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Investimentos

Falta de infraestrutura custa R$ 284 bilhões por ano ao Brasil e trava avanço do PIB

Além de investimentos em infraestrutura estarem abaixo do necessário, 61,7% dos recursos alocados foram direcionados exclusivamente para repor depreciação de ativos antigos, mostra estudo
Além de investimentos em infraestrutura estarem abaixo do necessário, 61,7% dos recursos alocados foram direcionados exclusivamente para repor depreciação de ativos antigos, mostra estudo (Foto: Imagem criada utilizando Dall-E/Gazeta do Povo)

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O déficit de infraestrutura no Brasil gera um impacto financeiro estimado em R$ 284 bilhões por ano, segundo estimativa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e do Movimento Brasil Competitivo.

Materializada em rodovias esburacadas, portos saturados e tarifas de energia elevadas, a falta de investimento na área afeta diretamente a produtividade das empresas. A conta recai de forma mais pesada sobre o setor produtivo, encarecendo a operação logística “da porteira para fora” e reduzindo a capacidade de o país competir no mercado internacional.

(Esta reportagem faz parte da série Brasil Rico, que aborda as escolhas erradas que travam o avanço da economia e os caminhos para transformar o país em uma nação de alta renda. Confira aqui os outros textos da série)

Para o ambiente corporativo, as despesas com transporte e armazenamento operam quase como um imposto adicional sobre a produção. Os custos logísticos brasileiros superam a média de outros países de dimensões continentais.

Em setores específicos, o impacto sobre o faturamento é direto: na indústria de materiais de construção, o frete representa 14,3% das receitas; em companhias de óleo e gás, chega a 13,3%; e, no segmento de higiene e limpeza, consome 9,9%.

A raiz do problema está no baixo nível de aportes em capital físico estrutural. Segundo estudo recente da Inter.B Consultoria, o estoque de capital em infraestrutura no Brasil permanece estagnado na faixa de 35% a 40% do PIB desde os anos 2000.

Para modernizar o setor e alcançar o estoque-alvo, estimado em 63,7% ao longo das próximas duas décadas, o país precisaria investir o equivalente a 4,65% do PIB anualmente. Em 2024, no entanto, os aportes somaram R$ 266,8 bilhões, o equivalente a apenas 2,27% do PIB, com a iniciativa privada respondendo por 70,5% desse total.

Além de o volume estar abaixo do necessário, 61,7% dos recursos investidos foram direcionados exclusivamente à reposição da depreciação de ativos antigos, limitando a expansão efetiva das redes de serviços. Em 2025, a consultoria estima investimentos de R$ 277,9 bilhões, o que representaria uma queda relativa para 2,19% do PIB.

Dependência rodoviária persiste e portos seguem ineficientes

O setor de transportes concentra o maior hiato de modernização do país. Com R$ 90 bilhões em investimentos ao longo de 2025, o segmento destinou mais da metade dos recursos (R$ 46,4 bilhões) ao modal rodoviário, segundo cálculos da Inter.B.

O Brasil concentra o escoamento de sua safra e produção industrial em uma malha rodoviária federal com pouco mais de 65,7 mil quilômetros pavimentados. Desses, apenas cerca de 14 mil estão concedidos à iniciativa privada.

A fragilidade das vias administradas pelo poder público eleva o consumo de combustível, o custo dos seguros e o desgaste das frotas. Como resposta, o governo federal estabeleceu a meta de realizar até 36 leilões rodoviários até o fim deste ano, movimento que inclui a recente concessão da Rodovia Fernão Dias, entre São Paulo e Belo Horizonte.

Na ponta final da cadeia logística, a infraestrutura portuária experimenta avanços com o regime de Terminais de Uso Privado (TUPs). A concessão inédita do canal de acesso ao Porto de Paranaguá (PR) foi um passo na tentativa de garantir dragagem contínua e a atracação de navios graneleiros de maior porte.

O avanço da intermodalidade esbarra, no entanto, em investimentos fluviais quase nulos — cerca de R$ 700 milhões no ano passado —, embora a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) ainda planeje novos leilões de Parcerias Público-Privadas (PPPs) para as hidrovias dos rios Paraguai e Madeira.

