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Revisitando Napoleão – o de Chesterton, não o Bonaparte

Chesterton O Napoleão de Notting Hill
G.K. Chesterton, autor de "O Napoleão de Notting Hill". (Foto: Wikimedia Commons/Domínio público)

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Sempre que olho para a seção de história da minha biblioteca, a robusta biografia de Napoleão Bonaparte, escrita por Philip Dwyer, me devolve o olhar com reprovação. Ela está ali, impaciente, esperando em vão para ser retirada da estante. É um dos numerosos pecados de omissão no que diz respeito aos livros que tenho, mas ainda não li, embora tenha toda a esperança e a intenção de fazê-lo.

Como não é possível revisitar um volume que nunca foi visitado anteriormente, o Napoleão que revisitei recentemente não foi o de Dwyer, Napoleon, mas o de Chesterton, O Napoleão de Notting Hill.

O romance de Chesterton era um dos meus grandes favoritos quando o li pela primeira vez, há mais de 40 anos, e calculo que já se tenham passado mais de 30 anos desde a última vez que o havia lido. Foi, portanto, uma experiência intrigante retornar a um livro que havia me influenciado profundamente quando eu era jovem, e vivenciá-lo novamente, de maneira nova e renovada, com olhos velhos e enrugados.

Quando jovem, eu havia me inspirado na filosofia política do localismo, ou o que Chesterton chamava de distributismo, que é um aspecto fundamental da trama do romance. Eu gostava da ideia de os moradores de Notting Hill, um pequeno bairro de Londres, poderem resistir ao poder do grande governo e das grandes empresas. Eu me inspirava em sua recusa a serem intimidados e em sua nobre resistência na luta para preservar seu modo de vida. A coragem deles me encorajava.

O Napoleão de Notting Hill tem mais a ver com a maneira como vemos a realidade do que com a maneira como vemos a política

Agora um homem velho, continuo inspirado pelo localismo e continuo admirando aquelas famílias ou comunidades locais que resistem às incursões do grande governo, das grandes empresas e das big techs. Continuo admirando os pequenos países que resistem ao imperialismo de seus vizinhos maiores, e as pequenas nações que buscam libertar-se de impérios malignos ou de “sindicatos” multinacionais. Essa soberania é a garantia da subsidiariedade, seja ela expressa nos direitos soberanos das famílias ou nos direitos soberanos das nações. No nível da filosofia política, portanto, posso ler O Napoleão de Notting Hill com os mesmos olhos de um homem velho com que o li quando era jovem.

É no nível da filosofia moral que vejo o romance sob uma nova luz. Ao revisitá-lo, percebo que a dimensão política da trama, que tanto me cativara na juventude, é na verdade apenas uma subtrama, ainda que extremamente importante. Em seu nível moral mais profundo, O Napoleão de Notting Hill tem mais a ver com a maneira como vemos a realidade do que com a maneira como vemos a política; na verdade, ele demonstra que a maneira como percebemos a realidade precede a percepção política, sendo esta última um derivado da primeira.

Em seu nível mais profundo, o livro compara e contrapõe duas percepções da realidade por meio das visões contrastantes de seus dois protagonistas principais, Auberon Quin e Adam Wayne. Quin é um cínico e relativista com grande senso de humor; Wayne é um idealista e localista sem senso de humor algum. É essa diferença de humor que os coloca em rota de colisão e que proporciona tanto a levitas quanto a gravitas da trama.

Ambientada em um futuro imaginário, 80 anos após a data de publicação do romance (em 1904), a ação ocorre, ironicamente, em 1984, título da própria fantasia política futurista de George Orwell. A Inglaterra ainda é uma monarquia, mas agora os reis são escolhidos aleatoriamente, substituindo-se o acidente hereditário do nascimento pelo acidente igualitário do acaso. Quando Auberon Quin ganha, por assim dizer, na loteria e se torna rei da Inglaterra, toda a hilaridade passa a correr solta.

Por capricho, ele decide ordenar que os representantes dos vários bairros de Londres usem trajes elaborados e fantasiosos, satirizando o passado medieval com a restauração de brasões heráldicos para cada distrito londrino. Os políticos locais entram na brincadeira para obedecer e agradar ao rei, embora não achem graça alguma naquilo.

O problema surge quando chega à cena um jovem sério que não entende a piada. Adam Wayne abraçou a restauração das principados locais promovida pelo rei Auberon como uma visão patriótica. Ele é apaixonadamente leal a Notting Hill, o bairro onde nasceu – e, portanto, sua terra natal –, e irá defendê-lo até a morte. Quando aqueles que pregam o progresso em busca de poder e lucro elaboram planos para destruir partes de Notting Hill, ele se posiciona e inspira o povo do bairro a unir-se a ele na defesa de seus lares. O princípio de Wayne é que qualquer coisa grande o suficiente para ser cobiçada pelos ricos é grande o suficiente para ser defendida pelos pobres.

Tudo isso é positivo. O problema não está nos princípios do protagonista, mas no próprio protagonista. Ele é um fanático – ainda que por uma causa digna – que envenena ou contamina esses princípios com um desdenhoso e puritano desprezo pelo riso e pelo amor dos amigos, coisas que Hilaire Belloc considerava as únicas que valiam o esforço de conquistar. Sem esse riso, sem essa amizade, qualquer vitória política é desprovida de alegria e, portanto, uma vitória de Pirro. É assim que os fanáticos se tornam tiranos. Onde, por exemplo, vemos alegria na mente de Mussolini ou humor na arrogância de Hitler? Onde encontramos esse tipo de alegria e humor na mente de Adam Wayne, o Napoleão de Notting Hill?

Assim como Adam Wayne, eu era um fanático sem alegria, entregando minha vida àquilo que considerava uma causa nobre

Ao revisitar o romance de Chesterton e reencontrar seu Napoleão, percebi que também me faltavam o riso e o amor dos amigos de que eu desfrutara quando li o romance pela primeira vez. Assim como Adam Wayne, eu era um fanático sem alegria, entregando minha vida àquilo que considerava uma causa nobre. Agora amadureci e finalmente posso encontrar e conhecer o Napoleão de Notting Hill mais velho e mais sábio, tal como ele se reconcilia com Auberon Quin no final do romance.

Finalmente, Wayne compreende que “não existe verdadeira oposição entre o riso e o respeito”. Ele diz a Quin que o idealismo do “fanático puro” e o cinismo do “satirista puro” são ambos necessários em tempos de decadência e trevas. Wayne agora entende que seu amor pelo lar precisa ser bem-humorado e cheio de alegria; Quin compreende que sua jovialidade sem alegria precisa estar aberta ao amor pelas coisas boas e nobres.

Como homem velho, gostei de revisitar Adam Wayne e Auberon Quin. Gostei disso porque agora conheço melhor a mim mesmo e, por causa disso, conheço-os melhor também. Conheço-os da maneira como eles passam a conhecer a si mesmos e um ao outro no final da história. Estou mais velho e mais sábio, graças a Deus, e posso fazer amizade com esses bons homens por meio do riso, do amor e da amizade.

Joseph Pearce é escritor, professor visitante de Literatura na Ave Maria University e pesquisador visitante no Thomas More College of Liberal Arts (Merrimack, New Hampshire).

©2026 The Imaginative Conservative. Publicado com permissão. Original em inglês: Napoleon Revisited

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