
Ouça este conteúdo
Nossa Senhora Aparecida nunca teve tanto trabalho. Até a santa acabou capturada no contexto do debate eleitoral brasileiro, com desdobramentos que a tornaram centro de mais uma fase da guerra de liminares que ocorre entre grupos de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
Em poucos dias, três decisões conflitantes foram tomadas por três integrantes da Corte em duas instâncias distintas (TSE e STF). Uma anulando a outra, e as três, como conjunto, ressaltando o clima de insegurança jurídica parido pela instância que tem como atribuição resguardar a Constituição.
A poucos dias do 1º turno, o país está paralisado em meio a um tiroteio de boatos, num looping de expectativa em relação a qual será a próxima decisão de um ministro do STF sobre o processo político ou sobre a atuação de outro ministro
Flávio Bolsonaro foi alvo de uma sórdida informação falsa. Ainda que, no passado, o então deputado Victório Galli, que hoje é seu aliado, tenha proposto mudar a lei que estabelece a padroeira do Brasil, isso nada tem a ver com sua própria atuação como senador. Não há projeto dessa natureza em discussão. Nem dele, nem de ninguém. E isso deveria ser reconhecido por todos aqueles que se dizem interessados em combater a desinformação, independentemente da posição política.
Lula, aliás, foi incapaz de fazê-lo. Durante uma entrevista para o programa Canal Livre, da Band TV, o presidente foi instado a comentar o episódio. Limitou-se a dizer que “o dado concreto é que isso está na rede social”. E daí? E se tal critério fosse aplicado ao próprio mandatário? Há muitas coisas nas redes sociais sobre ele. Por estarem presentes, bastam para serem tomadas como verdadeiras? O critério é: se é sobre o adversário, então há presunção de responsabilidade, mesmo que claramente falsa? Só é falso se tiver como alvo um petista?
VEJA TAMBÉM:
Por falar em informação falsa, nem bem foi alvo de uma, Flávio se saiu com outra. Acusou integrantes da CNBB de se articularem com o PT para espalhar algo que seria prejudicial à sua candidatura. Falou isso numa coletiva de imprensa sem apresentar uma miserável evidência. Recorreu, aliás, ao mesmo expediente do qual tinha sido vítima. A entidade respondeu por meio de nota afirmando que uma “mentira não se combate com outra mentira”.
A poucos dias do 1º turno, o país está paralisado em meio a um tiroteio de boatos, num looping de expectativa em relação a qual será a próxima decisão de um ministro do STF sobre o processo político ou sobre a atuação de outro ministro do STF. Em vez de falarmos sobre dívida pública, falamos sobre decisões liminares que se canibalizam.
Em vez da posição estratégica do país num contexto internacional turbulento, aguardamos o som do giroflex dos camburões da PF cumprindo mandados de busca e apreensão. É a eleição mais estéril desde a redemocratização. Como se evidencia, ser a padroeira do Brasil não é nada fácil.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

Guilherme Macalossi é jornalista, apresentador, redator e radialista. Formado em Direito, é apresentador do programa "Bandeirantes Acontece" e comentarista do "Jornal Gente", na Rádio Bandeirantes. É colunista do jornal "Band Cidade", na TV Bandeirantes. Atua também como fellow do Instituto Monitor da Democracia. Na Gazeta do Povo já foi produtor do programa Imprensa Livre e de mini-documentários especiais. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



