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Ricardo Gomes

Ricardo Gomes

Da padroeira às bets

Lula e a teologia da mentira

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Lula segura imagem de Nossa Senhora Aparecida durante ato de campanha em Fortaleza: uso político da religião. (Foto: Jarbas Oliveira/EFE)

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A reta final de uma campanha eleitoral é sempre reveladora, e mostra do que são capazes os candidatos. Principalmente quem está no poder, e que normalmente tem à sua disposição mais ferramentas para tentar uma vantagem na chegada.

Pois Lula mostrou isso nessa semana, quando a maioria das pesquisas firmou um empate técnico, ou ao menos a redução da vantagem que o atual presidente tinha como certa. E, precisando mudar o assunto (já que a crise do Supremo e as mensagens da lobista sobre Lulinha o estavam machucando), Lula decidiu apostar em duas mentiras, digamos, “ecumênicas”.

A primeira foi voltada para os católicos. As fake news de que Flávio Bolsonaro ou seu grupo pretendiam aprovar um projeto que destituía Nossa Senhora Aparecida da condição de padroeira do Brasil nasceram para jogar o eleitor católico contra Flávio. A falsa notícia foi desmentida por jornalistas que a difundiram, mas Sua Excelência, ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino, tornou-se um arauto da liberdade de expressão, atropelou o TSE e permitiu a difusão da mentira.

A proibição das bets não passa de uma mentirinha na semana da eleição. Quando a medida provisória caducar, ali na frente, ficará evidente a encenação

O Ministério Público Eleitoral já identificou que quem incentivava as falsas publicações era um servidor da Secom, a Secretaria da Comunicação do governo Lula. É de se imaginar que não decidiu fazê-lo sozinho, mas há de se investigar.

A segunda mentira mirou nos evangélicos. Pesquisas mostram que, em maioria, os evangélicos são contra o jogo e, portanto, contra as bets. Lula, que tinha regulamentado as apostas esportivas, cobrado delas bilionários impostos e taxas de outorga multimilionárias, resolveu proibi-las de um dia para o outro, com uma medida provisória que, suspeito, não virá a se tornar lei.

Isso porque o próprio Lula sabe que a arrecadação de tributos das bets tornou-se fundamental em um governo perdulário, em que a gastança é hemorrágica. Segundo, porque o futebol brasileiro tornou-se dependente dos patrocínios das bets. E terceiro, porque sabemos que, uma vez proibidas as bets que operavam na legalidade, sobrarão apenas as que operam na ilegalidade.

O governo sabe disso, se não for absolutamente inepto. Tudo isso aponta para um roteiro bastante previsível. Passada a eleição, Lula recuperará sua convicção anterior – a de que é melhor regular do que proibir. Deixará a medida provisória caducar, os clubes faturarem, os apostadores apostarem. A sua firmeza, assim como foi com a “taxa das blusinhas”, é como uma roupa no varal, e balança sempre na direção do vento que o seu marqueteiro soprar.

A proibição das bets não passa de uma mentirinha na semana da eleição. Ela parece verdade, porque a MP foi assinada, mas quando caducar, ali na frente, ficará evidente a encenação. Uma mentirinha cara, que será paga, de novo, pelos cofres públicos, que haverão de indenizar as perdas da aventura eleitoral. Manda o marqueteiro, paga você.

O Brasil já não tem governo, tem apenas os interesses eleitorais de Lula. Esse cenário, tudo indica, se arrastará até o fim do segundo turno. Esperem, portanto, toda sorte de medidas populistas e irresponsáveis. E não esperem nenhuma contenção por parte dos órgãos de controle.

O Brasil já não tem governo, tem apenas os interesses eleitorais de Lula

Afinal, por que é que o PT, ao longo de mais de 20 anos, aparelhou o Estado em todas as suas dimensões? Para chegar na boca da eleição e não usar o aparelho que montou? Era evidente que algum ministro aliado bancaria as fake news da padroeira. Suspeito, inclusive, que ali na frente algum outro ministro diga que a MP da proibição das bets é inconstitucional... mas só depois da eleição.

Até lá, Lula pode tudo – e é capaz de tudo.

Mais um motivo para que esse domingo seja tão importante: quem escolhe se quer manter “isso que está aí” é você.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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