Publicidade
Leonardo Coutinho

Leonardo Coutinho

Brasil, América Latina, mundo (não necessariamente nesta ordem)

Eleições

É preciso saber perder e ganhar

Eleição não pode ser aceita apenas quando convém. Quando vencedores e derrotados rejeitam as regras do jogo, a democracia perde legitimidade. (Foto: José Cruz/Agência Brasil)

Ouça este conteúdo

Há uma regra elementar da democracia que o Brasil parece ter desaprendido: eleição acaba. Alguém ganha, alguém perde, o vencedor governa dentro das regras e o derrotado faz oposição até a próxima disputa. Parece banal. Não é. Pelo menos no Brasil.

Para os brasileiros, a derrota quase sempre vem acompanhada de uma explicação que transforma o resultado em algo provisório, suspeito ou ilegítimo. Quando o adversário vence, a tendência não é apenas derrotá-lo quatro anos depois. É encontrar um motivo para que ele não devesse estar lá.

A esquerda brasileira cultivou durante décadas a cultura do “Fora”. Fora Collor. Fora Itamar. Fora FHC. Fora Temer. Fora Bolsonaro. O PT e seus aliados nunca souberam perder eleição. Fingem aceitar, mas sempre trabalharam para abreviar mandatos. O adversário não era apenas alguém que governava mal e precisava ser derrotado na eleição seguinte. Sua permanência no poder tornava-se, ela própria, o problema.

Em 2014, depois da derrota apertada de Aécio Neves para Dilma Rousseff, o PSDB inaugurou o discurso de fraude. O partido pediu ao Tribunal Superior Eleitoral uma auditoria dos sistemas de votação, apuração e totalização. Foi um ponto de inflexão. A auditoria aconteceu. O próprio relatório tucano não encontrou evidência de adulteração dos programas, dos votos ou de violação do sigilo do voto.

Em 2018, Jair Bolsonaro foi além. Depois do primeiro turno, que venceu com enorme vantagem, mas sem maioria absoluta que lhe daria a vitória em um round apenas, atribuiu a necessidade de uma segunda rodada a supostos problemas nas urnas. Conseguiu a proeza de questionar uma eleição que estava ganhando.

A partir daí, a desconfiança deixou de ser um episódio e virou parte do discurso político. O sistema eleitoral tornou-se suspeito antes, durante e depois da eleição. Em 2022, após a derrota de Bolsonaro para Lula, o PL pediu uma “verificação extraordinária” de parte das urnas utilizadas no segundo turno. O TSE rejeitou o pedido por falta de indícios que justificassem a medida e aplicou multa por litigância de má-fé. O terreno, porém, já estava preparado. Para uma parcela dos brasileiros, urna confiável passou a ser a urna que produz o resultado desejado.

Agora, às vésperas da eleição de 2026, a roda completa mais uma volta.

Os petistas começaram a construir sua própria moldura preventiva. O PT fala publicamente em interferência estrangeira, sobretudo americana, na eleição brasileira

Em agosto, o próprio partido publicou um texto intitulado “Os claros sinais da interferência dos Estados Unidos nas eleições do Brasil”. Mais recentemente, argumentos sobre risco de interferência externa chegaram também ao Supremo no contexto da disputa eleitoral.

Da mesma forma que os bolsonaristas dirão que foram roubados nas urnas, caso Lula vença, os petistas já têm prontinho o discurso, em um cenário de vitória de Flávio Bolsonaro. Uma violação à soberania nacional por parte do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Esse é o veneno (ou pelo menos um dos) que está matando a democracia. Quando cada lado aceita o sistema apenas enquanto vence, a eleição deixa de produzir legitimidade. Produz apenas um placar. O vencedor comemora; o perdedor procura um motivo para derrubar o vencedor.

Essa distorção faz com que milhões de brasileiros passem a perder a confiança nas regras do jogo. Não é coincidência que praticamente toda grande crise política brasileira termine diante do Supremo ou do TSE. A política terceiriza para os tribunais suas derrotas, suas omissões e seus impasses. Pede que juízes resolvam aquilo que ela própria deixou de ser capaz de resolver. Depois se espanta quando os tribunais avançam sobre terrenos tradicionalmente ocupados pelos poderes eleitos.

Os políticos judicializam a política. As cortes passam a arbitrar questões cada vez mais políticas. A sociedade começa a enxergar juízes como atores políticos. E, quanto mais políticos parecem os tribunais, mais fácil fica para o próximo derrotado explicar sua derrota atribuindo-a também ao árbitro. O país acaba preso numa democracia em que todos desconfiam do juiz e ninguém admite ter perdido o jogo.

Saber perder não significa renunciar ao direito de fiscalizar, recorrer ou denunciar irregularidades. Significa exigir provas antes de transformar suspeita em certeza. Saber ganhar também não significa receber um cheque em branco para governar como se metade do país tivesse desaparecido.

Quem ganha precisa reconhecer que o derrotado continua sendo parte legítima do país. Quem perde precisa reconhecer que o vencedor continua sendo o vencedor, mesmo quando sua vitória é desagradável, apertada ou politicamente intolerável. É uma regra simples. Mas, no Brasil, talvez seja justamente a mais difícil de cumprir.

Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.