Publicidade
"Eleitas por homens"

Esquerda ataca mulheres da direita eleitas com tese impossível de comprovar

bancada feminina câmara
Parlamentares atribuem vitória de mulheres conservadoras ao voto masculino, mas dados oficiais do TSE não permitem comprovar a tese. (Foto: Vinicius Loures/Câmara dos Deputados)

Ouça este conteúdo

Após a eleição de um número recorde de mulheres conservadoras para o Congresso, parlamentares da esquerda passaram a afirmar que elas foram eleitas majoritariamente por homens, uma tese para a qual não existem dados públicos de comprovação.

Nomes como Sâmia Bomfim (PSOL-SP) e Erika Hilton (PSOL-SP) questionaram o avanço de mulheres conservadoras nas urnas. A bancada feminina do Congresso Nacional cresceu nas eleições de 2026 e o PL, sozinho, elegeu três senadoras e 22 deputadas federais.

Com a nova composição do Senado, o Distrito Federal, por exemplo, passará a ser representado apenas por mulheres de direita, sendo elas Damares Alves (Republicanos-DF), Michelle Bolsonaro (PL-DF) e Bia Kicis (PL-DF). Outras conservadoras eleitas para a Casa são Carol de Toni (PL-SC), Mara Rocha (Republicanos-AC), Gracinha Caiado (União Brasil-GO) e Marina JHC (PSDB-AL).

“Tenho a convicção de que quem majoritariamente vota nessas mulheres que se apresentam como antifeministas são homens, porque se veem representados com alguma legitimidade em um discurso que os favorece”, avaliou Sâmia Bomfim ao ser questionada sobre o aumento da bancada feminina em entrevista ao Estadão, em 6 de outubro.

Segundo a deputada, essa percepção decorre do perfil dos apoiadores de Eduarda Campopiano (PL-SP), deputada estadual mais votada de São Paulo. Bomfim citou a composição do público presente nas comemorações da vitória, além dos seguidores e apoiadores da parlamentar nas redes sociais. “Para esses homens que querem a manutenção da violência, dos seus privilégios, que estão satisfeitos com a desigualdade salarial, com o feminicídio, com o discurso de ódio e que se sentem parte de uma estrutura de dominação [...], essas mulheres acabam sendo úteis e funcionais a eles”, disse.

A crítica remete a um tipo de argumento que parlamentares adeptas ao feminismo já contestaram no passado. A deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP), por exemplo, reagiu diversas vezes a acusações de que suas posições políticas seriam resultado da influência do empresário Jorge Paulo Lemann, por ter sido bolsista da Fundação Estudar. Agora, críticas semelhantes são dirigidas a mulheres conservadoras, retratadas por adversários como figuras subordinadas a interesses masculinos.

A hipótese apontada por Samia, porém, não pode ser verificada com os dados oficiais disponíveis. O sistema eleitoral brasileiro garante o sigilo do voto e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não divulga estatísticas que permitam identificar o sexo dos eleitores de cada candidato. Dessa forma, é impossível saber se uma candidatura recebeu mais votos de homens ou de mulheres.

Mais mulheres eleitas não implicam em mais feminismo no Congresso

A reação de parte da esquerda ao crescimento de mulheres conservadoras revela que a preocupação desses grupos não seria apenas aumentar a presença feminina nos espaços de poder. "No fundo, o que esses movimentos querem não é mulher na política. O que querem são mulheres feministas", avalia Francisco Razzo, mestre em Filosofia, escritor e colunista da Gazeta do Povo.

Para Razzo, a divergência em relação às pautas defendidas por parlamentares conservadoras é legítima. O problema surge quando a discordância se transforma em uma tentativa de desqualificar a atuação política dessas mulheres.

“Quando esses movimentos alegam lutar por representatividade e, ao mesmo tempo, se incomodam porque determinadas mulheres eleitas contradizem suas expectativas por serem conservadoras, demonstram que sua preocupação não é apenas com a presença feminina na política, mas com a presença de mulheres que sigam uma determinada pauta ideológica”, complementa Razzo.

Para o doutor em Ciência Política Luiz Ramiro Júnior, o avanço das pautas identitárias transformou a forma como parte da esquerda passou a compreender a representação política. Segundo ele, a premissa é que determinados grupos sociais tenderiam a compartilhar interesses comuns a partir de características como sexo, raça ou orientação sexual.

"A direita passou a disputar espaços historicamente associados às pautas identitárias e a formar lideranças capazes de dialogar com eleitorados antes vistos como próximos da esquerda", destaca.

Para o cientista político, o crescimento de mulheres conservadoras é resultado desse processo e demonstra que representatividade e alinhamento ideológico não são necessariamente a mesma coisa. “Não é uma contradição que mulheres eleitas não defendam pautas identitárias. Isso mostra que identidade e posição política não são a mesma coisa", diz.

Erika Hilton também deslegitima mulheres que pensam diferente

Ao comentar o avanço eleitoral de mulheres conservadoras, Erika Hilton afirmou que “mulheres antifeministas deveriam ir para as suas casas e serem submissas”. Na entrevista ao Estadão, concedida no último dia 8, Hilton ainda acrescentou que “mulheres que são ‘anti o direito de mulheres’, mas que usufruem do direito de mulheres, é a maior prova do mau-caratismo e da desonestidade”.

Para Razzo, a crítica de que mulheres conservadoras não poderiam rejeitar o feminismo porque usufruem de direitos conquistados pelo movimento configura uma "contradição performática". Na avaliação dele, o argumento reconhece a autonomia política da mulher para ocupar espaços de poder, mas busca limitar a forma como ela pode exercer essa liberdade.

O pesquisador argumenta que o voto feminino e a ampliação da participação das mulheres nos espaços de poder foram reivindicações fundamentadas justamente na ideia de universalidade dos direitos. Uma vez reconhecidos, esses direitos passam a pertencer a todas as mulheres, independentemente de sua orientação ideológica.

"O voto feminino não é um direito condicionante ao seu status. Exigir que uma mulher usufrua de um direito, mas determinar de que forma ela deve exercê-lo, é uma contradição", conclui.

Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.