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Antonio Cabrera

Antonio Cabrera

Economia

Herança do PT: a conta de quase um quarto de século     

Vinte e quatro anos depois, os números das contas públicas mostram um país mais frágil do que aquele que o PT herdou. (Foto: Imagem produzida por ChatGPT/Gazeta do Povo)

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Em outubro de 2002, o Partido dos Trabalhadores venceu a eleição e recebeu as chaves do Brasil. Vinte e quatro anos depois, os números das contas públicas mostram um país mais frágil do que aquele que o PT herdou.

Em política econômica, 24 anos bastam para que os resultados deixem de ser promessa e passem a ser história. Nesse intervalo houve de tudo: crise financeira global, pandemia, ciclos de commodities, revolução tecnológica. Ninguém precisa atribuir cada número a um único partido. Também ninguém tem o direito de esconder um fato político. Desde janeiro de 2003, o PT ocupou a Presidência por quase três quartos do tempo: Lula por oito anos, Dilma por pouco mais de cinco e meio e Lula outra vez desde 2023. Quem governou por mais tempo assina o balanço. E esse balanço é ruim.

Comecemos pela dívida. Em 2002, a dívida bruta do governo geral, pela metodologia do FMI, equivalia a cerca de 76% do PIB. Para 2026, o Fundo projeta 97,8%. E o governo nem sequer tenta mudar a direção: o próprio FMI projeta 100% em 2027 e mais de 105% em 2031. O Fundo reconhece a resiliência da economia brasileira e, ainda assim, cobra um esforço fiscal mais ambicioso, numa linguagem diplomática que significa, em português claro, que o país está gastando além da conta. O mais grave é o contexto. Essa dívida cresceu numa geração que teve boom de commodities, pré-sal e o agro batendo recorde atrás de recorde. O PT teve o vento a favor como nenhum outro governo e, mesmo assim, deixou a dívida subir.

Os juros contam a mesma história. Em 2002, o setor público pagou R$ 114 bilhões. Nos doze meses encerrados em julho deste ano, pagou R$ 1,15 trilhão. Um quarto de século depois, continuamos entregando aos credores quase um décimo de tudo o que o país produz. Cada real que vai para os juros deixa de virar estrada, escola, hospital ou crédito para quem trabalha. É o preço que o brasileiro paga pela desconfiança que o governo provoca toda vez que anuncia mais um gasto sem dizer de onde virá o dinheiro.

A mudança mais grave está no resultado primário, que mostra se o governo cobre suas despesas antes de pagar juros. Em 2002 houve superávit de R$ 52,4 bilhões, ou 3,91% do PIB. Sobrava dinheiro para abater a dívida. Hoje há déficit de R$ 89,3 bilhões. O Estado gasta mais do que arrecada antes de pagar um centavo de juros. Mudamos de sinal. Um país que economizava passou a viver no vermelho, e quem conduziu essa virada foi quem estava no Palácio do Planalto.

Somadas as duas contas, chega-se ao déficit nominal: R$ 61,6 bilhões em 2002 e R$ 1,24 trilhão agora. Em proporção do PIB, o rombo dobrou, de 4,6% para 9,34%. Poucos emergentes sustentam um buraco desse tamanho por muito tempo sem pagar a fatura em inflação, câmbio ou estagnação.

Pagamos com estagnação. Em 2002, o Brasil respondia por 3,11% do PIB mundial, medido em paridade de poder de compra. Em 2026, segundo o FMI, responderá por 2,35%. Perdemos um quarto do nosso peso na economia global. A ascensão da China e da Índia explica parte da queda. O resto tem endereço conhecido em Brasília. Enquanto o governo discutia como distribuir uma riqueza que o país ainda não tinha produzido, a Ásia cresceu, outros emergentes ganharam produtividade e o mapa do comércio foi redesenhado sem o Brasil no centro.

A ruptura começou com a nova matriz econômica e a contabilidade criativa, que desembocaram na recessão de 2015 e 2016. O teto de gastos veio depois para conter o estrago. O governo atual o derrubou e o trocou por um arcabouço que deixa a despesa crescer acima do possível. Sem coragem para cortar, passou a caçar receita onde já não há de onde tirar. O resultado é um Estado que arrecada cada vez mais e entrega cada vez menos.

Houve avanços desde 2002, e convém reconhecê-los: ganhos sociais, aumento de renda em vários períodos, reservas internacionais robustas, instituições mais sólidas. Justamente por isso o fracasso fiscal é imperdoável. Os avanços mostram que havia condições para fazer melhor. Faltou decisão de fazer.

O agronegócio mostra o que acontece quando tecnologia, investimento e acesso a mercados encontram espaço para funcionar. Foi o campo que segurou a balança comercial, o emprego no interior e boa parte do PIB nas piores crises desse período, muitas vezes apesar do governo, e não graças a ele. O produtor sabe exatamente para onde vai a renda que gera. Ele planta com crédito caro, colhe sem estrada e exporta pagando imposto sobre imposto, para sustentar um Estado que não cabe no próprio orçamento.

O debate brasileiro costuma começar pela pergunta errada: quem vai pagar o novo programa, o subsídio, a desoneração? A pergunta certa vem antes. Quem vai produzir a riqueza? Nenhum país distribui indefinidamente o que não produz, e nenhum governo se endivida para sempre sem consequência. O PT passou 24 anos fazendo a primeira pergunta e ignorando a segunda.

Dívida de hoje é imposto de amanhã. Déficit recorrente é conta enviada a quem ainda nem começou a trabalhar. Nesses 24 anos, a escolha predominante foi gastar agora e empurrar o pagamento para depois.

O depois chegou. E cobra R$ 1,15 trilhão por ano.

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