Publicidade
Nazaré Brasileira

Onde fica a praia com a maior onda do Brasil

Lucas Chumbo surfa onda gigante em Laje da Jagua, em Jaguaruna (SC)
Surfista Lucas Chumbo desceu uma onda de 14,82 metros, registrado como recorde de maior onda já surfada no Brasil (Foto: Gabriel Gomes/Divulgação Big Wave Brasil)

Ouça este conteúdo

Jaguaruna, no litoral sul de Santa Catarina, recebeu em julho o título de Capital Nacional da Maior Onda do Brasil. A Lei nº 15.461, sancionada em 7 de julho, formalizou o reconhecimento do município como sede da maior onda surfada e registrada no país.

O título tem como referência a Laje da Jagua, formação rochosa em mar aberto, a cerca de cinco quilômetros da costa. Foi ali que o surfista Lucas Chumbo desceu, em 30 de julho de 2025, uma onda de 14,82 metros — marca divulgada como recorde brasileiro após análise técnica feita a partir de imagens do surfe. A onda superou o registro anterior de 13,7 metros e levou o nome de Jaguaruna ao circuito internacional de surfe de ondas grandes.

A projeção da Laje da Jagua, conhecida no meio do surfe como “Nazaré Brasileira”, abre caminho para um novo momento. Jaguaruna está na janela de espera para receber o Mormaii Big Wave Challenge. A Big Wave Brasil, entidade ligada ao surfe de ondas grandes, aponta que esta será a primeira etapa de um campeonato mundial de ondas grandes na remada realizada no Brasil.

Recorde registrado pode não ter sido maior onda da Laje da Jagua 

A onda de 14,82 metros surfada por Chumbo deu uma dimensão mensurável à fama que a Laje da Jagua já tinha entre praticantes de surfe de ondas grandes. A expedição foi organizada pela Big Wave Brasil, que acompanha a Laje da Jagua desde 2003, em parceria com a Mormaii; depois da sessão, a entidade reuniu imagens e vídeos e contratou o oceanógrafo e especialista em medição de ondas Douglas Nemes para analisar o material.

O resultado foi divulgado como a maior onda registrada e surfada no país. “Falava-se muito que havia ondas acima de 10 metros ali, mas faltavam registros. No ano passado, finalmente tivemos essa prova importante”, conta Thiago Jacaré, surfista e um dos fundadores da Big Wave Brasil.

A Lei nº 15.461, sancionada em 7 de julho, formalizou o reconhecimento do município como sede da maior onda surfada e registrada no país, no ponto conhecido como Laje da Jagua. A lei formalizou o reconhecimento de Jaguaruna como sede da maior onda surfada e registrada no país. (Foto: Gabriel Gomes/Divulgação Big Wave Brasil)

Mauro Michelena Andrade, professor de Oceanografia Física da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), que pesquisa processos como ondas, marés, correntes e dinâmica costeira, pontua que o registro não significa necessariamente que aquela tenha sido a maior onda já formada na Laje e que a região tem as especificações necessárias para gerar ondas maiores. Ele explica que a marca se baseia no material disponível da onda surfada, enquanto o ponto ainda não conta com instrumentos instalados para medir continuamente todas as ondulações que passam pela formação rochosa.

“Podem ter ocorrido ondas maiores em momentos sem surfistas no local, durante a noite ou em condições que não eram adequadas para a prática do surfe”, afirma Andrade. Segundo ele, apenas a rede de equipamentos de monitoramento antes e depois da laje permitiria registrar, de maneira permanente, a altura e as características das ondas que chegam ao local.

Antes de Chumbo, a referência era uma onda de 13,7 metros surfada por Thiago Jacaré. O surfista relata também já ter surfado, em outra ocasião, uma onda próxima de 14 metros, mas sem um registro técnico que permitisse compará-la à marca de Chumbo. Também conta ter presenciado, junto de outros surfistas, uma sessão ainda maior que não foi fotografada ou filmada.

