Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Luciano Trigo

Luciano Trigo

Democracia relativa

Por que a dosimetria não pacificará o país: 10 motivos

O PL da Dosimetria não pacifica: é remendo legislativo e apenas inaugura mais um campo de batalha na guerra de narrativas que domina o país. (Foto: Succo/Pixabay)

Ouça este conteúdo

Estão tentando vender a dosimetria como um símbolo de racionalidade jurídica: a aplicação meticulosa de cálculos punitivos seria o instrumento “técnico” capaz de garantir que as penas atribuídas a réus não resultassem de caprichos arbitrários, politicamente enviesados ou claramente vingativos, mas de critérios objetivos, previsíveis e proporcionais.

Apesar de sua relevância no direito penal, imaginar que a dosimetria pacificará um país marcado pela polarização é uma ilusão. Proposto como alternativa à anistia ampla defendida por bolsonaristas, o PL da Dosimetria, se levado adiante, corre o risco de aprofundar ainda mais a divisão do país, ao ignorar questões estruturais que alimentam a crise.

Apresento a seguir 10 motivos pelos quais a dosimetria NÃO pacificará a sociedade brasileira:

1. A neutralidade da dosimetria é uma ilusão

A dosimetria é apresentada como uma operação matemática imparcial. Mas a ideia de neutralidade é ilusória: a própria definição de atenuantes e agravantes depende de interpretações subjetivas.

Ao aplicar critérios “técnicos” a uma decisão, o juiz continua fazendo escolhas políticas e até morais. Se a dosimetria é permeada por valores subjetivos, não é capaz de eliminar conflitos; servirá apenas para dar um verniz de racionalidade a decisões contestáveis.

2. A polarização política continuará intacta

Mesmo com a redução das penas, metade da população continuará vendo as condenações do STF como perseguição injusta, e a outra metade como justiça contra golpistas.

Ao reduzir penas sem conceder anistia, o PL da Dosimetria não resolverá nada. Aliás, antes mesmo de sua eventual aprovação, o projeto já é rejeitado tanto por bolsonaristas, que o consideram insuficiente, quanto por lulopetistas, que o veem como leniente.

3. O povo perdeu a confiança nas instituições

Mesmo que a dosimetria fosse aplicada com perfeição técnica, não haveria pacificação, por uma razão muito simples: grande parte da população já não confia no Judiciário e em outras instituições. Essa parcela da sociedade enxerga todas as decisões do STF e do Congresso Nacional como politizadas, corporativistas ou orientadas por interesses ocultos.

Sem confiança social, nenhuma dosimetria terá legitimidade para pacificar o país. No fim do dia, pouco importa se a pena foi construída a partir de cálculo técnico ou arbitrário: a opinião pública reage ao número final, comparando-o com expectativas de justiça ou vingança. A dosimetria jamais corresponderá ao senso popular de punição adequada.

4. O PL da Dosimetria ignora os abusos alegadamente cometidos pelo STF

O projeto de lei sequer aborda os excessos atribuídos ao STF, como inquéritos sem provas, relativização de garantias e violações constitucionais diversas. Para muitos brasileiros, a pacificação começaria por uma CPI sobre abuso de autoridade. Sem investigar o "inquérito do fim do mundo" ou a máquina de censura instalada no país, o PL da Dosimetria parece um remendo superficial.

5. A dosimetria pode aumentar o sentimento de arbitrariedade

Um sistema que a população não entende não pode ser fonte de pacificação. A dosimetria é uma operação sofisticada, sujeita a margens de interpretação, que pode alimentar a sensação de arbitrariedade entre as pessoas comuns.

O direito brasileiro é marcado por um cipoal de leis, portarias, súmulas e jurisprudências conflitantes: uma teia normativa caótica, na qual juízes podem fundamentar decisões opostas usando precedentes igualmente válidos. Nesse ambiente, a dosimetria reforça a percepção de que as penas são moldadas conforme a conveniência do intérprete.

Apesar das boas intenções declaradas, o PL da Dosimetria é um remendo legislativo que não corre o menor risco de dar certo

VEJA TAMBÉM:

6. O projeto de lei representa mais um acordão em um país exausto de acordões

O Brasil está cansado de negociações nos bastidores que atendem a uma agenda secreta, e não ao interesse público. Nascido de reuniões como a de Michel Temer com Aécio Neves e Paulinho da Força, o PL da Dosimetria cheira a mofo.

Protestos recentes já deixaram clara a rejeição pública a esses expedientes, que tendem a aumentar o ceticismo e a insatisfação da sociedade com o sistema que a governa.

7. O PL da Dosimetria corre o risco de ser declarado inconstitucional

Ministros do STF já sinalizaram que anistias ou ajustes amplos de penas podem ser inconstitucionais. Como a dosimetria interfere na prerrogativa judicial de calcular penas, pode ser barrada, criando um impasse.

Esse ambiente de incerteza deve prolongar o conflito entre poderes, com Congresso e Judiciário se desafiando mutuamente, aprofundando a crise institucional em vez de resolvê-la – e deixando o país em um limbo jurídico e político.

8. A dosimetria não acabará com os protestos nas ruas

Defensores do PL afirmam que ele acabaria com manifestações de rua, mas, na melhor das hipóteses, isso é puro otimismo. Bolsonaristas revoltados continuarão pressionando por uma anistia ampla, geral e irrestrita (tal como a defendida em 1979, com os papéis invertidos).

Movimentos políticos e militantes usarão o PL para reforçar narrativas. A pena recalculada por meio da dosimetria será lida como prova de que “a Justiça está com o povo” ou de que “o sistema está corrompido”. Em ambos os casos, será combustível para radicalizações.

9. O PL da Dosimetria não satisfaz os defensores da anistia

Bolsonaristas, incluindo familiares de Jair Bolsonaro, insistem em uma anistia ampla, geral e irrestrita. O eventual apoio de políticos de direita ao PL da Dosimetria será visto como traição. Isso pode gerar rebeliões internas no Congresso: sem atender às demandas extremas da direita, a dosimetria não desarma ninguém, apenas mantém vivo o confronto ideológico que divide o país.

10. O PL da Dosimetria ignora as lições da História recente

A História recente demonstra que ajustes parciais podem inflamar as ruas, mantendo o país em tensão permanente. Como “solução legislativa para pautas tóxicas”, o PL da Dosimetria evita olhar para frente, perpetuando ciclos de rancor.

Acordos passados, como os de Michel Temer para “pacificar” o país, levaram a mais instabilidade. Sem aprender com seus erros, o país arrisca repetir ciclos de crise, em vez de construir uma pacificação duradoura.

Em suma, apesar das boas intenções declaradas, o PL da Dosimetria é um remendo legislativo que não corre o menor risco de dar certo. Ao contrário, a dosimetria não pacifica: apenas inaugura mais um campo de batalha na guerra de narrativas que domina o país. Essa guerra não se origina da falta de cálculo matemático na atribuição de penas, mas de disputas ideológicas, instituições em crise e desconfiança generalizada da população.

O PL ignora a necessidade de enfrentar abusos institucionais e reafirmar compromissos democráticos, optando por soluções paliativas. Permanecerá a narrativa de mentiras de ambos os lados, impedindo que o Brasil supere as erosões de direitos e se redemocratize, como fez no pós-ditadura militar. A pacificação nacional não virá da frieza de uma fórmula jurídica, mas da reconstrução da confiança social nas instituições.

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.