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Paulo Cruz

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A liberdade é um direito radical. Coluna semanal

História do Brasil

O apagamento histórico do Império e o nascimento de nossa tragédia

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O Largo do Paço (atual Praça XV) em 1830, retratado por Jean-Baptiste Debret. À esquerda está o Paço Imperial e à direita, em primeiro plano, o Chafariz do Carmo. (Foto: Wikimedia Commons/Domínio público)

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“Não será, pensei de mim para mim, que a República é o regime da fachada, da ostentação, do falso brilho e luxo de parvenu, tendo como repoussoir a miséria geral? Não posso provar e não seria capaz de fazê-lo.” (Lima Barreto)

Após um vídeo gravado no último fim de semana e postado em meus stories do Instagram, a mensagem recebida de uma seguidora confirmou minha impressão: “moro aqui e nunca tinha ouvido falar disso”. Eu falava e mostrava um dos monumentos mais importantes de nossa história, mas que, atualmente, se tornou invisível para aqueles que transitam pela famigerada Praça XV de Novembro, no centro do Rio de Janeiro: o Chafariz do Carmo.

Mestre Valentim – como ficou conhecido Valentim da Fonseca e Silva (c. 1745-1813) –, seu construtor, foi um dos principais artistas do Rio de Janeiro colonial e teve um importante papel nas reformas urbanas promovidas pelo vice-rei dom Luís de Vasconcelos e Sousa. Mulato, filho de um português e de uma mulher escravizada, foi escultor, entalhador, ourives e projetista. O Chafariz do Carmo, obra belíssima em estilo barroco, foi concluído em 1789, à beira do cais, e tinha uma função prática fundamental: abastecer de água a população e, sobretudo, as embarcações que chegavam ao porto.

Por ter sido um golpe quase tímido, sem qualquer apelo popular, o novo regime republicano precisou de um grande esforço para reformar o imaginário da população e imprimir nele os seus símbolos

Foi ao lado desse chafariz, numa pequena escadaria – que, na ocasião de minha filmagem, tinha um saco de lixo num dos degraus –, que, em 7 de março de 1808, dom João VI e a família real portuguesa desembarcaram para aqui estabelecerem a sede da monarquia portuguesa e do governo do Império Português. Sete anos depois, o próprio Brasil seria elevado à condição de Reino, e o Rio, capital do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.

Mas nada disso é informado no local. O chafariz, hoje desativado, é só um monumento ignorado em meio a outros, igualmente ignorados, naquela praça imensa, linda se não estivesse tomada de camelôs, que foi palco de alguns dos maiores acontecimentos de nossa história e que hoje são meros fantasmas na memória daqueles que, como eu, se importam. A própria renomeação da praça, que se chamava Dom Pedro II, foi parte desse avassalador projeto de apagamento promovido pelos golpistas republicanos a fim de contarem a história do país a seu modo. Como nos diz José Murilo de Carvalho em seu A formação das almas:

“[...] Foi grande o esforço de transformação dos principais participantes do 15 de novembro em heróis do novo regime. As virtudes de cada um foram cantadas em prosa e verso, em livros e jornais, em manifestações cívicas, em monumentos, em quadros, em leis da República. Seus nomes foram dados a instituições, a ruas e praças de cidades, a navios de guerra. Quadros como o de Henrique Bernardelli, exaltando Deodoro, foram expostos à admiração pública.”

Por ter sido um golpe quase tímido, sem qualquer apelo popular, o novo regime precisou de um grande esforço para reformar o imaginário da população e imprimir nele os seus símbolos. “É por meio do imaginário”, afirma José Murilo, “que se podem atingir não só a cabeça, mas, de modo especial, o coração, isto é, as aspirações, os medos e as esperanças de um povo. É nele que as sociedades definem suas identidades e objetivos, definem seus inimigos, organizam seu passado, presente e futuro”. E os republicanos fizeram isso não só imprimindo os seus símbolos, mas destruindo qualquer vestígio da antiga ordem.

Permita-me o leitor uma digressão para explicar o que me trouxe a esse artigo. Estive no Rio de Janeiro no último fim de semana/feriado a fim de realizar um tour histórico que sempre tive vontade, mas nunca a oportunidade de fazer. Fui ciceroneado por um grande amigo carioca, Victor Grinbaum, profundo conhecedor não só de nossa história, mas, no caso do Rio, da geografia e dos endereços ligados aos importantes fatos históricos ocorridos naquela cidade. Nomes, descrições detalhadas, peculiaridades anedóticas, causos, tragédias... Victor sabe de tudo com uma profundidade impressionante, e foi um prazer ser conduzido por ele nesse passeio que ampliou sensivelmente minha visão sobre nossa história.

Nosso primeiro passeio foi justamente na Praça XV de Novembro, onde se localizam, tanto lá quanto em seu entorno, as mais importantes edificações do período colonial/imperial brasileiro. O Paço Imperial, sede do governo, é o local onde ocorreu o Dia do Fico, em que dom Pedro I iniciou o processo de independência do Brasil, e também onde foi assinada e anunciada a Lei Áurea – ou seja, praticamente os dois maiores eventos da história brasileira. No local não há uma mísera informação a esse respeito. Nada. Zero. O Paço, inclusive, foi transformado em sede dos Correios após o golpe; a decoração interna original foi destruída e o edifício sofreu reformas que modificaram sua estrutura antiga para abrigar os serviços postais. A janela do “Fico” está com os vidros quebrados.

