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Paulo Briguet

Paulo Briguet

“O Paulo Briguet é o Rubem Braga da presente geração. Não percam nunca as crônicas dele.” (Olavo de Carvalho, filósofo e escritor)

Crônica de domingo

Pequena galeria de personagens que realmente importam

Eu dormia em meu bicama na sala quando acordei, abri os olhos e vi meu pai na poltrona lendo um livro. (Foto: Imagem criada por Open AI / Gazeta do Povo)

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“A eternidade o transforma, enfim, naquilo que ele é.”
(Stéphane Mallarmé)

1. Meu pai lendo um livro.É a imagem mais antiga que trago na memória. Morávamos em um pequeno apartamento na Alameda Barão de Limeira, em São Paulo. O ano era 1971 ou 1972. Eu dormia em meu bicama na sala quando acordei, abri os olhos e vi meu pai na poltrona lendo um livro (talvez um romance russo), iluminado por um abajur. Aquela imagem determinou o curso da minha vida.

2. Minha mãe de manhã.Já tínhamos mudado para outro apartamento (no Edifício Juréia). Minha mãe acordava muito cedo, quando ainda estava escuro e o galo da vizinhança (sim, havia galos no Centro de São Paulo nos anos 70) ainda não havia cantado. Para não incomodar nosso sono, ela se trocava e preparava o café no escuro. Um dia, saiu para trabalhar (era professora de história no Bairro do Limão) com um sapato de cada cor.

3. O ministro da eucaristia.João é casado com Dora há 50 anos. Como começaram a namorar uma década antes, estão juntos há 60. Tempos atrás Dora começou a esquecer as coisas. Agora ele cuida dela como se fosse um bebê, em todos os momentos. Ele já não se lembra mais de como é viver sem Dora. Ela sorri. Do nascer ao pôr do sol, um sacrifício perfeito.

4. Carlinhos.Ele é fotógrafo, um dos mais talentosos que já conheci. Nos encontramos na frente dos Correios. Envelhecemos, mas nos reconhecemos. “Trabalhando, Carlinhos?” “Trabalhando, Briguet, mas com bichos e as plantas. Porque trabalhar com gente tá difícil. Depois que votei no Bolsonaro, nossos colegas não querem mais saber de mim.”

5. Meu correspondente oculto. Ao lado dos Correios, fica a Biblioteca, um dos meus lugares preferidos da cidade. Assim que cruzo a porta de entrada, meu xará bibliotecário: “Tem carta do Jojima pra você”. Há muitos anos, Jojima me envia cartas em envelopes brancos ou amarelos, com uma caligrafia miúda. Meu amigo oculto possui uma memória prodigiosa. Cita crônicas que publiquei há décadas, em outros jornais. Adorou a minha aula sobre os doze trabalhos de Hércules. Um dia nos encontraremos, Jojima.

6. A amiga que votou no PT.Santo Tomás definia a amizade: “Idem velle, idem nolle”. Amar as mesmas coisas, rejeitar as mesmas coisas. Claramente nós amamos e rejeitamos coisas diferentes, então fica difícil de manter a amizade. Você viu toda a minha luta durante estes anos, mas preferiu seguir outro caminho. Ainda assim, continuo querendo o seu bem.

7. A mãe no Círio. Ela fez de joelhos a procissão do Círio de Nazaré. Trazia nas mãos a foto de um menino: seu filho de 8 anos, que morrera afogado duas semanas antes. “Deus me deu, Deus me levou, Deus seja louvado. Vim agradecer pela vida do meu filho.”

8. Meu primo Renato.Todos os domingos, ele vai visitar o túmulo de Mateus, seu filho que hoje teria 22 anos, mas viveu apenas alguns dias. Não é por acaso que o nome Renato significa “aquele que renasce”.

9. Cardeal Mindszenty.Em 1948, o regime comunista da Hungria prendeu József Mindszenty, arcebispo-primaz do país. Ele foi torturado e forçado a confessar falsos crimes em um julgamento farsesco. Em 1956, foi libertado durante a rebelião do povo húngaro. Com a invasão soviética do país, procurou refúgio na embaixada americana de Budapeste, onde viveu confinado dentro de uma sala por 11 anos.

10. Filipe. Ele está preso em um cubículo de concreto por um crime que não cometeu. Lê em média um livro por dia, e ultimamente tem estudado Voegelin e Platão. No dia da eleição, ouviu a comemoração dos presos durante a “virada” do Lula, mas não se abalou: sorriu. Um padre que o visitou disse: “O Filipe vive em estado de graça”.

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