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Uso político da religião

Fake news sobre Aparecida frustra esquerda e tem baixo impacto nas eleições

Flávio Bolsonaro durante missa na Catedral de Brasília neste 12 de outubro: fake news teve impacto reduzido.
Flávio Bolsonaro durante missa na Catedral de Brasília neste 12 de outubro: fake news teve impacto reduzido. (Foto: Charles Vieira/Campanha Flávio Bolsonaro)

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O baixo impacto eleitoral dos falsos boatos sobre Nossa Senhora Aparecida em 2026 no Brasil ilustra que as fake news têm sido superestimadas como fator decisivo das eleições, na avaliação de analistas — pondo em dúvida a principal premissa que tem embasado movimentos de censura ao redor do Ocidente nos últimos anos.

No fim de setembro, viralizaram nas redes sociais boatos infundados sobre supostas movimentações para que o candidato Flávio Bolsonaro (PL), evangélico, se eleito presidente, removesse o título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida, venerada pela maioria católica do país.

Nas campanhas, havia a expectativa de que o boato prejudicasse o desempenho de Flávio Bolsonaro, que, assim como seu pai antes dele (Jair Bolsonaro, candidato em 2018 e 2022), sempre teve maior dificuldade em conquistar o eleitorado católico, em comparação com o evangélico.

No entanto, as pesquisas eleitorais foram inconstantes em refletir o impacto do caso nos números e, após a votação, os dados divulgados pelo TSE sinalizam, em sentido contrário, que Lula tenha perdido apoio entre os católicos em comparação com 2022.

Ampla difusão do boato

O falso boato sobre a padroeira se distingue das fake news de eleições anteriores por ter tido apoio acima do comum de instituições e figuras públicas tradicionais em sua propagação.

No início, a afirmação chegou a ser difundida na GloboNews (que mais tarde se retratou) e por figuras de destaque, como o humorista Antonio Tabet. 

O caso foi explorado eleitoralmente de forma intensiva pelo presidente Lula, que chegou ao ponto de erguer estatuetas de Nossa Senhora em comícios.

No Legislativo, os deputados governistas Rogério Correia (PT-MG) e Chico Alencar (PSOL-RJ) chegaram a reagir ao boato protocolando projeto de lei para reconhecer os ritos de veneração a Nossa Senhora Aparecida como patrimônio cultural imaterial do Brasil.

Já o Judiciário teve papel de mão dupla: por um lado, o TSE (presidido por Kassio Nunes Marques e tendo André Mendonça como relator do caso, ambos nomeados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro) atendeu a pedido de Flávio e ordenou a remoção em massa de publicações associando o candidato a planos de remover o título de padroeira. Por outro lado, o ministro Flávio Dino, do STF (indicado por Lula), chegou a dar decisão para manter as publicações no ar e, mais tarde, instaurou inquérito de ofício para apurar suposta “onda de ataques” a imagens de Nossa Senhora pelo Brasil, baseada em seleção de matérias de imprensa, em ato visto como tendente a reforçar eventual impressão do eleitorado de que houvesse movimento de hostilidade contra a padroeira.

Baixo impacto mensurável

Mesmo com a ampla exposição e o apoio das instituições tradicionais para a difusão, o boato acabou tendo pouco impacto eleitoral. 

Segundo análises das empresas de inteligência de dados Palver, Bites e Tunad, divulgadas pela Folha de São Paulo, os boatos sobre a padroeira chegaram a ter picos altos de engajamento, mas desproporcionalmente concentrados na rede social X (antigo Twitter), que é popular entre usuários politizados, mas tem baixa penetração no eleitorado como um todo. Em declaração à Folha, o presidente da Palver, Felipe Bailez, chegou a especular que o perfil político do X possa ter levado a campanha de Lula a erro, ao superdimensionar o alcance dos boatos entre os eleitores católicos.

Pedro Burgos, professor do mestrado em Jornalismo de Dados no Insper, explica que é difícil medir efeitos eleitorais através de dados, porque o voto é secreto: “A gente não sabe como pessoas votam, e sim que municípios mais ou menos católicos votaram de um jeito X.”

Nesse sentido, Burgos analisou quantos votos Lula ganhou ou perdeu em cada município, em comparação com a eleição de 2022 (na qual também era candidato), e chegou a um resultado contraintuitivo: em regra, quanto mais católica é a população de um município, mais votos Lula perdeu. 

Quanto aos evangélicos, o resultado foi o contrário: nos municípios com forte presença evangélica, embora Lula tenha perdido votos, perdeu menos do que nos municípios em que os evangélicos são mais raros. 

Para Burgos, esses resultados são “indício de que a fake de Nossa Senhora Aparecida não chegou tão longe quanto alguns ‘analistas’ prometeram”.

Efeito das fake news é superestimado

Para Burgos, não se trata de um caso isolado: o professor considera que, de forma geral, as fake news fazem muito menos diferença nas eleições do que se tende a pensar. 