O Museu Nacional é administrado pela UFRJ, uma das instituições mais radicalmente progressistas do país, a quem o apagamento da nossa história parece não ser só bom, mas necessário

Atualmente, o Paço é o Centro Cultural Paço Imperial, vinculado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), mas que – não se engane o amigo leitor – abriga exposições de arte contemporânea e espaço gastronômico. As referências à história do local são tímidas. Como diz o site institucional do governo, “atualmente, é um espaço multicultural com programação de artes visuais, artes cênicas, música, seminários e serviços de lojas e restaurantes. O local abriga também a Biblioteca Paulo Santos, originária do acervo particular do arquiteto e historiador”. A página de Instagram do local é de chorar.

Além disso, a praça abriga, aos sábados, a Feira de Antiguidades, que ofusca completamente a visão do Paço e da própria praça. Da estátua equestre do General Osório, obra da República, roubaram todos os itens de bronze que a identificavam e ornamentavam. Nesse caso, bem feito.

Mas não poderia voltar a São Paulo sem visitar, pelo menos por fora, aquele que se tornou um dos maiores símbolos de nossa tragédia, o Museu Nacional, cujo incêndio, em 2 de setembro de 2018, desnudou o absoluto descaso para com a nossa história. O Museu Nacional está localizado no Paço de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista, antiga residência da família real/imperial, ocupando o edifício que havia sido o coração da vida política e doméstica da família imperial. Lá nasceram dom Pedro II e dona Isabel, a Princesa Imperial. Quando a corte portuguesa chegou ao Rio, em 1808, dom João foi recebido na Quinta da Boa Vista, propriedade de Elias Antônio Lopes, um rico comerciante de escravos, que ofereceu a residência ao príncipe regente para servir de moradia à família real – e, com isso, obviamente, receber vantagens políticas para seu nefando trabalho.

Após a queda do Império, sua história seria igualmente maculada pela República. Em 1892, o Museu Nacional foi transferido para o antigo Paço, para, em seguida, ter parte do acervo leiloado e disperso por vários outros lugares. Os brasões, alegorias e ornamentos monárquicos foram retirados do edifício e da Quinta da Boa Vista, e substituídos por símbolos republicanos. O Paço São Cristóvão foi convertido num Museu de História Natural. Segundo a historiadora Regina Dantas, em sua dissertação de mestrado – A Casa do Imperador: Do Paço de São Cristóvão ao Museu Nacional –, o Museu Nacional não é um museu histórico:

“O objetivo das salas das exposições era (e continua sendo) retratar as pesquisas realizadas pela instituição nas áreas de ciências naturais e antropológicas. No entanto, o que se poderia fazer com a memória do palácio imperial, palco de parte da história de nosso país, que não foi enfatizado no discurso oficial do Museu Nacional? Como dar visibilidade ao Paço de São Cristóvão? Como apresentar o edifício assumidamente como uma casa-museu?”

Seu trabalho de pesquisa foi frustrado porque “o Governo Provisório [desmembrou] os pertences do monarca para garantir o apagamento da memória da monarquia, e, como se pudesse, enquadrar a memória do novo regime. Para isso, utilizou a casa do imperador para abrigar a primeira Assembleia Constituinte republicana”.

Deixei o Rio triste por ver o descaso, o abandono e a maldade produzida em nossa memória por pessoas e instituições que odeiam o país

No local, atualmente, como que para completar afronta após um incêndio que, segundo consta, foi uma tragédia anunciada, abriga a instalação Rescaldo das Memórias, uma exposição individual do artista plástico Vik Muniz que reúne fotografias e esculturas criadas a partir de cinzas e fragmentos recolhidos nos escombros do incêndio que destruiu o museu em 2018.

E é importante dizer que, atualmente, é administrado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), uma das instituições mais radicalmente progressistas do país, a quem, inclusive, esse apagamento parece não ser só bom, mas necessário. Segundo o site do Instituto de História da universidade, sua criação visa atender “às demandas acadêmico-pedagógicas renovadoras, alimentadas tanto por fortes expectativas educacionais da sociedade brasileira face à Universidade pública e gratuita – esperanças socialmente inclusivas e democráticas – quanto também pelas profundas mudanças intelectuais, que nos últimos decênios transformaram o campo disciplinar da História, seus paradigmas cognitivos e protocolos de investigação, alargando as fronteiras dos estudos históricos e também o campo de atuação profissional dos historiadores”. Ou seja, o apagamento continua sendo um projeto.

E nisso está o nascimento de nossa tragédia. Apagar o passado a fim de construir uma história fictícia, desconectada do ethos da população, de sua cultura e de seus modelos exemplares é a morte de um país, pois cria um povo que não se reconhece. Foram mais de 300 anos de história, com suas contradições, suas conquistas e derrotas, escravidão, violências, encontros e desencontros; com ampla miscigenação e aculturações diante de enormes dificuldades. Tudo isso não pode ser apagado pela vontade de burocratas golpistas nem por ideólogos sedentos por interpretações criativas. A história é um processo contínuo de autointerpretação que deve ser respeitado. Em nosso caso, não foi. E não é.

Pois bem. No fim das contas, meu tour histórico pelo Rio de Janeiro produziu um efeito agridoce em mim. Ao mesmo tempo em que, agora, consigo vislumbrar muitos dos lugares sobre os quais já escrevi muitas vezes e, com isso, enriquecer o meu conhecimento; em que pude me emocionar em frente ao Paço Imperial relembrando o maior acontecimento de nossa história; fiquei triste por ver o descaso, o abandono e a maldade produzida em nossa memória por pessoas e instituições que odeiam o país e não têm capacidade de lidar com contradições e perspectivas que vão de encontro às suas convicções ideológicas.

Correção

A coluna foi corrigida para retirar a afirmação de que dom Pedro I havia nascido na Quinta da Boa Vista.

Corrigido em 10/09/2026 às 00:13

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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