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“Quanto à obra que estou escrevendo agora para O Mensageiro Russo, deposito nela grandes esperanças, não pelo lado artístico, mas pelo lado tendencioso. Quero expressar alguns pensamentos, ainda que minha arte pereça no processo. O que me impele é aquilo que se acumulou em minha mente e em meu coração; que resulte, ainda que seja um panfleto, mas direi o que tenho a dizer.” (Dostoiévski, em carta ao crítico literário Nikolai Strákhov)
O trecho em epígrafe demonstra a preocupação de um gênio. Fiódor Dostoiévski, um dos maiores romancistas da história da humanidade, diante do assassinato do estudante Ivan Ivanov, em 1869, por integrantes de uma organização revolucionária socialista liderada por Serguei Netchaiev, decide escrever um romance político – um panfleto, como afirmou. Ivanov discordou da estratégia política do grupo e seu líder viu nisso uma traição, determinando o seu assassinato. Dostoiévski ficou horrorizado com a violência do grupo e concebeu o romance como uma intervenção polêmica contra essas ideias.
Entretanto, como disse a seu amigo, ele temia macular a qualidade literária de sua obra com uma mensagem declaradamente política. Como diz C.S. Lewis a respeito de H.G. Wells, numa corruptela da afirmação bíblica sobre Jacó, vender seu direito de primogenitura por um “prato de mensagem”. O russo sabia que a arte deve ser soberana e que, caso o artista escolha transformá-la num veículo de militância política, a probabilidade de comprometer a qualidade da obra é grande, pois você condiciona a criatividade e o esforço a um ideal não artístico.
Praticamente todo o mainstream artístico brasileiro é militante de esquerda, e poucos, muito poucos, conseguem produzir arte de qualidade por causa disso
Indignado como estava, decide arriscar. E o que temos é um dos maiores monumentos literários do século 19, Os Demônios, publicado como folhetim na revista literária russa O Mensageiro Russo, entre 1871 e 1872, e, posteriormente, em volume único.
Duas coisas me chamam a atenção nessa história: 1. Dostoiévski, sendo o gênio literário que era, conseguiu ultrapassar suas intenções estritamente políticas para criar uma obra que é, na verdade, uma investigação profunda sobre o fanatismo, a sedução intelectual e a capacidade humana de cometer atrocidades em nome de um suposto bem, de um “mundo melhor”. 2. Isso não é para qualquer um; somente um artista verdadeiramente vocacionado é capaz de, num ímpeto semelhante, não diminuir o valor artístico de sua obra. Há muitos panfletos literários que não conseguem ultrapassar a militância pura e simples.
Na música, Nina Simone, que mergulhou sua obra na luta contra o racismo, compôs hinos inesquecíveis de autoafirmação e denúncia (como To be young, gifted and black); e, no Brasil, temos, por exemplo, Chico Buarque, cujas canções do período da ditadura brasileira são verdadeiros clássicos de qualidade inquestionável (como Apesar de você). Mas tais artistas são exceções que confirmam a regra.
O leitor, nesse momento, deve estar se perguntando: “mas o que isso tem a ver com o título do artigo?” Explico: a exemplo de Chico Buarque, praticamente todo o mainstream artístico brasileiro é militante de esquerda, e poucos, muito poucos, conseguem produzir arte de qualidade por causa disso. E mais: sua submissão política – que, nesse período eleitoral, por causa da vantagem de Flávio Bolsonaro no primeiro turno, está particularmente alarmante – ultrapassa todos os limites da razoabilidade e da liberdade artísticas. Sua vassalagem a Lula, que vem de décadas, é deprimente e compromete não só a sua arte, mas nos faz duvidar de seu caráter. Por que eles são assim?
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Arrisco uma breve explicação. Artistas são idealistas e sua visão de mundo é, no mínimo, peculiar. Voltando a Lewis, certa vez ele afirmou que seu “homem imaginativo” era mais atuante que seu eu racional. E faz todo sentido. A imaginação projeta o artista para perspectivas, muitas vezes, idealizadas de mundo – quando não utópicas, embora verossímeis. Dificilmente um artista é realista; e nem deve ser, pois seu compromisso não é com a realidade concreta, mas com sua maneira de ver o mundo, de absorver suas contradições e transformar isso em arte. Isso é absolutamente legítimo.
