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Católicos e protestantes podem divergir legitimamente sobre economia, impostos, tamanho do Estado, políticas sociais, segurança pública e muitas outras questões políticas.
Isso, porém, não significa que todas as escolhas políticas sejam moralmente equivalentes. A fé cristã estabelece convicções que alcançam necessariamente a vida pública: a dignidade da vida humana, a família, a ética sexual, a responsabilidade dos pais na educação dos filhos, a liberdade religiosa e de consciência, a proteção dos vulneráveis e os limites do poder político.
É à luz dessas convicções que o Partido dos Trabalhadores deve ser examinado. A pergunta que deve orientar os cristãos é simples: o projeto político do PT é compatível com os fundamentos da ética cristã histórica?
A vida humana não é uma questão secundária
Para católicos e protestantes, proteger a vida humana inocente não é uma “pauta de costumes”. É consequência direta da doutrina da criação: todo ser humano porta a imagem de Deus. Por isso, a defesa do mais vulnerável, inclusive no ventre materno, pertence ao coração da ética cristã.
É justamente aqui que surge um conflito concreto com posições promovidas pelo PT. O atual programa Lula-Alckmin reafirma a defesa dos “direitos sexuais e reprodutivos”, enquanto o próprio partido divulgou, em 2025, propostas aprovadas na Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, entre elas “legalizar e implementar o aborto universal e humanizado em todos os serviços do SUS”. O Ministério da Saúde, por sua vez, afirma atualmente que o aborto deve ser tratado como condição de saúde pública “sem julgamentos”, embora reconheça as três hipóteses previstas na legislação brasileira.
A divergência entre petismo e cristianismo não diz respeito apenas a políticas públicas específicas, mas à própria compreensão do ser humano
Para a ética cristã, porém, a pretensão de transformar o aborto em um “direito de escolha” da mulher não pode se sobrepor ao direito à vida daquele que ainda não pode falar nem se defender. A pergunta que permanece é simples e decisiva: quem protege o nascituro? Nesse ponto, o conflito não é periférico. É moral, antropológico e profundamente cristão.
Família e sexualidade: duas antropologias em conflito
A divergência não diz respeito apenas a políticas públicas específicas, mas à própria compreensão do ser humano.
Católicos e protestantes possuem diferenças importantes, mas convergem nos fundamentos da antropologia cristã: Deus criou o ser humano homem e mulher; o corpo e o sexo possuem significado dado pelo Criador; o casamento é a união entre homem e mulher; e a família é uma realidade anterior ao Estado. A sexualidade, portanto, não é definida pelos desejos ou pelas escolhas do indivíduo.
O PT parte de pressupostos distintos. Seus documentos e políticas incorporam conceitos de identidade de gênero, diversidade sexual e autodeterminação, promovidos como expressão de direitos e combate à discriminação.
Cristãos devem defender a dignidade de toda pessoa e condenar violência, humilhação e injustiça contra homossexuais ou qualquer outro grupo. Isso, porém, não exige aceitar uma concepção do ser humano incompatível com a doutrina cristã da criação.
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Estamos, portanto, diante de duas antropologias distintas. A questão é qual compreensão de pessoa, corpo, sexo, casamento e família será transformada em política de Estado.
Quem tem o direito de educar nossos filhos?
Na educação, as consequências dessas duas concepções tornam-se particularmente claras. Para a tradição cristã, católica e protestante, os pais são os primeiros responsáveis pela educação e formação moral dos filhos. O Estado tem responsabilidades importantes, mas não é proprietário das crianças nem pode substituir a consciência e a autoridade da família.
O problema surge quando a escola deixa de se limitar à transmissão do conhecimento e passa a ser utilizada para formar crianças segundo concepções ideológicas sobre sexo, gênero, sexualidade e família. Políticas defendidas pelo PT incorporam essas categorias à educação e às ações governamentais, transformando questões profundamente controversas em conteúdo a ser promovido pelo poder público.
Ensinar uma criança a respeitar todas as pessoas é dever elementar de civilidade. Outra coisa é ensinar como verdade uma determinada concepção de identidade, corpo e sexualidade e tratar as convicções cristãs como preconceito a ser superado.
Para famílias católicas e protestantes, portanto, a questão é fundamental: a quem pertence a responsabilidade primária pela formação moral dos filhos – aos pais ou ao Estado?
Continuará existindo liberdade para os cristãos permanecerem fiéis às suas convicções quando estas contrariarem a moral promovida pelo Estado?
Liberdade religiosa é mais do que liberdade de culto
Liberdade religiosa não significa apenas manter igrejas abertas e permitir cultos aos domingos. Significa também assegurar aos cristãos o direito de professar, ensinar e defender publicamente aquilo em que creem.
O conflito surge quando convicções cristãs sobre casamento, sexualidade e identidade humana são confrontadas com concepções cada vez mais amplas de discriminação. O Estado deve proteger homossexuais contra violência, perseguição e injustiça. Mas deve igualmente proteger o padre, pastor, professor ou cidadão cristão que afirma publicamente que o casamento é a união entre homem e mulher e que a sexualidade possui limites morais estabelecidos por Deus.
O problema começa quando discordância moral passa a ser tratada como discriminação e, consequentemente, como conduta a ser reprimida pelo Estado.
