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Anne Dias

Anne Dias

A Campanha de 2026 flopou?

Onde está a bandeira do Brasil que ficava na sua sacada?

Você sabe em quem vai votar, mas cansou de defender seu voto. Está cansado, decepcionado e envergonhado. Há um pânico silencioso por trás dessa apatia. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt/Gazeta do Povo)

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O salão era vermelho. Estrelas do PT nas paredes, uma bandeira do Lula com a faixa presidencial e, no bolo, mais uma estrela. O aniversariante posava para as fotos vestindo a camiseta do seu ídolo. Era julho de 2022. Poucas imagens mostram tão bem aquela eleição quanto um homem de 50 anos transformando a festa numa declaração de amor político.

Aquela mesma noite mostraria o lado mais sombrio do país.

Depois do parabéns, um carro parou na porta tocando o jingle de Bolsonaro. O motorista gritou provocações, discutiu com o aniversariante e foi embora. Voltou armado. Os dois trocaram tiros. Um sobreviveu. O aniversariante morreu ali mesmo, no chão da própria comemoração.

Você se lembra do ar pesado daquela época. Da briga na mesa de domingo, das amizades desfeitas em segundos, do grupo da família no WhatsApp virando um campo de batalha diário.

Agora, pare e olhe ao seu redor neste 2026.

Note o silêncio estranho nas ruas. Quantos panfleteiros lhe entregaram um santinho nesta eleição? Cadê os carros cobertos de adesivos? Onde foram parar as bandeiras nas janelas?

Olhe para a sua própria rotina: você ainda tem paciência para ler textão político ou simplesmente silenciou a notificação do grupo?

O eleitor que vestia Bolsonaro dos pés à cabeça já não tem energia para defender Flávio. Do outro lado, defender Lula virou uma missão impossível.

O eleitor de 2026 parece acuado, tímido, quase invisível.

Para entender se essa impressão era só minha, e principalmente por que estamos assistindo a uma final de Copa do Mundo no mudo, fui buscar respostas com quem vive a eleição de dentro: os próprios candidatos. As conversas revelam duas causas para esse silêncio e o sintoma que ele causou nas ruas.

Você sabe em quem vai votar, mas cansou de ter que defender seu voto

Estar preocupado com o país é bem diferente de estar animado com um candidato. Repare no seu comportamento: você pode estar angustiado com a eleição, mas, quando abre a rede social, pensa duas vezes antes de curtir um post político.

Ouvindo quem disputa o Senado, esse contraste fica evidente. Deltan Dallagnol disse que vê as pessoas angustiadas com o resultado presidencial, até mais do que na eleição passada. O problema não é a falta de preocupação, mas a falta de engajamento.

Ele aponta o impacto direto das redes sociais, que deixaram de recomendar conteúdos políticos, tornando quase impossível furar a bolha.

Cristina Graeml sente o engajamento mais caloroso acontecendo apenas na reta final. Ela conta que só agora as pessoas começaram a pará-la na rua para abraçar e declarar apoio.

No fundo, você se importa com o futuro do Brasil, mas a combinação de algoritmos travados e o cansaço do ambiente fez você guardar seu voto para si até o último segundo.

Você ainda acha que seu voto vai fazer diferença?

Existe uma camada ainda mais dolorosa: a perda de fé nas instituições.

Em conversas com quem busca representar o Paraná, candidatos como Guilherme Kilter e Professora Aline relatam ouvir com frequência o desabafo de quem duvida se o voto terá qualquer validade. Aline ouviu diretamente de um eleitor: ele não tinha certeza se seu voto de fato seria contabilizado.

Essa desconfiança não para na urna. Você olha para a sequência de escândalos de corrupção, para a atuação do STF e para o papel das autoridades na disputa, e chega a uma conclusão devastadora: a de que o jogo é cartas marcadas, e são as piores marcas possíveis.

Quando você se convence de que a estrutura está corroída, perde a razão para sair de casa e fazer a sua parte.

O sintoma nas ruas: a seca de doações privadas e a morte do voluntariado

Você já deve ter participado de carreatas ou doado em alguma vaquinha em eleições passadas. Você pensou em fazer isso este ano?

Fábio Ostermann, em sua terceira disputa pelo Rio Grande do Sul, nota o fim da militância espontânea por medo de exposição ou exaustão. Amália Tortato sente esse esvaziamento nos semáforos do Paraná, onde a panfletagem desapareceu.

Em São Paulo, Mônica Rosenberg confirma que voluntários e apoiadores esfriaram, enquanto doadores quebraram ou deixaram o país. E, do Rio Grande do Sul, Sâmila Monteiro resume esse cenário: conseguir voto não é o maior problema; conseguir dinheiro e apoio engajado virou uma missão quase impossível.

A verdade é que o eleitor não desapareceu. Ele se recolheu

Você provavelmente vai votar. Talvez já tenha preenchido toda a sua colinha. Mas você não quer colar adesivo no carro, discutir no grupo da família ou passar a noite tentando entender o último escândalo do noticiário.

Você está cansado. Decepcionado. Em alguns momentos, envergonhado; em outros, iludido.

Há um pânico silencioso por trás dessa apatia. Depois de anos engolindo crises, fomos tomados pela sensação sufocante de que não controlamos nada.

Aí você desliga a TV. Silencia o grupo. Guarda a bandeira. Foca no seu trabalho, nos seus filhos, na próxima viagem, em qualquer pedaço da vida onde você ainda sinta que tem algum controle.

Em 2022, havia brasileiros dispostos a transformar até uma festa de aniversário em praça de guerra. Em 2026, você só quer que a política pare de invadir a sua festa.

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