A opinião de Burgos é contramajoritária. Com base na opinião de 1.490 lideranças e estudiosos, o “Relatório de Riscos Globais 2024” do Fórum Econômico Mundial proclamou a “desinformação” como o maior risco a ser enfrentado pela humanidade nos 2 anos seguintes — acima até mesmo de problemas econômicos, catástrofes ambientais ou conflitos armados.

Em 2018, após a derrota de Fernando Haddad (PT) para Jair Bolsonaro (PSL) no primeiro turno da eleição presidencial, a então presidente do PT, Gleisi Hoffmann, chegou a proclamar que as eleições estariam agora sendo decididas pelas fake news no WhatsApp.

A tese não foi inócua: desde então, no Brasil, passaram a estar no centro do debate esforços políticos e jurídicos para reprimir a desinformação em nome da proteção da democracia. Meses após a eleição, em 2019, foi instalada no Congresso a “CPI das Fake News” e, no STF, o Inquérito das Fake News (que dura até hoje). Em 2023, quando o PT voltou à presidência, o Executivo se uniu aos esforço e criou por decreto, logo no primeiro dia da presidência um novo órgão destinado a combater a desinformação: a “Procuradoria Nacional de Defesa da Democracia”. Também em 2023, o governo apoiou no Congresso, sem sucesso, o “PL das Fake News”, que acabou sendo abandonado diante da resistência dos parlamentares de oposição. Mas as regras rejeitadas acabaram sendo impostas via Judiciário por resolução do TSE.

O fenômeno não é restrito ao Brasil, e chegou ao país por influência de desenvolvimentos políticos e intelectuais em outros países — apesar de ter atingido no Brasil a sua forma mais radical, levando o jornal americano The Washington Post a chamar o país sul-americano de “laboratório global” na repressão estatal à “desinformação”.

Dan Williams, professor de Filosofia da Universidade de Sussex, no Reino Unido, explica que esse movimento acadêmico e político ganhou popularidade a partir de 2016, quando o Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia) e Donald Trump (candidato a presidente dos EUA) ganharam no voto popular. Essas duas vitórias, associadas à direita do espectro político, foram atribuídas por muitos setores à propagação de desinformação.

“Esse campo de estudo tem sido extremamente influente, tanto científica quanto politicamente. Atrai grandes financiamentos. Tem alimentado um fluxo contínuo de publicações em revistas científicas de elite. E seus pesquisadores são consultados por governos, organizações internacionais e corporações (Google, Meta etc.) nos esforços para combater a desinformação”, enfatizou Dan Williams em um artigo de 2024.

Esse fluxo também é exemplificado, justamente, pelo Brasil: o conceito de “desordem informacional”, criado pela acadêmica americana Claire Wardle para designar de forma ampla os discursos socialmente danosos (ainda que não fossem estritamente inverídicos), foi posto em prática no Brasil. O termo foi citado por mais de um ministro do TSE no julgamento que resultou na censura de documentário da produtora Brasil Paralelo antes do lançamento.

Premissas erradas

No entanto, toda essa construção teórica, assim como os esforços políticos de censura feitos com base nelas, podem estar partindo de premissas equivocadas. Essa é a opinião de diversos estudiosos, como Burgos, Williams ou o economista comportamental Michael Thaler.

“Fake news é mais um problema de ‘demanda’ (há pessoas que ‘querem’ acreditar em determinadas coisas) que ‘oferta’ (se proibíssemos a circulação de determinadas coisas, as pessoas não acreditariam em determinadas ideias)”, resume Burgos, que afirma que essa leitura é corroborada por estudos empíricos.

Em outras palavras, mesmo que uma mentira seja difundida e fique disponível a toda a população, na maior parte das vezes ela só vai convencer quem já era partidário engajado de determinado lado político, justamente por confirmar crenças preexistentes e atender a uma vontade prévia desse tipo de pessoa por acreditar em fatos desabonadores sobre o adversário. Em comparação, os eleitores apartidários ou pendulares  — justamente quem tende a estar em disputa numa eleição — teriam menor motivação subjetiva para acreditar na falsidade e seriam mais céticos.

Esse modelo não implica dizer que as mentiras propagadas em eleição tenham efeito nulo, mas apenas que o efeito final na urna acabe sendo menor do que se poderia imaginar se a impressão fosse baseada apenas na quantidade de pessoas que recebem ou até mesmo acreditam na falsidade: o importante não é saber quantos acreditam, e sim quem.

Os boatos sobre a padroeira seriam um exemplo dessa tendência: mesmo com a narrativa falsa estando em alta oferta, propagada nacionalmente por figuras de referência — em mecanismo que lembra a “máquina de fake news” referenciada, sem provas, pela presidente do PT em 2018 —, isso teria pouca aptidão para produzir efeito, a menos que houvesse uma demandareal por partes do eleitorado em acreditar no conteúdo do que fosse dito.

No caso de 2026, parece ter havido pouca demanda preexistente da comunidade católica praticante em acreditar que a padroeira estivesse sob ameaça.     

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