
A sessão desta terça-feira no STF, que durou o dia inteiro, me lembrou minha adolescência, os meus 15 anos, quando eu era diretor social da União Cachoeirense de Estudantes. Era um bate-boca danado. Depois, quando eu presidi o Centro Acadêmico do Jornalismo na PUC, em Porto Alegre, tínhamos mais senso de cortesia, de manter os ritos da boa educação. No Supremo, o ministro Gilmar Mendes demonstrou a toda hora que tinha pouco controle do seu temperamento. Gilmar atropelou principalmente André Mendonça, mas também atropelou o próprio presidente Edson Fachin. Gilmar é o mais antigo, é o decano, já presidiu o STF, é tido como um Richelieu do Supremo, um poder atrás da cadeira do presidente. Gilmar quis impor sua vontade, e Fachin foi resistente.
Cármen Lúcia fez um ótimo voto
A ministra Cármen Lúcia, no seu voto brilhante, disse que houve muita “espetacularização”. Mas vamos analisar: são R$ 131 milhões em um contrato com o escritório da esposa de Alexandre de Moraes, aportes de dezenas de milhões de reais no Tayayá do Toffoli, que depois perdoa R$ 10 bilhões em multas de quem aportou dinheiro lá... não é espetacularização, os fatos é que são muito graves. O povo brasileiro acompanha tudo isso boquiaberto e, com o que aconteceu no Supremo, com esse bate-boca todo, há um desgaste para o lado que está apoiando Moraes e querendo pegar Mendonça por ter ido atrás dos fatos.
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O voto da ministra pode inspirar até decisões posteriores. Ela se disse envergonhada com o que estava acontecendo, triste, pediu desculpas ao povo brasileiro e votou com Fachin, que é o relator, para que não votassem o pedido de investigação de Moraes junto com um pedido semelhante contra Mendonça. Ela chegou a sugerir – e Mendonça deve aproveitar a sugestão – que a palavra do procurador-geral da República não é definitiva e está sujeita a uma revisão por parte do Supremo. E Mendonça pediu exatamente isso sobre aquela manifestação de Paulo Gonet, em que o procurador-geral dizia que o relatório com as descobertas da Polícia Federal sobre as mensagens de Vorcaro a Moraes era nulo de pleno direito; os juristas dizem que é o contrário: o parecer de Gonet que é nulo, pois ele também está envolvido.
A hipocrisia dos ministros que apoiam Moraes
Depois do bate-boca, o ministro Flávio Dino pediu vista, contrariando a própria posição dele. Ele reclamou que, do jeito que as coisas estavam andando, tudo aquilo ainda levaria meses. E então ele pede vista, adiando a resolução do caso. Mas essa não foi a única contradição ou hipocrisia. Dino, Gilmar e Moraes ainda acusaram Mendonça de fazer tudo aquilo que eles mesmos fizeram ao longo do “inquérito do fim do mundo”. Claro, eles já conhecem o mecanismo, e resolveram acusar Mendonça de fazer o mesmo com motivos eleitorais.
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Aliás, nem precisa haver motivo eleitoral: basta ver quem se desgasta com esse julgamento, quem é ligado a Moraes. Quem está defendendo Moraes? A esquerda sempre o defendeu, porque Moraes prendia os bolsonaristas. Logo que Malu Gaspar publicou sobre o contrato do Master com a esposa de Moraes, em dezembro do ano passado, Lula poderia ter dito: “eu fiz um juramento de defender a Constituição, e a Constituição diz que ministro do Supremo tem de ter reputação ilibada. Portanto, tem de investigar”. Poderia ter feito isso, mas se calou. O presidente do Senado também. Todos os que juraram defender a Constituição se calaram.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Alexandre Garcia começou sua trajetória no jornalismo na década de 70. Trabalhou na Globo, onde passou pelos principais telejornais da emissora. Hoje atua como comentarista em 32 jornais e 210 rádios. É um dos nomes mais respeitados da imprensa brasileira, por sua expertise e opiniões contundentes, exercendo grande influência na mídia nacional. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



