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Big Techs utilizam derrubada de vídeos para livrar-se das responsabilidades na propagação de conteúdos.| Foto: Joédson Alves/EFE

O YouTube decidiu derrubar algumas lives do presidente Jair Bolsonaro, dizem por aí que pode ser o prenúncio do banimento dele da plataforma. Vi muita gente comemorando nas redes sociais e até na imprensa. Trata-se da demonstração cabal de que pensamos com o fígado e insistimos na apoteose da superficialidade.

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As redes sociais exploram muito um sentimento para o qual há palavra exata em alemão, "schadenfreude". Trata-se da satisfação que sentimos quando alguém de quem não gostamos se dá mal. É por isso que boa parte do noticiário trata a ação do YouTube como soberana e virtuosa, sem questionar a plataforma.

Já os favoráveis ao presidente Jair Bolsonaro ficam indignados. Estão cerceando a liberdade de expressão do presidente. Como podem simplesmente retirar o vídeo dele da plataforma sem avisar nada? É a reação emocional típica a situações nas quais alguém de quem gostamos é injustiçado.

Enquanto o debate público brasileiro é pautado por emoções sobre poderosos, esquecemos dos fatos e dos cidadãos comuns. O Congresso dos Estados Unidos tem uma abordagem completamente diferente ao lidar com a relação entre Trump e redes sociais. A questão não é se derrubou ou não o conteúdo e o perfil, mas quanto o algoritmo contribuiu para disseminar a informação e quanto a plataforma lucrou com ela.

Pouco tempo atrás a CPI da Covid já teve uma prova prática do que acontece quando perfis são derrubados. Torna-se impossível investigar e responsabilizar tanto os donos dos perfis quanto as plataformas. Os senadores pediram ao Twitter diversas informações sobre perfis que estavam investigando, alguns já derrubados, e receberam um sonoro não como resposta.

O YouTube diz ter concluído agora que as lives do presidente da República eram recheadas de desinformação sobre a Covid e por isso foram derrubadas. A plataforma declara que eram postagens que contrariavam as regras de utilização. Tomemos essas afirmações por rigorosamente verdadeiras, a plataforma sabe que isso não deve ser propagado porque desinforma. Surgem outras questões.

Quanto tempo essas postagens permaneceram ativas e por quê? Essa informação chegou a quantas pessoas? Quantas pessoas viram este vídeo porque buscaram e quantas chegaram a eles por recomendação do próprio YouTube? Um estudo da Mozilla Foundation mostrou que 70% das visualizações de vídeos vêm de recomendações do próprio YouTube. A versão brasileira é tida como a mais tóxica do mundo.

Um levantamento recente mostrou que as decisões empresariais das Big Techs, tomadas por meio de algoritmos, são fundamentais para a desinformação sobre saúde. A imensa maioria dos vídeos antivacina dos Estados Unidos é produzida por apenas 12 canais. Juntos, eles lucraram US$ 36 milhões em 2020. As redes sociais lucraram US$ 1,1 BILHÃO com o conteúdo deles. Há questões importantes que não levamos em conta.

O Congresso dos Estados Unidos está investigando todos os que contribuíram para a invasão do Capitólio dia 6 de janeiro. As redes sociais resolveram banir os perfis do ex-presidente Donald Trump, que está debatendo a questão agora na justiça. O Congresso dos EUA não se deixou levar nem se deu por satisfeito com o banimento. Aliás, nem o Oversight Board do Facebook, o Supremo Tribunal do Facebook, engoliu a história.

Uma comissão especial foi criada pelo Congresso para investigar a invasão do Capitólio. Justin Hendrix, jornalista experiente e fundador da Tech Policy Press, fez uma sugestão do material que pode ser pedido às redes sociais para esclarecer duas questões cruciais que permanecem sem resposta.

1) Como as empresas de mídia social interagiram com as principais agências federais de inteligência e aplicação da lei antes e depois da insurreição e como as informações da mídia social foram utilizadas por essas agências na preparação para 6 de janeiro.
2) Como a mídia social desempenhou um papel na propagação das falsas alegações que motivaram os rebeldes e serviram para facilitar a coordenação do ataque ao Capitólio.

Retirar informações falsas das redes sociais diminui o alcance da desinformação e isso é verdade. Este fato também quer dizer que os algoritmos são fundamentais para disseminar desinformação e que as Big Techs não são só responsáveis, lucram com isso. Temos eleições no ano que vem. Nossas autoridades vão permitir que este círculo vicioso continue?

Com base nas informações das agências de segurança e do Congresso, o governo dos Estados Unidos está tratando as Big Techs de maneira bastante rígida. Na semana passada, ao ser perguntado sobre empresas como Facebook, o presidente Joe Biden foi categórico: "eles estão matando gente", referindo-se à desinformação em plena pandemia.

Aqui no Brasil, as redes sociais são alçadas a grandes heroínas da nação só porque derrubaram vídeos do presidente Jair Bolsonaro depois de turbinar a circulação deles durante vários meses. Chegaram a mandar à CPI da Covid uma lista dizendo quanto influenciadores faturaram com vídeos de desinformação e não foram inquiridas sobre quanto impulsionaram esse conteúdo de lucraram com ele.

O debate sobre o papel das Big Techs na democracia tem sido movido por emoções e revanchismo. Comemoramos derrubada de perfis enquanto o Conselho de Direitos Humanos da ONU sinaliza que transferir essas decisões para as Big Techs é uma violação de direitos. Provavelmente não chegaremos a lugar nenhum até ano que vem. Parece que os políticos ainda acreditam poder lucrar com o modelo de economia do ultraje criado pelas redes sociais. Resta saber quanto tempo levarão para perceber que tornaram a nossa política refém deste processo.

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