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Anne Dias

Anne Dias

O trabalhador real

Prazer, sou o pobre de direita

Existe um pobre que cabe nos discursos. Eu sou mais inconveniente: quero proteger minha família, prosperar e não quero que sintam pena de mim. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt/Gazeta do Povo)

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Eu acordo quando a casa ainda está escura.

Tento não acordar meus filhos, tomo um café rápido e vou trabalhar. Tenho carteira assinada, salário contado e uma rotina que virou conceito político: trabalho seis dias e folgo um.

Não adoro trabalhar no sábado e não conheço ninguém que adore. Só sei que a pequena empresa onde trabalho funciona no limite e que, toda vez que Brasília promete resolver minha vida por decreto, eu olho para o meu chefe fazendo conta e penso em quem vai ser o próximo.

Felizmente, ainda não fui eu.

Ontem saí do trabalho e passei no mercado. Minha mulher tinha pedido carne para o jantar; fazia tempo que eu não levava.

Parei em frente à geladeira, olhei o preço, peguei a bandeja e devolvi. Fui para o frango. Pensei mais um pouco e continuei andando.

Ovo também alimenta, pensei.

Quando peguei a embalagem, logo percebi: até a dúzia tinha encolhido; agora eram dez.

Levei os ovos e voltei para casa pensando nos meus filhos.

O menor acabou de nascer. Às vezes, olho para ele dormindo e imagino uma escola particular, inglês, talvez um esporte, qualquer coisa que abra portas que eu nunca tive abertas.

Depois pego o celular, faço as contas e adio de novo.

Quem sabe no ano que vem.

Por isso faço Uber quando posso.

O carro, que deveria ser minha renda extra, ganhou sua própria coleção de boletos. Gasolina, manutenção, seguro, imposto. Eu trabalho para comprar o carro, trabalho para manter o carro e depois uso o carro para trabalhar mais.

Queria trocar por um modelo mais econômico. Vejo os carros novos chegando, mais tecnologia, concorrência e diversidade de preços. Abro anúncio e fecho anúncio.

Ainda não dá.

Mas dirigir tem uma vantagem: eu escuto o Brasil.

No banco de trás já ouvi de tudo: traição na família, chefe insuportável, filho adolescente, futebol, religião e, claro, política.

Outro dia entrou uma menina muito bem-arrumada. Bolsa cara, celular que custa alguns meses do meu salário. Em poucos minutos de conversa, perguntou em quem eu iria votar.

Disse que estava participando de uma campanha para “virar votos”.

Achei interessante.

Ela começou a me explicar que estaríamos diante do fim da democracia.

Depois vieram as ameaças à vida de pessoas LGBTs; o fim do voto feminino; a reparação histórica da escravidão; os diferentes tipos de famílias que precisam ser respeitadas e os grupos que têm medo do futuro do país.

Tudo muito importante, claro.

Eu ouvi.

Enquanto ela falava de família, pensei na minha.

Na escola que eu gostaria de pagar para meus filhos. Nas horas que passo longe deles. No sábado trabalhando. No domingo fazendo Uber. Na preocupação de conseguir dar para meus filhos mais do que os meus pais conseguiram me deixar.

Enquanto falava de medo, pensei no meu.

No celular escondido quando paro no sinal. No carro que não pode ser roubado porque dependo dele para complementar a renda. Na possibilidade de ficar desempregado e descobrir que as contas não se sensibilizam com discursos.

Enquanto ela falava de democracia, achei curioso aquele interesse repentino pelo meu voto.

Ninguém nunca tinha me perguntado o que eu achava do preço da comida, da qualidade do postinho que atende meus filhos no tão amado SUS ou do aluguel que, mais uma vez, eu não tinha conseguido pagar em dia.

Mas, de repente, minha opinião parecia importantíssima.

Desde que pudesse ser mudada.

Existe um pobre que cabe perfeitamente nos discursos. Ele precisa pensar de determinada maneira, votar de determinada maneira e enxergar a própria vida segundo as categorias que alguém criou para ele

Eu sou mais inconveniente.

Quero proteger minha família. Quero ganhar dinheiro. Quero ter patrimônio. Quero deixar um futuro para meus filhos. Quero segurança. Quero poder discordar. Quero trabalhar.

Não quero que sintam pena de mim.

Quero prosperar.

A menina terminou a explicação e perguntou se tinha conseguido me convencer.

Sorri pelo retrovisor.

Pelo menos agora ela tinha conhecido um de nós.

Prazer, o pobre de direita.

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