberto Campos Neto e relações do banqueiro com governadores como Ibaneis Rocha (MDB), do Distrito Federal, e Cláudio Castro (PL), do Rio de Janeiro. A articulação dessa linha tem contado com líderes do PT e a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann.

Segundo apuração de O Estado de S. Paulo, Vorcaro teria afirmado à Polícia Federal que tratou diretamente com o governador sobre a venda do Master ao BRB, e que Ibaneis Rocha esteve pessoalmente em sua casa. O governador confirmou o encontro, mas negou a conversa sobre a transação. “Estive uma vez a convite para um almoço, quando conheci ele. Entrei mudo e saí calado”, afirmou a jornalistas.

Com relação ao Rio de Janeiro, governistas citam que a Rioprevidência aplicou R$ 960 milhões em papéis do Banco Master. Auditoria do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ), no início de 2025, já havia identificado falhas no plano de investimentos, mesmo antes da liquidação da instituição pelo Banco Central.

À época, a Rioprevidência afirmou que os investimentos em títulos do Banco Master foram realizados “em conformidade com todos os regramentos vigentes” e de acordo com o plano anual de investimentos aprovado pelo conselho de administração do fundo. A autarquia sustentou que o valor aplicado foi de cerca de R$ 960 milhões e diz que os recursos estão sendo recuperados por meio da retenção de receitas de empréstimos consignados que seriam repassadas ao banco.

Após a deflagração da operação da Polícia Federal que apura o caso, o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), exonerou o então presidente do Rioprevidência e determinou a abertura de apuração interna sobre as aplicações do fundo.

A oposição, por sua vez, insiste em destacar as relações pessoais e comerciais de Vorcaro com figuras ligadas ao governo petista, mencionando consultorias prestadas por ex-ministros como Guido Mantega, além da proximidade do banco com lideranças políticas da Bahia.

Segundo o site Metrópoles, o ex-ministro Guido Mantega teria atuado como consultor do Banco Master, com remuneração mensal de cerca de R$ 1 milhão. A publicação afirma que Mantega participou de tratativas sobre a tentativa de venda do banco ao BRB e permaneceu na função até semanas antes de o Banco Central decretar a liquidação da instituição, em novembro, recebendo ao menos R$ 11 milhões. Ao site, Mantega negou irregularidades e disse que sua atuação foi técnica e dentro da legalidade.

Na nova guerra de narrativas desencadeada pelas revelações, oposicionistas também exploraram mensagens nas quais Vorcaro fez críticas ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Em uma das conversas, o banqueiro teria chamado Bolsonaro de “beócio” e “idiota” ao comentar dificuldades enfrentadas em negociações com a Caixa Econômica Federal.

Em outro trecho, ele registra uma conversa reservada que teve com Lula em 2024, no Palácio do Planalto. Esse é um dos elementos usados por adversários do governo para reforçar suspeitas de proximidade política.

Nota do gabinete do ministro Alexandre de Moraes

"Nota à imprensa

A Secretaria de Comunicação do Supremo Tribunal Federal, por solicitação do gabinete do ministro Alexandre de Moraes, informa:

Análise técnica realizada nos dados telemáticos de Daniel Vorcaro, tornados públicos pela CPMI do INSS, constatou que as mensagens de visualização única enviadas por ele no dia 17 de novembro de 2025 não conferem com os contatos do ministro Alexandre de Moraes nos arquivos apreendidos.

No conteúdo extraído do celular do executivo pelos investigadores, os prints dessas mensagens enviadas por Vorcaro estão vinculadas a pastas de outras pessoas de sua lista de contatos e não constam como direcionadas ao ministro Alexandre de Moraes.

A mensagem e o respectivo contato estão na mesma pasta do computador de quem fez os prints (Vorcaro). Ou seja, fica demonstrado que as mensagens (prints) estão vinculadas a outros contatos telefônicos no computador de Daniel Vorcaro, jamais ao Ministro Alexandre de Moraes.

Os nomes e contatos das pessoas vinculadas aos respectivos arquivos não serão mencionados na presente nota em virtude do sigilo decretado pelo Ministro André Mendonça, mas constam no arquivo que a CPMI do INSS disponibilizou para toda a imprensa".

Nota da Polícia Federal

"A Polícia Federal reafirma que atua em todas as suas investigações seguindo rigorosos padrões de segurança no tratamento de informações e na preservação e garantia dos direitos fundamentais, incluindo o respeito à privacidade e à intimidade.

Nenhum relatório, informação de polícia judiciária ou representação apresentada pela Polícia Federal, no âmbito da Operação Compliance Zero, conteve dados que não fossem relevantes para a instrução das investigações. Não foram incluídas, portanto, informações relacionadas à intimidade ou à vida privada dos investigados.

Não compete à Polícia Federal editar conversas, selecionar ou manipular dados extraídos de equipamentos apreendidos, sob pena, inclusive, de violação ao direito ao contraditório e à ampla defesa, constitucionalmente assegurados.

Os materiais apreendidos na citada operação estão em poder da Polícia Federal desde novembro de 2025 e em poder da Procuradoria-Geral da República desde janeiro de 2026. Posteriormente, por decisão do então Ministro Relator do processo, a defesa dos investigados passou a ter acesso à integralidade dessas informações. Da mesma forma, a CPMI do INSS recebeu dados referentes ao objeto da comissão por determinação do atual relator do processo. 

Por fim, por orientação do diretor-geral da instituição, a equipe responsável pelas investigações encaminhou ao ministro relator representação para a abertura de apuração sobre a divulgação indevida de informações sigilosas".

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