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Um grupo de professores e pesquisadores de universidades públicas de todo o país lançou um manifesto em defesa do pluralismo e da liberdade acadêmica, cobrando medidas concretas para garantir o debate de ideias nas instituições de ensino superior. O documento surge em meio a episódios de repressão a opiniões divergentes, que, segundo os autores, têm se tornado frequentes tanto entre docentes quanto entre estudantes.
Em junho de 2025, por exemplo, o estudante Wilker Leão foi suspenso do curso de História que fazia na Universidade de Brasília (UnB), por gravar aulas e denunciar o que considerava ser doutrinação ideológica. Alguns meses depois, em agosto, ele foi condenado por acusar um professor de “doutrinação comunista”, e em setembro, ele acabou sendo expulso da instituição.
Ainda em setembro, mais dois casos mostraram o nível de cerceamento à liberdade de opinião e debate, nas universidades públicas. O primeiro, na Universidade Federal do Paraná (UFPR), quando o advogado Jeffrey Chiquini e o vereador de Curitiba Guilherme Kilter (Novo-PR) foram expulsos do prédio histórico da universidade por estudantes que se opunham à participação deles em uma palestra sobre a atuação do Supremo Tribunal Federal (STF). Já na Unesp de Franca, o professor Gabriel Cepaluni foi chamado de fascista e agredido com socos por estudantes.
Além das experiências vividas pelos docentes diariamente nas instituições de ensino superior brasileiras, o manifesto menciona uma pesquisa realizada em 2025 pela ONG More in Common em parceria com o instituto Quaest. O levantamento mostrou que para 59% dos brasileiros a universidade pública é pouco ou nada confiável. Perguntados se, para eles, a universidade promove mais ideologia do que ensino de qualidade, 54% responderam que sim. E, para 51% dos entrevistados, as universidades particulares são melhores.
Os autores do documento argumentam que essa percepção não invalida a relevância das universidades públicas na formação profissional e na produção científica e tecnológica do país, mas indicam a necessidade de mudanças. “A percepção capturada na pesquisa reflete um problema real: a dificuldade que as universidades têm enfrentado em garantir o pluralismo e sustentar a convivência entre perspectivas divergentes”, diz o documento ao reforçar que isso “alimenta o entendimento de que se dedicam mais à militância política do que ao ensino e à pesquisa”.
“O documento é um esforço conduzido por docentes e pesquisadores de diferentes universidades para apresentar um diagnóstico da crise que atravessa as universidades e propor soluções: a liberdade de debater, ensinar e pesquisar”, explica Pablo Ortellado, professor de gestão de políticas públicas da USP, que também assina o manifesto.
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Professores e alunos livres para o debate
O manifesto cita também que ter comunidades heterogêneas e livres de coerção, em que diferentes visões de mundo podem interagir e debater abertamente, é fundamental para o progresso científico. “Sem liberdade para o dissenso, o debate acadêmico entra em declínio e o horizonte científico e intelectual de toda a sociedade é empobrecido. Por isso, instituições universitárias devem ser espaços de convivência entre diferentes correntes teóricas e metodológicas”, ponderam os profissionais que assinaram o documento.
Sara Clem, pesquisadora do Instituto Sivis, organização que busca a promoção da liberdade de expressão e a cultura democrática por meio de educação, pesquisa e participação cidadã, reforça esse posicionamento acerca da liberdade do debate acadêmico, indicando inclusive que esse incômodo sentido pelos pesquisadores e professores, e que resultou no manifesto, também está entre os alunos.
Segundo a pesquisadora, muitos estudantes têm se tornado relutantes em discutir determinados temas nos bancos das universidades. “Uma pesquisa sobre liberdade de expressão, que o Sivis fez no ano passado, mostrou que quase 50% dos alunos resistem em discutir sobre assuntos controversos dentro de sala de aula, principalmente os temas que são ligados à política e às eleições”, explica. “A gente percebeu que essa autocensura está bem distribuída entre os alunos, embora com uma pequena preponderância por aqueles que são mais de centro”, pontua.
Para os autores do manifesto, quando a falta de pluralismo não é enfrentada internamente, a universidade fica exposta a intervenções externas que tendem a agravar o desequilíbrio em vez de corrigi-lo, e lembram casos ocorridos nos Estados Unidos, fazendo paralelo com recentes situações no Brasil.
“Nos Estados Unidos, essa omissão inspirou tentativas de restringir conteúdos curriculares, reconfigurar ou extinguir departamentos e interditar agendas de pesquisa. No Brasil, registram-se pressões na mesma direção: tentativas de proibir disciplinas e cursos, questionamentos legislativos sobre conteúdos ensinados, investigações por órgãos públicos e campanhas políticas e midiáticas voltadas a constranger docentes.”
Documento fortalece liberdade de expressão
Do ponto de vista da liberdade de expressão, Sara Clem avalia que o manifesto vem em um momento importantíssimo, para mostrar que existem pessoas e organizações, pesquisadores, professores e alunos que estão comprometidos com os princípios básicos de uma universidade, que é o pluralismo, a liberdade acadêmica e a neutralidade institucional.
“O manifesto nasce das dores dos próprios professores que sentem que muitas vezes não conseguem dar aulas ou sofrem um escrutínio público sobre uma literatura que escolhem, e o quanto isso pode atender ou não a uma agenda mais identitária. Eles percebem que o debate de ideias não é bem-vindo”, diz a pesquisadora do instituto Sivis.
Segundo Ortellado, nas primeiras 24 horas após o lançamento do manifesto, 350 professores e pesquisadores, de 94 instituições, de 24 estados brasileiros, já haviam assinado o documento.