Segundo o atleta, registrar uma onda depende de mais do que encontrar um swell — ondulações formadas em alto-mar por tempestades distantes — de grande porte. É preciso prever a chegada da ondulação, mobilizar surfistas e equipe de apoio, navegar até a laje e ter imagens em condições adequadas para análise técnica futura. A Big Wave Brasil afirma acompanhar os mapas de previsão e manter estrutura de operação e mídia para documentar as sessões.

“Quando houver o dia ideal, estaremos preparados para comprovar que Jaguaruna pode competir com qualquer grande onda do mundo”, ressalta ele sobre a ambição da entidade de registrar recordes maiores.

Em maio deste ano, a Laje da Jagua também foi palco do recorde feminino. A paranaense Michaela Fregonese surfou uma onda medida em 12,25 metros, apontada como a maior já surfada por uma mulher no Brasil, após análise técnica das imagens da sessão.

Por dentro da Laje da Jagua

A cerca de cinco quilômetros da costa de Jaguaruna, a Laje da Jagua é uma elevação rochosa no fundo do mar. Andrade explica que ela está em uma área da plataforma continental onde o relevo costuma ser mais plano e arenoso, com aumento gradual de profundidade em direção ao oceano.

No ponto da laje, porém, esse padrão muda de forma brusca: onde o mar tem em torno de 30 a 40 metros de profundidade, o fundo sobe até aproximadamente dois metros. É essa mudança no relevo submarino que cria as condições para ondas de grande porte.

“A ondulação chega ao ponto ainda carregada de energia e, ao encontrar a redução abrupta de profundidade, desacelera. Parte da energia passa então a se transformar em altura, em um processo chamado de empolamento ", ressalta.

O oceanógrafo aponta que as ondulações que alcançam o litoral sul do Brasil costumam se formar em regiões mais ao sul do oceano, próximas à Antártica, onde ventos fortes podem agir sobre grandes extensões de água. Para a Laje da Jagua produzir ondas maiores, não basta haver mar agitado: é preciso que um swell de grande energia chegue com período e direção adequados.

Segundo Andrade, as ondulações de sudoeste tendem a encontrar a formação de maneira mais favorável; as condições são mais comuns no inverno e logo depois da estação. A expressão “Nazaré Brasileira” se espalhou entre surfistas e passou a ser usada na divulgação turística da cidade, comparado o lugar Nazaré, em Portugal, que é conhecida como capital das maiores ondas do mundo.

A comparação faz sentido pela dimensão que as ondas podem alcançar, mas Andrade ressalta que a origem do fenômeno não é a mesma. Na vila portuguesa, as ondas da Praia do Norte são influenciadas pelo Canhão de Nazaré, um cânion submarino que se aproxima da costa e interfere no deslocamento das ondulações. Na Laje da Jagua, ocorre o contrário: “não há um cânion, mas uma elevação rochosa em meio a uma área mais profunda do mar”, explica.

Prefeitura quer transformar onda gigante em destino turístico 

O título federal chega no momento em que Jaguaruna tenta transformar a visibilidade obtida com a Laje da Jagua em uma estratégia de turismo. A cidade participa da Rota do Big Surf, criada por lei estadual para reunir Jaguaruna, Laguna, Imbituba, Garopaba e Tubarão em ações de turismo esportivo ligadas às ondas grandes.

A norma prevê a integração de atividades como hotelaria, gastronomia, comércio, serviços e indústria esportiva, além da formação de um comitê gestor com prefeituras, entidades do surfe e órgãos estaduais.

Para o secretário municipal de Turismo, Dante Gentil, o título de Capital Nacional da Maior Onda do Brasil funciona como chancela para desenvolver produtos e experiências em torno da Laje. “O big surf tem um cenário global, e esse título dá mais embasamento e credibilidade para desenvolver ações e produtos relacionados à Laje da Jagua”, afirma.

