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Numa manhã depois da Quaresma, padres da Diocese de Santo Amaro, zona sul de São Paulo, se reuniram para ouvir frei Gilson ler uma carta. O bispo dom José Negri havia pedido ao frade que apresentasse pessoalmente, diante do clero, o Centro de Contemplação e Evangelização Nossa Senhora de Guadalupe — o projeto que pretende erguer na zona sul de São Paulo.
Quem estava na sala saiu com uma impressão clara: tratava-se de algo bem diferente do "megatemplo" que havia circulado na internet semanas antes. Mais contido no porte e mais próximo do frei que já conheciam.
O centro será erguido em um terreno de cerca de 86 mil metros quadrados, o que supera um pouco a Basílica do Santuário Nacional de Aparecida, o segundo maior templo católico do mundo.
O terreno é grande, mas boa parte dele deve permanecer como está — verde, silencioso, propício à contemplação. A obra de Nossa Senhora de Guadalupe, entidade religiosa registrada desde julho de 2025, adquiriu a área no fim de 2025 por R$ 21,9 milhões, em 18 parcelas mensais de aproximadamente R$ 1 milhão.
Na avaliação de sacerdotes da diocese ouvidos pela Gazeta do Povo, o projeto é uma igreja de porte médio associada a uma casa de retiros. O parâmetro está dentro da própria diocese: a paróquia São João de Brito, onde são celebradas ordenações sacerdotais, comporta cerca de mil fiéis, o dobro da capacidade prevista para a capela principal do novo centro.
A iniciativa não nasceu de frei Gilson, mas de dom José Negri, bispo da Diocese de Santo Amaro, que percebeu que o frade precisava de um espaço para desenvolver o ministério de forma mais estruturada.
O bispo confiou a missão ao frei, que a recebeu como um chamado — e hoje preside a entidade responsável por gerir as doações e as contas do projeto. "É um chamado da Igreja, e eu o abraço com alegria e responsabilidade", disse frei Gilson.
No coração do centro, uma chama que nunca se apaga

"A adoração será o coração deste espaço. Haverá sempre alguém diante de Jesus, sustentando tudo com a oração", afirmou Frei Gilson ao descrever o que imagina para o lugar.
É essa imagem — uma chama permanente, mantida por fiéis em revezamento a qualquer hora do dia ou da noite — que define o centro. A capela principal, com capacidade para até 500 pessoas, será dedicada à Adoração Perpétua ao Santíssimo Sacramento, funcionando 24 horas por dia.
Em torno dela, o complexo prevê uma casa de retiros para ao menos 200 pessoas, aberta mediante inscrição prévia, e cinco capelas menores dedicadas a cada uma das aparições de Nossa Senhora de Guadalupe ao indígena Juan Diego — do encontro no monte Tepeyac ao milagre das rosas.
O centro também abrigará um estúdio do rosário com capacidade para até 500 pessoas — uma expansão significativa em relação ao espaço atual, que comporta cerca de dez fiéis. A novidade é que eles poderão acompanhar as gravações presencialmente, com participantes sorteados entre os que rezam com o frei.
Com mais de 12 milhões de seguidores no Instagram e milhões adicionais no YouTube, onde ficou conhecido pelos rosários transmitidos ao vivo de madrugada, frei Gilson é hoje um dos religiosos católicos de maior alcance digital do país. "Não será um espaço para grandes eventos, mas para almas que precisam se restaurar e viver uma experiência profunda com Deus", resumiu.
A obra será construída em etapas, sem orçamento total definido. Segundo o frei, a prioridade será o estúdio do rosário; em seguida, uma casa com 10 quartos para acolher bispos, sacerdotes e convidados; e, por fim, a sede administrativa.
Não há data prevista para o início das obras. A Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento (SMUL) confirmou que há apenas um pedido em análise para emissão de Certidão de Uso e Ocupação do Solo — etapa inicial que verifica a compatibilidade do terreno com o uso pretendido. "Até o momento, não há solicitação de alvará para aprovação de projeto edilício ou realização de obras no endereço", informou a pasta.
Frei Gilson e padre Marcelo navegam contra a maré e os peixes e as almas vêm, afirma chanceler
Para entender o que frei Gilson está construindo, vale olhar para o que o padre Marcelo Rossi já construiu — com a ressalva de que os projetos têm escalas diferentes.
O Santuário Nossa Senhora Mãe de Deus também fica na zona sul de São Paulo, na mesma Diocese de Santo Amaro, e hoje é um dos maiores centros católicos do país, com capacidade para receber 100 mil pessoas. Mas começou pequeno, sustentado pela fé de uma audiência que ninguém havia previsto.
Padre Marcelo surgiu sem internet nem redes sociais, e seu ministério completa mais de 30 anos sem sinais de declínio: o santuário nunca esvaziou, as rádios continuam com audiência e a migração para a internet foi bem-sucedida.
Padre Antonio Henrique, chanceler da Diocese de Santo Amaro, conhece pessoalmente os dois e afirma que o elemento comum entre padre Marcelo e frei Gilson não está no tamanho das obras, nem no alcance das redes, mas em algo inexplicável. "Eles têm talentos e dons diferentes, mas o elemento em comum é que vão contra a maré e, mesmo assim, os peixes e as almas vêm", afirmou.
O chanceler observa que se o fenômeno de frei Gilson fosse passageiro, teria ficado restrito à pandemia, quando os rosários noturnos começaram a ganhar audiência. "A coisa não se arrefeceu, pelo contrário", ressaltou.
Ele ainda lembrou quem conheceu os dois antes da fama diz que eles permanecem os mesmos no privado — na conduta, na autenticidade e no relacionamento com as pessoas. "Conheço bem os dois, e a gente nota que tem muita gente que tenta fazer algo semelhante e não vinga. Às vezes até com boa vontade. Fica evidente que existe a mão de Deus", opinou.
Fiéis do mundo todo fizeram doações para pagar o terreno

Os R$ 21,9 milhões do terreno não vieram de banco, empresário, fundo ou recursos públicos, mas de fiéis do Brasil e do exterior que doaram espontaneamente, muitos durante a campanha "40 dias com São Miguel".
A gestão financeira do projeto cabe à obra de Nossa Senhora de Guadalupe, registrada como entidade religiosa desde julho de 2025, presidida por frei Gilson e conduzida sob direcionamento do bispo dom José Negri. Até o dia 17 de abril, frei Gilson afirmou em uma live que 71,14% do valor necessário para as três primeiras construções já havia sido arrecadado.
Do lado da burocracia, a assessoria afirma que o diálogo com a prefeitura paulistana e os órgãos ambientais tem sido tranquilo e que o processo segue seu curso normal, respeitando o tempo de cada etapa. A SMUL disse que qualquer projeto deverá atender à legislação urbanística e ambiental vigente.














