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A cantora Luisa Sonza.
A cantora Luisa Sonza.| Foto: Reprodução/ Facebook

Vocês sabem que saiu a tal cartinha pela democracia da beautiful people. Por “democracia”, entenda-se “fé na infalibilidade das urnas usadas somente no Brasil, Bangladesh e Butão”. Na prática, essa defesa da democracia não é outra coisa que não a defesa da inauditabilidade das urnas em caso de vitória de Lula. Houve uma leitura pública no Largo de São Francisco, da USP. A data e o local foram escolhidos de modo a evocar alguma coisa lá da década de 70, do período militar. O leitor talvez não tenha formulado nesses termos, mas sabe que toda a legitimidade da beautiful people se funda na oposição ao regime militar. Se funda e se afunda: porque o atual presidente, um campeão de popularidade e um fenômeno de massas, é justamente o único parlamentar leal à repressão, um opositor da revisão da Lei da Anistia, um defensor de Ustra. Se a beautiful people tivesse mais do que dois ou três neurônios, deveria largar o osso. O problema é que, se fizer isso, não vai ter como se autodefinir. É como se soubessem que não são nada além de uma elite carcomida que precisa revirar o baú da história para procurar algo de nobre.

À direita, viralizou um tuíte de Barbara Gancia lamentando o exíguo comparecimento ao evento. O tuíte trazia uma foto. Mais que a queixa da autora, o que me chamou a atenção foi o texto do cartaz em evidência: Rettet die Demokratie in Brasilien. “Não-sei-o-quê a democracia no Brasil”, em alemão. Eu achei que rettet fosse um presente indicativo da terceira pessoa do singular; no Wiktionary diz que pode ser isso, mas também imperativo plural. Botando no Google tradutor, dá “Salve a democracia no Brasil” ou, em espanhol, “Salvemos la democracia en Brasil”. O alemão deve passar pelo inglês, onde imperativo não varia entre singular e plural. Enfim: o meu alemão não dá pra tanto. O cartaz não foi escrito para mim, nem para a esmagadora maioria dos brasileiros. Quem esse povo acha que vai lê-los? Sair com cartaz em alemão para fazer reivindicações políticas no Brasil parece tão sensato quanto aquele povo que sai dizendo que é Jesus, ou que o Fim está próximo. Intervenção psiquiátrica já!

Os artistas são menos doidos

Um dia antes da leitura pública da carta no Largo de São Francisco, foi divulgada uma gravação em que os artistas liam a mesma carta. Gente de letras, que de modo geral é concursada (ou era, antes de o Reuni esculhambar a vida acadêmica no Brasil), pode ficar babando dentro de sua cela acolchoada crente que é Napoleão, porque o salário cai na conta e a reputação intelectual, em tese, não depende de coisas tão voláteis quanto o gosto. Uma vez medalhão, mantém-se medalhão inercialmente.

Já no mundo das artes, a vida é mais difícil. Artista tem que agradar a plateia, ou ao menos parecer agradar a plateia. Por isso acabam tendo mais contato com a realidade. Não que seja muito, mas já é alguma coisa.

Vejam que, no dia imediatamente anterior à suposta apoteose do Largo do São Francisco, os artistas soltaram um vídeo lendo a mesma. Para facilitar nossa vida, vou deixar os atores de fora e citar só os músicos com o respectivo ano de nascimento: Marisa Monte (1967), Anitta (1993), Luísa Sonza (1998), Juliette do BBB (1989), Linn da Quebrada (1990), Duda Beat (1987), Seu Jorge (1970), Milton Nascimento (1942), Djavan (1949), Rogério Flausino (1972), Paula Lima (1970), Daniela Mercury (1965), Caetano Veloso (1942), Maria Gadu (1986), Nando Reis (1963), BK’ (1989), Gal Costa (1945), Chico Buarque (1944) e Maria Bethânia (1946).

Tem uns nomes que a gente olha e diz “quem?”. Em geral, esses são nos nomes do time sub-40. Acho que única pessoa famosa mesmo por sua carreira artística nascida na década de 80 aí é Maria Gadu, que foi lançada novinha por Caetano. Quem fez sucesso até a década de 2000 é notório; quem fez depois, é ou conhecido apenas por um nicho, ou é conhecido por ser celebridade.