Uma das iniciativas em estudo é a criação de um passeio ou expedição náutica até a formação rochosa. Como a atividade deve ter custo maior e não ser acessível a todos os visitantes, a prefeitura também trabalha com alternativas em terra, como uma experiência de imersão em 3D, um acervo técnico para apresentar a formação das ondas e os naufrágios da região e um monumento em tamanho real de uma onda gigante.

Segundo Gentil, o município ainda pretende integrar a Laje da Jagua a roteiros de cicloturismo e de naufrágios. A prefeitura também informou que custeou o estudo técnico usado na medição da onda surfada por Chumbo, adquiriu motonáuticas para apoio logístico de atletas e mantém parceria com a associação de tow-in de Jaguaruna, entidade ligada ao surfe de ondas grandes praticado com apoio de motos aquáticas.

O secretário ressalta ainda que o município destinou R$ 300 mil ao mundial Mormaii Big Wave Challenge. A aposta enfrenta um desafio comum a destinos que dependem de eventos naturais: criar razões para o visitante ir à cidade quando não há ondas gigantes.

Gentil diz que Jaguaruna possui imóveis de veraneio que ficam vazios fora da alta temporada — mais de 70%, segundo estimativa dele —, mas reconhece que a oferta de hospedagem ainda precisa ser formalizada, promovida e integrada ao Cadastro de Prestadores de Serviços Turísticos (Cadastur) e a plataformas de reserva.

A oferta de gastronomia e serviços fora do verão também está entre os gargalos apontados pelo secretário. “Não basta ter o atrativo natural; é preciso criar uma rede de serviços e experiências para que toda essa vocação turística se sustente ao longo do tempo”, afirma Gentil.

Mundial depende do mar

A projeção obtida pela Laje da Jagua será testada ainda neste ano com a possibilidade de Jaguaruna sediar o Mormaii Big Wave Challenge. Na modalidade, os atletas entram na onda apenas com a força da remada, sem serem rebocados por motos aquáticas, como ocorre no tow-in.

A previsão é reunir 12 surfistas na categoria masculina e seis na feminina, com atletas de Brasil, Austrália, Inglaterra, Portugal, Peru e Chile. A premiação anunciada é justamente o valor que a prefeitura diz ter destinado à competição — R$ 300 mil.

Diferentemente das competições tradicionais de surfe, o evento não tem uma data previamente marcada. Thiago Jacaré explica que a janela de espera está aberta até 30 de novembro e a disputa só será acionada se as previsões indicarem uma ondulação com altura, período, energia e vento adequados.

Se as condições não se confirmarem neste período, a organização prevê reabrir uma nova janela em março de 2027. A Big Wave Brasil afirma acompanhar a previsão de swells com até 17 dias de antecedência.

Quando identifica um cenário promissor, emite um “sinal amarelo” para colocar atletas, imprensa, patrocinadores e equipe de organização em alerta. Se a previsão se mantiver favorável, o “sinal verde” é divulgado sete dias antes da prova. Caso a ondulação perca força ou o vento comprometa o mar antes dessa confirmação, a chamada é cancelada.

“É uma responsabilidade muito grande, porque uma chamada errada pode fazer os atletas viajarem e encontrarem um mar pequeno ou inadequado. Por isso, a análise precisa ser muito precisa”, afirma o surfista.

A realização da prova depende da mesma combinação que fez a Laje da Jagua ganhar visibilidade: uma grande ondulação formada em alto-mar, direção favorável para atingir a elevação rochosa e condições adequadas de vento.

Caso isso aconteça dentro da janela, Jaguaruna deixará de ser apenas o local de um recorde nacional para receber atletas de diferentes países em uma disputa pelo título da temporada. “Mais do que sediar uma etapa, a Laje da Jagua elegerá o campeão mundial de ondas grandes de 2026”, afirma Jacaré.

Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.