Nos trilhos, o cenário apresenta sinais de reação devido a contratos de renovação antecipada que forçaram aportes da ordem de R$ 17,9 bilhões em 2024. Projetos como a Ferrovia de Integração do Centro-Oeste (Fico 1) avançam capitaneados pelo capital privado.

Em nível federal, o programa Pró-Trilhos, sob o regime de autorização e lançado durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), aprovou mais de 40 projetos. Vários deles, contudo, ainda carecem de viabilidade financeira para o início das obras.

Matriz elétrica pressiona tarifas e saneamento avança

Líder na atração de capital, o setor elétrico recebeu cerca de R$ 113 bilhões em 2025. A matriz brasileira, embora sustentável, sofre com o encarecimento das tarifas causado pela rápida expansão de fontes intermitentes.

Em 2025, o fenômeno do curtailment (cortes forçados de geração) atingiu 20,6% da capacidade eólica e solar, gerando prejuízo de R$ 6,5 bilhões ao setor e expondo gargalos nas linhas de transmissão.

No campo social e ambiental, o saneamento básico ganhou tração após o novo marco legal do setor, que permitiu, por exemplo, a privatização da Sabesp (SP). O desafio agora é o “saneamento ampliado”, que inclui a desativação de quase 3 mil lixões ativos e a construção de galerias pluviais urbanas para mitigar enchentes que paralisam a economia.

Brasil investe abaixo de concorrentes globais

A situação da infraestrutura brasileira contrasta com as trajetórias de economias que deram saltos de produtividade nas últimas décadas. Durante seus períodos de expansão industrial, Coreia do Sul e China direcionaram entre 7% e 9% de seus PIBs anualmente para a construção de portos, ferrovias e parques logísticos multimodais. Na década de 1970, apoiada em forte base estrutural, a economia sul-coreana chegou a registrar crescimento de 7,8%.

Para o Brasil igualar a densidade de capital asiática e reduzir o próprio Custo Brasil, seria necessário investir entre 4% e 6% do PIB por 20 anos contínuos. O ritmo interno defasado transformou o país no terceiro maior destino de investimentos diretos da própria China, que hoje mantém 39 grandes projetos em execução no mercado nacional, focados em infraestrutura, transmissão e energia.

A reversão desse quadro impõe desafios diretos ao poder público. Com a dívida pública federal estimada em R$ 8,63 trilhões e estatais como os Correios amargando déficits de até R$ 8,5 bilhões, o Estado perdeu a capacidade de atuar como principal financiador da infraestrutura brasileira.

Insegurança jurídica ainda afasta investimentos

“Nosso problema de infraestrutura não é uma questão de programa, mas de agenda”, avalia o economista Claudio Frischtak, presidente da consultoria Inter.B. Para ele, a solução passa por contornar “a tendência da nossa economia política de não sair do lugar”.

A convergência em direção à modernização depende ainda, na avaliação do economista, da estabilidade dos contratos e da ampliação de Parcerias Público-Privadas (PPPs). O avanço exige blindar as agências reguladoras contra interferências políticas e loteamentos de cargos, retomar o planejamento técnico de longo prazo e garantir o respeito às decisões judiciais.

“É de fundamental importância impedir a captura do processo regulatório por agentes políticos. Essa ingerência política desacredita as instituições essenciais para a provisão privada de serviços de infraestrutura em economias de mercado em bases eficientes, gerando equilíbrio entre consumidores e firmas”, descreve Frischtak, em relatório.

No documento, o economista também defende a necessidade de atualizar a atuação das agências e reduzir o peso da carga regulatória por meio da reavaliação do impacto de normas e decisões. Barreiras à entrada de investimentos e projetos em infraestrutura, segundo ele, devem receber atenção especial. Da mesma forma, seria necessário avaliar simplificações nas estruturas administrativas e organizacionais, com o objetivo de aperfeiçoar a regulação das atividades do setor.

Segundo Frischtak, a insegurança jurídica é outro fator que dificulta a injeção maciça de capital privado necessária para pavimentar a expansão econômica e social do país. “Seria desejável, na esfera do Judiciário, acelerar e dar precedência à revisão de decisões monocráticas pelos colegiados, para fortalecer a estabilidade do direito”, afirma.

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