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Para além da questão racial, o que choca no caso Carrefour é que ao menos quatro vidas foram destruídas por causa de um conflito aparentemente menor.
Para além da questão racial, o que choca no caso Carrefour é que ao menos quatro vidas foram destruídas por causa de um conflito aparentemente menor.| Foto: Reprodução/ Twitter

Quando era criança, ia sempre ao Carrefour. Estávamos na gloriosamente cafona e complicada década de 1980. As opções de compra eram escassas, bem como os produtos nas prateleiras. E, assim que meu pai recebia o salário, lá íamos todos lotar o Del Rey de compras para o mês.

Fecho os olhos e sou capaz de me lembrar da arquitetura da loja, apesar de não pôr os pés lá há quase trinta anos. À direita ficavam os eletrônicos – e foi ali que meu pai, depois de muito esforço para convencer minha mãe, comprou um videocassete no remoto ano de 1986. À esquerda ficavam as roupas que eu odiava experimentar. E, lá no fundo, ficava o local que eu mais temia no mercado: a seção de laticínios.

Isso porque eu era viciado em doce de leite. A marca preferida (ou mais barata) era vendida num copo de vidro. Um dia, o desastrado aqui ficou encarregado de pegar o doce de leite na prateleira, tropeçou em algum delírio infantil, se enrolou todo e deixou cair o copo, que se espatifou no chão com o estrondo de cem mil bombas atômicas.

Minha mãe veio correndo, gritando comigo e me puxando pelas orelhas que já eram de abano. Enquanto o copo de doce de leite jazia no chão do mercado, ela falava do preço absurdo, do desperdício, do erro imperdoável, intolerável que eu tinha cometido. E, seguindo a cartilha pedagógica da época, ameaçou me entregar para o primeiro policial que aparecesse, a fim de que eu fosse punido pelo grave crime de derrubar um copo de doce de leite no mercado.

Levei anos para consumir doce de leite de novo. E mais anos ainda para andar pela seção de laticínios sem temer ser preso. Para dizer a verdade, ainda hoje, em qualquer mercado, olho para a prateleira que expõe as muitas marcas de doce de leite e sinto um frio na barriga. Do alto de minha maturidade calva, às vezes sonho em derrubar um copo daqueles no chão, só para ver o que acontece.

A empresa

Conto essa história só para tentar amenizar o impacto de uma tragédia. Eu não seria louco e irresponsável de botar ainda mais lenha nessa fogueira. E também porque hoje, infelizmente, é dia de falar de Carrefour e de punições exageradas para transgressões menores. Em Porto Alegre, num dos mercados da rede francesa, consta que um senhor de 40 anos discutiu com uma funcionária e, por isso, foi espancado até a morte por seguranças. Consta ainda que o cliente assassinado era negro.

O crime aconteceu na véspera do Dia da Consciência Negra. Pior, o crime se deu na filial de uma empresa bilionária que faz questão de se envolver em todas as causas progressistas possíveis, a fim de passar uma imagem de supermercado prafrentex, onde todes são bem-vindos e, não perca a oportunidade, a batata está em promoção.

É tentador gastar aqui meu parco vocabulário para apontar a evidente hipocrisia de uma empresa que acha que sua missão no mundo é fazer justiça social ou lançar hashtags inúteis nas redes sociais, e não oferecer produtos a preços convidativos, num ambiente seguro para todo mundo. Tentação à qual não cedo. Mas vou deixar a tarefa de acusar, julgar e invariavelmente condenar a rede francesa para as milícias virtuais.

Que, pelo que andei vendo nas redes sociais, já estão atiçando a turba.

Banalidade da morte 

Prefiro gastar os parágrafos que me restam para falar sobre a banalidade da morte. E também – por que não? – da vida, com suas atribulações cotidianas que nos tornam vilões num instante e mártires no instante seguinte. Porque, do que se sabe até agora sobre o caso, o homem foi covardemente espancado e morto depois de discutir com uma funcionária e ameaçá-la de agressão. Se não tivesse sido assassinado, a vítima de racismo hoje talvez virasse símbolo do machismo.

O homem foi acusado, julgado, condenado e executado ali mesmo no mercado, para quem quisesse ver e filmar. Isso tudo porque temos pressa em corrigir aquilo que vemos como malfeitos. Foi exatamente isso o que fizeram os seguranças acusados de assassinato, entre eles um policial. E aqui vale a pergunta: o que os fez pensar que tinham não só o direito como também a obrigação de resolver ali, à força, aquele conflito? Será que, diante da possibilidade de serem acusados de negligência num caso de violência contra a mulher, os seguranças deram ouvidos ao diabinho interno que lhes dizia, talvez com sotaque francês, que non podemo tolerrar isso e prrecisamo fazerr alguma coisa?

Ao menos quatro vidas foram destruídas por causa de um conflito aparentemente menor: a de João Alberto Silveira Freiras, de seus algozes e da funcionária pivô da história. Quatro pessoas que poderiam muito bem estar aproveitando o Dia da Consciência Negra (apesar de não ser feriado em Porto Alegre), se não tivessem cedido à raiva e decidido usar a mais cruel das punições para resolver um conflito do qual, em teoria, o devido processo legal daria conta.

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