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Em 2022, ministros do Supremo e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) permitiram que petistas xingassem Jair Bolsonaro de genocida e fascista, mas puniram bolsonaristas que chamaram Lula de corrupto e ladrão. Bolsonaro foi proibido de fazer propaganda com imagens do comício que lotou a Esplanada dos Ministérios, em Brasília, no 7 de Setembro, e não pôde usar a residência oficial para fazer suas lives na campanha.
Um documentário sobre o atentado contra sua vida sofreu censura prévia no TSE, que também o multou por falar que o governo Lula favoreceria o aborto e banheiros unissex. Para que nunca mais disputasse a Presidência, Jair foi declarado inelegível em 2023 pela Corte Eleitoral e, dois anos depois, condenado a 27 anos de prisão pelo STF.
Com Lula empossado na Presidência, o ministro Luís Roberto Barroso bradou que enfrentou e derrotou o bolsonarismo. Pouco tempo depois, Gilmar Mendes celebrou que “se hoje nós temos a eleição do presidente Lula, isso se deveu a uma decisão do Supremo Tribunal Federal”, pois “a política deixou de ser criminalizada”.
Passaram-se quatro anos. Bolsonaro e centenas de seus apoiadores foram presos e silenciados, e, no entanto, a imagem e a credibilidade do STF só pioraram. Para recuperar a confiança, Cármen Lúcia criou um Zé Gotinha de urna eletrônica para o TSE, na esperança de vacinar o eleitor infantil contra as contagiosas “fake news”.
Mas eis que novos atores políticos surgiram para se insurgir contra a politização da Corte. Um senador da República, que tem o dever constitucional de fiscalizar a conduta dos ministros do STF, está para ser cassado por pedir indiciamento de três deles numa CPI. Um ex-governador foi denunciado criminalmente por satirizá-los. Ao contrário de aliados e protegidos de Lula – a quem, aliás, se opõem –, ambos correm sério risco.
Se Romeu Zema for rifado da disputa presidencial por causa de fantoches, Lula terá um adversário a menos na eleição de outubro. Conseguirá desidratar Flávio Bolsonaro por causa do áudio em que pede dinheiro para Daniel Vorcaro? E o STF, que até então estava no centro do caso Master, vai escapar do escândalo jogando-o no colo do principal rival de Lula? Se Vorcaro delatar à la Mauro Cid, a Polícia Federal de Andrei Rodrigues fecha o acordo?
Para sorte ou azar de Flávio, o caso está sob condução de André Mendonça. Uns dirão que ele não vai perseguir o filho de quem o tornou ministro; outros podem considerar que, pelo rigor adotado até agora nas investigações, não vai poupar ninguém, inclusive o 01, se aparecerem suspeitas sérias sobre origem e destino do dinheiro “investido” no tal filme criado para enaltecer a biografia de Jair Bolsonaro.
Tudo pode se complicar se a obra, a ser lançada em plena campanha, não passar de propaganda eleitoral para alavancar Flávio. O TSE já foi acionado por petistas para investigar não apenas isso, mas sobretudo a participação de Flávio na captação de milhões de dólares, e a transferência por Vorcaro a partir de uma empresa brasileira a um fundo americano – transação que entrou na mira da PF.
Novamente, para sorte ou azar de Flávio, quem comanda o TSE neste ano é Kassio Nunes Marques. Uns dirão que ele não é (e está longe de ser) Alexandre de Moraes; outros, contudo, que ele só se tornou ministro pelas mãos de Bolsonaro porque era o preferido do Centrão, o grupo político que domina, de facto, a política brasileira e se move entre a direita e a esquerda conforme lhe convém, inclusive nas eleições.
Por tudo isso, o melhor seria que STF e TSE aprendessem com os erros de 2022, e que levaram o Brasil à atual situação. Que nesta eleição, os ministros julguem com vendas nos olhos, sem olhar que lado político ganha ou perde com suas decisões. Que mantenham a balança equilibrada, sem escolher esse ou aquele fato para pesar somente num dos lados. E que não ponham sua pesada espada sobre a cabeça de nenhum candidato.
Em suma, que nenhum presidenciável precise de sorte ou tema o azar nos dois tribunais e que, caso inocentes, sejam julgados tão somente pelo eleitor.









