
Muita gente interpreta – e eu já mencionei – que Donald Trump, após o resultado da eleição legislativa de terça-feira, está na mesma situação que Lula com o resultado do primeiro turno do mês passado. Mas não é igual, nem a legislação, nem a Constituição. Nos Estados Unidos, as relações entre o Congresso e Casa Branca são diferentes das relações entre o Congresso brasileiro e o Palácio do Planalto.
Os republicanos perderam a maioria que tinham na Câmara e no Senado; agora, a maioria é de democratas. Isso já ocorreu outras vezes: Bill Clinton, democrata, perdeu essa eleição de meio de mandato, ficou com minoria, e mesmo assim continuou mandando bombardear a Sérvia, o Congresso não foi capaz de impedir. George W. Bush, republicano, passou pela mesma coisa e continuou governando. Barack Obama também: tinha maioria na Câmara e no Senado quando foi eleito, mas no meio do seu mandato os republicanos assumiram a maioria.
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Trump não vai deixar de insistir nas questões relativas ao Brasil – por exemplo, na designação de terroristas para as facções criminosas brasileiras, ou na possível aplicação de uma Lei Magnitsky. A mudança no Congresso não vai alterar a autonomia e o poder do presidente dos Estados Unidos. Ele ainda é o chefe do Executivo e das Forças Armadas; o combate à ideologia woke também vai continuar. Onde as coisas podem mudar é em questões do orçamento interno dos Estados Unidos, e de projetos que ele queira propor ao Congresso. Grandes projetos de lei podem ficar parados.
Lula vai ter muito mais dificuldade que Trump. Mesmo tendo nas mãos a possibilidade de editar medidas provisórias – Trump tem algo parecido, a “ordem executiva” –, ele vai encontrar oposição forte, como nessa medida provisória sobre impostos criados pela reforma tributária. Já existe um abaixo-assinado de centenas de entidades empresariais, dizendo que não é possível que a definição de alíquotas possa ocorrer até 15 de dezembro para entrar em vigor em 1.º de janeiro de 2027. Teria de ficar para o ano seguinte, pois não há estrutura de contabilidade e planejamento econômico das empresas que aguente.
Contar e contabilizar não são a mesma coisa
Falando em contabilidade, o jornalismo precisa conhecer as palavras. Eu vi um jornal afirmando que a eleição americana “contabilizou” tantos votos, que os democratas “contabilizaram” tantos votos, e por aí vai. Eu sou contabilista, eu me formei em Contabilidade, eu sei o que é “contabilizar”; o jornalista que escreveu isso não sabe. Contabilizar é botar débito e crédito, partidas dobradas. A mesma importância no débito, no crédito, saiu do caixa, entrou na conta particular de alguém, ou na venda de mercadoria, entrou dinheiro no caixa. Isso tudo é contabilidade. O que o jornalista quer dizer é que contaram mais votos. É tão simples dizer “contar mais votos”. Talvez ele quisesse mostrar erudição usando uma palavra mais comprida. Acabou mostrando burrice.
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Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Alexandre Garcia começou sua trajetória no jornalismo na década de 70. Trabalhou na Globo, onde passou pelos principais telejornais da emissora. Hoje atua como comentarista em 32 jornais e 210 rádios. É um dos nomes mais respeitados da imprensa brasileira, por sua expertise e opiniões contundentes, exercendo grande influência na mídia nacional. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