Por isso, propostas legislativas e políticas defendidas pelo PT nessa área exigem atenção especial dos cristãos. A questão não é simplesmente se o governo fechará igrejas. É muito mais profunda: continuará existindo liberdade para os cristãos permanecerem fiéis às suas convicções quando estas contrariarem a moral promovida pelo Estado?
Corrupção, poder e instituições
A corrupção é uma questão moral fundamental para a tradição cristã. A Escritura condena o suborno, a perversão da justiça e o abuso de autoridade, exigindo integridade daqueles que exercem o poder.
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O histórico dos governos petistas inclui graves escândalos de corrupção. No mensalão, o próprio STF condenou dirigentes do PT, entre eles José Dirceu e José Genoino. A Lava Jato, por sua vez, revelou esquemas de corrupção envolvendo a Petrobras, grandes empreiteiras, operadores e políticos de diversos partidos. Mais recentemente, as investigações sobre as fraudes no INSS produziram novos desdobramentos, incluindo um inquérito da PF sobre suspeitas envolvendo Lulinha, filho do presidente Lula.
Também preocupa a proximidade entre poder político e Judiciário. Toffoli foi advogado do PT; Zanin, advogado pessoal de Lula; Dino, seu ministro da Justiça. Somados às controvérsias provocadas por decisões recentes desses ministros em questões políticas, esses vínculos alimentam questionamentos sobre independência e imparcialidade do STF.
A exigência bíblica permanece: governantes devem prestar contas, juízes devem agir com imparcialidade e nenhuma autoridade está acima da lei. Corrupção, abuso de poder e instrumentalização das instituições são incompatíveis com a justiça que os cristãos devem exigir de qualquer governo.
O problema dos regimes totalitários
Há ainda uma contradição que deveria preocupar especialmente os cristãos: a proximidade do PT com regimes totalitários ideologicamente próximos.
Em janeiro de 2026, a Executiva Nacional do partido manifestou “total apoio” a Cuba e reafirmou sua defesa da “Revolução Cubana e seus ideais de justiça social”. Na Venezuela, mesmo após anos de repressão e autoritarismo de Nicolás Maduro, o PT condenou a captura do ditador pelos Estados Unidos e manifestou solidariedade ao regime.
Corrupção, abuso de poder e instrumentalização das instituições são incompatíveis com a justiça que os cristãos devem exigir de qualquer governo
Não há justificativa moral para silenciar diante de ditaduras que perseguem opositores, censuram a imprensa, manipulam eleições, controlam instituições, reprimem dissidentes e restringem a liberdade religiosa e de consciência.
Afinidades ideológicas ou interesses geopolíticos tampouco justificam a proximidade com China, Rússia e Irã ou com o grupo terrorista Hamas. A contradição é particularmente evidente quando um partido que se apresenta no Brasil como defensor dos direitos dos homossexuais mantém relações políticas com governos que reprimem essas mesmas pessoas.
Para o cristão, o princípio deve ser claro: nenhuma ditadura se torna moralmente aceitável por invocar socialismo, anti-imperialismo ou justiça social. A tirania continua sendo tirania, qualquer que seja sua bandeira.
O voto também é uma questão de consciência
O cristão não entra na cabine eleitoral deixando sua fé do lado de fora. O voto é também um ato de consciência e, portanto, deve estar submetido às convicções que professamos diante de Deus. Afinal, votar tem consequências concretas: elegemos pessoas que tomarão decisões sobre vida, família, educação, liberdade religiosa, justiça, segurança e os limites do poder estatal.
As divergências entre princípios históricos do cristianismo e posições assumidas pelo PT alcançam questões fundamentais
Também não devemos idealizar candidatos como se estivéssemos escolhendo clérigos ou modelos de perfeição moral. Não elegemos pastores, mas presidentes, senadores e deputados para exercer funções civis. Como Victor Davis Hanson tem observado, apoiar um político não significa canonizar sua vida pessoal. É preciso considerar seu caráter, mas também o que fará no cargo: as políticas que promoverá, as pessoas que nomeará e as instituições que fortalecerá ou enfraquecerá. Exigir perfeição moral dos candidatos é ingenuidade; ignorar seus princípios, suas propostas e as consequências de sua eleição também é.
À luz do que examinamos, as divergências entre princípios históricos do cristianismo e posições assumidas pelo PT alcançam questões fundamentais: vida nascente, sexualidade, família, autoridade dos pais, liberdade de consciência, corrupção, independência das instituições e relações com regimes totalitários. Políticas sociais consideradas positivas não eliminam essas divergências.
João Calvino advertiu aqueles que receberam a liberdade de escolher seus governantes: “E vós, ó povos, a quem Deus deu a liberdade de escolher seus próprios magistrados, cuidem-se de não se privarem deste favor, elegendo para a posição de mais alta honra, patifes e inimigos de Deus”.
A questão decisiva, portanto, não é qual partido ou candidato é perfeito. Nenhum é. É outra, mais séria: à luz daquilo que creio diante de Deus, a quem posso entregar meu voto sem contradizer os princípios da fé que professo?
O voto é secreto, mas a responsabilidade moral de quem vota não.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Franklin Ferreira é bacharel em Teologia, pós-graduado em Bíblia e Teologia, mestre em Teologia e doutor em Divindade. É reitor e professor de Teologia Sistemática e História da Igreja no Seminário Martin Bucer, professor-adjunto no Puritan Reformed Theological Seminary, em Grand Rapids-MI (Estados Unidos), e consultor acadêmico. Autor de vários livros sobre teologia e história do cristianismo. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