O problema é que a visão de mundo da esquerda é, em si mesma, uma idealização. O mundo concebido por Marx e seus discípulos não é um mundo possível, verossímil. Falar em igualdade como um princípio, fim dos preconceitos e das classes sociais, e a submissão das contradições humanas a um ideal materialista é algo que até cabe na imaginação, numa visão irrestrita de mundo – que pensa ser possível alcançar algo tipo de perfeição social –, mas que não é possível. E a história nos mostra com muitos exemplos como isso só “funciona” por meio do controle.
Mas os artistas compram essa ideia e o Lula é o símbolo máximo desse mundo idealizado: é o proletário que virou presidente, é o verdadeiro representante do povo; mesmo depois de preso e condenado em três instâncias da Justiça, vale dizer. E ocorre que, em grande medida, numa sociedade eivada de desigualdades e problemas sociais diversos, o idealismo é uma forma de sinalizar virtude, de se mostrar consciente e preocupado com os problemas sociais, sem ter, necessariamente, de enfrentá-los na realidade. Alguns daqueles que foram perseguidos durante a ditadura, foram à prática. Mas a maioria foi perseguida pela estupidez da censura à arte de protesto.
Artistas não devem ser parâmetro para nada; sua influência política é ilusória e fruto única e exclusivamente de seu ego
E o estopim que me trouxe a este artigo foi que, essa semana, vi, pela segunda vez, toda a entourage do 342 Artes, grupo de lobby artístico-político capitaneado por Paula Lavigne, a verdadeira gatekeeper das artes no país e companheira de Caetano Veloso, reunida para gravar mais uma de suas musiquinhas em apoio à reeleição de Lula e, segundo eles, em favor da “democracia”. A cena é deprimente: todos aqueles artistas octogenários fazendo dancinha e entoando loas ao “pai dos pobres”. Algo que, no fim, demonstra só desespero de que Lula perca a eleição e eles tenham de passar mais quatro anos “resistindo” a um governo que certamente não lhes terá em alta conta.
Sim, Jair Bolsonaro, imbuído do sentimento de guerra cultural pelas, digamos, licenciosidades artísticas da esquerda nos últimos anos, antagonizou muito com o setor artístico. Reduziu o Ministério da Cultura a uma secretaria; mudou características nas leis de incentivo; mudou, sucessivas vezes, a chefia da área cultural; envolveu órgãos como a Funarte, a Fundação Cultural Palmares e o Iphan em controvérsias sobre nomeações, prioridades e orientação institucional etc. Ainda que, do ponto de vista prático, seja possível reconhecer políticas, resultados administrativos e iniciativas relevantes à cultura durante sua gestão, ele não é de esquerda e não manteve um canal aberto com a classe artística como esta sempre teve nos governos petistas. Então eles entraram em modo resistência – ao qual não querem retornar, por isso o desespero, as musiquinhas, as dancinhas e a pressão macarthista sobre os colegas.
Mas artistas, como se vê, não devem ser parâmetro para nada; sua influência política é ilusória e fruto única e exclusivamente de seu ego. É divertido ver seu engajamento, mas é só isso. É entretenimento. E, caso Flávio Bolsonaro vença, que Deus nos dê paciência para aguentar o seu chororô infernal por mais quatro anos – quiçá mais.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Paulo Cruz é professor e palestrante, formado em Filosofia e mestre em Ciências da Religião. Em 2017, foi um dos agraciados com a Ordem do Mérito Cultural, honraria concedida pelo Ministério da Cultura a nomes que se destacaram na produção/divulgação cultural, e em 2022, com o podcast Noir, foi vencedor do Prêmio Governo do Estado de São Paulo para as Artes, na categoria Cultura Urbana. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



