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O eleitor que deixou de votar passou a ser o foco nas estratégias das campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de Flávio Bolsonaro (PL) neste segundo turno. Levantamento do Instituto Brasileiro de Estudos Políticos e Sociais (Ibeps) aponta que a abstenção para presidente da República no primeiro turno das eleições 2026 foi maior em áreas de menor renda.
Isso ocorreu em 61,5% dos 1.170 municípios analisados na pesquisa, que cruzou resultados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por seção com dados de renda dos censos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O estudo divide os locais de votação de cada cidade em cinco faixas, conforme a renda do entorno.
Nas áreas mais pobres, a abstenção para presidente foi de 21,3%, contra 20,3% nas mais ricas. No estado de São Paulo, a diferença foi maior: 23,4% nos locais de menor renda contra 22,1% nos de renda mais elevada — esta inversão é inédita na série do estudo, iniciada em 2006.
A partir daquele ano e até 2022, as áreas mais ricas sempre tiveram abstenção maior que as mais pobres. Neste recorte das áreas consideradas pelo levantamento como as mais pobres do estado de São Paulo, Lula e Flávio terminaram o primeiro turno com, respectivamente, 45,2% e 45,5% dos votos válidos — vantagem de 0,3 ponto percentual para o candidato do PL.
Em contraponto, há quatro anos, o petista tinha 8,9 pontos percentuais de vantagem sobre Jair Bolsonaro (PL) nessas mesmas áreas, com 49,6% contra 40,7%.
Consultor político associa abstenção a insatisfação e endividamento
Para o consultor político Gaudêncio Torquato, professor da Universidade de São Paulo (USP), os dados da pesquisa combinam com os indicadores econômicos recentes do país, como a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic).
Realizada pela Confederação Nacional do Comércio (CNC), a Peic apontou recordes históricos de endividamento em 2026. De acordo com o último dado disponível, em setembro, 81,7% das famílias estavam endividadas. Entre as que ganham até três salários mínimos, o índice chegou a 84,6%.
"Quanto mais indignação, quanto mais insatisfação, menos vontade o eleitor tem de ir às urnas. Esse número reflete a desesperança do eleitor, a sensação de que tudo é do mesmo jeito e que os políticos prometem muito, mas não fazem", disse Torquato.
Quanto mais insatisfação, menos vontade o eleitor tem de ir às urnas.
Gaudêncio Torquato, consultor político
O consultor político afirmou também que as dificuldades econômicas contribuem para a abstenção eleitoral. "Quanto menos dinheiro no bolso a pessoa tiver, maior a distância das urnas. Ficar em casa é também uma economia", complementou.
Torquato lembrou a equação "bo-ba-co-ca". "Bo" é usado para explicar o comportamento do eleitor e remete a bolso cheio. "Ba" diz respeito à barriga satisfeita. Ambos levam ao "co", que significa coração agradecido, e ao "ca", de cabeça, que opta pelos candidatos que proporcionam os itens anteriores.
Campanhas de Lula e Flávio tentam reduzir abstenção no 2º turno
Nestes 21 dias que separam o primeiro do segundo turno, as campanhas de Lula e de Flávio Bolsonaro têm feito esforços para incentivar o eleitor a sair de casa e ir votar.
"Vamos ter que convencer as pessoas que não foram votar a votar, a pessoa que tem mais de 70 anos transformar o voto numa questão de honra", disse Lula em caminhada de campanha entre Juazeiro (BA) e Petrolina (PE), na terça-feira (20). O pedido tem sido repetido em eventos pelo país.
A campanha de Flávio Bolsonaro se empenha em manter o engajamento de quem foi às urnas no primeiro turno, com ênfase em estados onde a eleição para governador já foi definida, como é o caso de São Paulo. Em Natal, no último dia 9, o coordenador da campanha do PL, senador Rogério Marinho (PL-RN), afirmou que a estratégia até o segundo turno seria "cada estado fazer o seu trabalho de manter a mobilização (…) e de sensibilizar aqueles que não vieram votar, diminuir a abstenção, principalmente daqueles que votam conosco."
A campanha de Flávio Bolsonaro conta com o "bloquinho do 22", mobilização liderada pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) em diversas cidades do país, com carro de som e jingles de campanha tocados em clima de carnaval.
De acordo com levantamento da Gazeta do Povo com base nas agendas da campanha, desde o dia 5 de outubro, Flávio Bolsonaro esteve em São Paulo em pelo menos quatro dias, mais do que em qualquer outro estado. Lula, por sua vez, fez dois atos na capital paulista e deve encerrar a campanha na cidade.
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