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Paulo Filho

Paulo Filho

A nova ordem global

11 de Setembro, 25 anos depois: da Guerra ao Terror à disputa entre grandes potências

Colunas de fumaça saem das torres do World Trade Center, em Lower Manhattan, Nova York, após dois Boeing 767 atingirem os edifícios durante os ataques de 11 de Setembro. (Foto: Michael Foran/Wikimedia Commons)

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Na última sexta-feira, dia 11 de setembro, os atentados terroristas perpetrados pela rede terrorista al-Qaeda contra as Torres Gêmeas, em Nova York, e o Pentágono, em Arlington, na Virgínia, completaram 25 anos. Os ataques constituíram um marco histórico importante, representando uma profunda transformação geopolítica: aquele dia e, principalmente, as reações norte-americanas àquele acontecimento efetivamente mudariam o mundo.

O custo em vidas humanas no dia dos ataques foi significativo: quase três mil pessoas morreram em Nova York, no Pentágono e a bordo dos quatro aviões sequestrados. A reação norte-americana ao ataque terrorista mais mortal da história do país foi imediata. Os EUA acionaram o artigo 5º da OTAN – aquele que diz que o ataque a um dos membros da aliança deve ser considerado um ataque a todos os membros – pela primeira e, até aqui, única vez na história, e seus aliados atenderam ao chamado para participar da Guerra ao Terror, que se traduziu inicialmente na invasão do Afeganistão e, posteriormente, na invasão do Iraque por uma coalizão liderada pelos Estados Unidos.

Os custos humanos da Guerra ao Terror, travada no Afeganistão e no Iraque, mas também na Síria, no Iêmen e no Paquistão, entre 2001 e 2023, são estimados em mais de 940 mil mortes diretamente provocadas pelos conflitos, aí incluídos 7 mil militares norte-americanos. Os resultados práticos da longa empreitada militar, entretanto, são bastante discutíveis.

Por um lado, houve conquistas no nível tático, afinal, a rede terrorista al-Qaeda, liderada por Osama bin Laden, localizado e morto por tropas americanas no Paquistão em 2011, perdeu suas mais relevantes capacidades operacionais, passando a operar principalmente por meio de uma rede descentralizada de organizações afiliadas, especialmente na África, no Oriente Médio e no Sul da Ásia. Outro êxito foi o fato de os EUA terem conseguido, ao longo desses vinte e cinco anos, evitar, em seu território, a repetição de um atentado de escala comparável ao 11 de Setembro.

Por outro lado, é inegável que, no nível político, os resultados alcançados pelos EUA foram bastante modestos, para dizer o mínimo. Essa constatação ficou óbvia e escancarada para a opinião pública em 2021, quando o grupo Talibã retornou ao poder no Afeganistão, depois que 20 anos de presença militar norte-americana no país terminaram em uma desastrosa retirada de Cabul, transmitida ao vivo pelas televisões, na qual afegãos se penduraram nas aeronaves americanas que partiam da cidade, em uma tentativa desesperada de não serem deixados para trás.

Enquanto a campanha militar norte-americana contra o terror atraía a atenção estratégica do país para o Oriente Médio, outros atores do sistema internacional continuavam a buscar seus objetivos. Exatamente três meses depois daquele fatídico dia 11 de setembro, outro evento, muito menos espetacular, mas de extraordinária importância, acontecia em Genebra, na Suíça: a adesão da China à Organização Mundial do Comércio. Os impactos globais daquele evento, ocorrido enquanto os EUA caçavam Osama bin Laden nas cavernas de Tora Bora, no Afeganistão, dificilmente podem ser subestimados: a China acelerava sua integração à economia mundial em um processo que contribuiria decisivamente para levá-la ao status de potência econômica global.

Mas o crescimento econômico da China não foi a única transformação geopolítica digna de nota ocorrida nesse quarto de século. A Rússia, sob Putin, que, aliás, havia chegado ao cargo de primeiro-ministro apenas dois anos antes do 11 de Setembro, também tinha planos de fazer seu país retornar ao status de grande potência global. Em 2008, entrou em guerra com a Geórgia, ocupando partes do território georgiano, e, em 2014, anexou a Crimeia, fomentando, ao mesmo tempo, a guerra civil no Donbas ucraniano.

Será que, se o esforço despendido pelos EUA na guerra ao terror tivesse sido utilizado para lidar com o crescimento econômico e militar da China ou com o expansionismo russo, o mundo teria chegado a 2026 vivendo a atual configuração geopolítica? Difícil saber.

A ordem unipolar, na qual os EUA eram a única e inconteste superpotência, havia chegado ao fim

Mas, se é fato que o 11 de setembro abriu uma nova fase no sistema internacional, em que a superpotência global travava sua guerra ao terror, também é verdade que esse ciclo se encerrou com a retirada norte-americana de Cabul. A partir daquele marco, da invasão russa da Ucrânia no ano seguinte e do novo protagonismo chinês no sistema internacional, ficou claro que a ordem unipolar, na qual os EUA eram a única e inconteste superpotência, havia chegado ao fim e que o mundo entrava em uma ordem cada vez mais multipolar, estruturada principalmente pela competição entre EUA e China.

Vinte e cinco anos depois, talvez essa seja a principal perspectiva que a distância histórica nos permita ter sobre o 11 de Setembro. Os atentados não apenas transformaram a política externa e de segurança dos Estados Unidos, mas deram início a um ciclo de duas décadas durante o qual profundas mudanças na distribuição do poder global estavam em curso. O mundo que emergiu ao fim desse período é muito diferente daquele de 2001. Compreender essa transformação talvez seja uma das mais importantes lições deixadas por aquele 11 de setembro.

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