Vejam Luísa Sonza: eu, particularmente, só tomei conhecimento da existência dela por causa de Whindersson Nunes, o humorista piauiense que ficou famoso por ter o maior canal de humor brasileiro. Isso saiu em jornal e eu fui conferir. Era bom mesmo. Daí ele começou a namorar com essa Luísa Sonza, teve um monte de problema e o casal não saía do noticiário.

De todo modo, percebe-se que os artistas ao menos tentaram se conectar com a juventude. O diabo é que a música brasileira mais intelectualizada morreu. A turma de Chico e Caetano projetou uma sombra da qual só saíram intérpretes novos (Marisa Monte é uma excelente intérprete). Depois disso, nem intérprete mais houve. Para florescer, só saindo do rótulo MPB, fazendo rock (como Flausino) ou axé (como Daniela Mercury).

Qual é o repertório de Anitta, Sonza etc?

Esse espírito de decadência só ronda a classe média intelectualizada. O brasileiro sempre gostou de músicas de amor; e desde Caldas Barbosa (1740 – 1800) até Marília Mendonça (1995 – 2021), nunca ficou desabastecido. Música de amor é uma constante que acompanha nossos ancestrais lusófonos desde a Idade Média, com as cantigas de amor trovadorescas (que, diz Christpher Dawson em A criação do Ocidente, são legado do mundo cortesão árabe, que deu uma amaciada na cultura rústica dos guerreiros de origem bárbara recém cristianizados).

Os entendidos em música saberão apontar a pobreza melódica e apontar a decadência. Mas, do ponto de vista da temática, creio poder dizer que os brasileiros de chinelo estejam bem abastecidos: tem música de paixão & rejeição para todo mundo.

Bom, tendo visto esses artistas, lá fui eu ao YouTube averiguar o cancioneiro de Luísa Sonza, Anitta e BK’. As fêmeas ficam ostentando bunda & riqueza; o macho, poder & riqueza. No caso de Luísa Sonza em particular, o vídeo em destaque se chama As Cachorrinhas. Ela se diz cachorra de marca e apresenta as amigas como cachorras de marca: “Temos pedigree, coleira cara. Meu perfume caro atiça o faro dos vira-lata [sic]. Eu e minhas cachorra, au-au, dá as patinha [sic], deita e rola”. Haja empoderamento. Noutra música, Anaconda, manda o bonitão não se apaixonar, porque ela quer só se distrair uma noite: “Eu pago a conta e a gente se manda, você mostra me a anaconda à la Nicky Minaj. Quando for a hora, só não se emociona, que é mais um pra conta, é só sacanage [sic]”. Anitta também está no reino animal e exalta o rebolado das gatas em Gata.

Quanto a BK’, a temática é indiscernível das músicas de traficante que tocam no cabaré lá junto de casa, ou do MC Poze, ligado ao Comando Vermelho. O eu lírico anda cheio da grana, alude a armas e pega um monte de mulher. O vídeo em destaque é Deu Aulas, no qual o cantor fica se gabando do lucro, do carro, do poder etc. A letra diz: “Mercedes na garagem/ Casas pela cidade/ Trinta bala [sic] no pente/ Um milhão de mano [sic] na linha de frente/ […] Um coração, várias menina [sic]”. Que bom que ele é favorável à democracia!

Antes de concluir que as músicas de amor acabaram, notei no canal a presença da música "Amor". Ouvi e é só o eu lírico dizendo que a namorada é uma interesseira, já que ele é rico, famoso, poderoso, respeitado, a última Coca-Cola do deserto.

Propaganda pró psicopatia e drogas

De todos esses jovens, só Duda Beat ousa fazer canções românticas. Pelo que entendi, ela é meio cult. Assim como o Baiana System, é pagodão baiano para hipster, Duda Beat é sofrência e piseiro pra hipster. O canal dela tem menos da metade do de BK’, e pode-se dizer que tem público seleto, não é pop.

Então ficamos assim: a elite musical sub-40 faz propaganda de um estilo de vida onde não há amor, e todo o mundo é narcisista. Mulheres narcisistas esfregam a bunda na cara dos homens para mostrar que são gostosas; homens narcisistas ostentam poder e dinheiro para mostrar que são o máximo. Toda essa riqueza deve vir de pornografia, prostituição e drogas, já que, se os homens mencionam pentes de fuzil, tudo o que as mulheres mencionam é o próprio corpo.

É uma vida profundamente solitária, que só deve ser viável para psicopatas. O resto, só com droga para aguentar.

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