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Há uma controvérsia permanente em torno de Donald Trump ao longo da última década. Ela começou quando ele surgiu na escada rolante, em 2015, e persistiu durante a campanha eleitoral, seu primeiro mandato, os anos fora do poder e os dois primeiros anos de sua segunda administração.
O método é conhecido: Trump segue uma espécie de versão própria de A Arte da Negociação. Adota um discurso bombástico e faz declarações absurdas. Desestabiliza adversários, aliados e qualquer pessoa com quem esteja sentado à mesa de negociações. Faz exigências descabidas, provoca reações de espanto e acaba sendo duramente criticado.
As negociações, porém, continuam. Trump consegue obter alguma vantagem — talvez 52% ou 53% do que havia reivindicado originalmente — e, por fim, as partes assinam um acordo. Ao longo do processo, ele toma cuidado para não insultar seu parceiro ou adversário comercial nos termos finais do entendimento. Depois, chega até a admitir que talvez tenha sido enganado, mas sai da negociação com uma conquista singular.
É então que surgem as críticas. As pessoas analisam o resultado e ficam impressionadas, sobretudo quando se trata de americanos. Ao mesmo tempo, argumentam que o método empregado compromete o mérito da conquista.
Vejamos se essa crítica é legítima.
O Panamá
Quando Trump assumiu o cargo, empresas ligadas à China controlavam, na prática, pontos estratégicos de entrada e saída do Canal do Panamá, em uma situação que ele considerava incompatível com o tratado que rege o canal. Havia, segundo essa avaliação, planos ambiciosos de ampliar a influência chinesa sobre a passagem marítima, a ponto de colocar em risco o controle estratégico da região.
Trump protestou, elevou o tom, ameaçou intervir e tomar o canal. Disse que ele deveria voltar ao controle dos Estados Unidos.
As negociações foram interrompidas. Marco Rubio foi ao Panamá.
Enquanto isso, o Canadá continuava sendo um aliado próximo dos Estados Unidos, e toda a América Latina parecia mudar de orientação política. Das 32 nações da região, cerca de 27 — se não me engano — eram pró-americanas, capitalistas e democráticas. A chamada onda rosa havia perdido força. Restavam apenas Cuba, Brasil, México e Nicarágua entre os países considerados hostis, de orientação comunista ou socialista.
Diante desse cenário, muita gente perguntava: Trump realmente precisava ameaçar o Panamá daquela maneira?
A Groenlândia
Durante a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos assumiram a responsabilidade pela defesa da Groenlândia, preservando sua autonomia enquanto a Dinamarca, sua metrópole colonial, estava sob ocupação nazista. A Alemanha tinha interesse estratégico na ilha, que poderia servir de base para submarinos e forças aéreas capazes de ameaçar o Atlântico Norte.
Os americanos instalaram uma base, impediram que a ilha caísse nas mãos dos nazistas e a utilizaram em benefício dos Aliados. Depois da guerra, devolveram o controle à Dinamarca.
Nas décadas seguintes, especialmente após o fim da Guerra Fria, a Groenlândia e a própria Dinamarca permaneceram relativamente à margem das grandes disputas estratégicas. A questão não parecia urgente.
Trump, porém, trouxe o assunto de volta. Argumentou que a China enxerga o Ártico como uma região de importância militar crescente, tanto para suas rotas aéreas e seus mísseis quanto para a expansão de suas rotas marítimas. O controle dessas passagens poderia proporcionar a Pequim vantagens estratégicas diante dos países ocidentais, tanto nas proximidades da Europa quanto na América do Norte.
Na avaliação de Trump, os dinamarqueses não tinham capacidade para enfrentar sozinhos esse desafio. Sua conclusão foi provocadora: talvez os Estados Unidos simplesmente devessem tomar a Groenlândia.
O mundo ficou horrorizado. A Dinamarca reagiu com indignação. A Alemanha chegou a enviar oito ou nove soldados, enquanto os dinamarqueses passaram a anunciar investimentos de bilhões de dólares para ajudar os groenlandeses e até a incluir símbolos da ilha em seu brasão de armas.
Em outras palavras, a pressão começou a produzir resultados.
Trump reduziu o tom da retórica e, para surpresa de muitos, surgiu um acordo. E não se tratava de um entendimento qualquer: segundo seus defensores, era muito mais vantajoso do que o acordo anterior, de 1951.
Os europeus ficaram aliviados, pois não precisariam enfrentar sozinhos a presença de navios russos ou chineses no Ártico próximo à Groenlândia. Os Estados Unidos estariam ali para protegê-los, como aliados da OTAN.
Os groenlandeses também teriam motivos para comemorar. Não precisariam conviver com uma presença americana ostensiva em toda parte, mas poderiam receber investimentos significativos dos Estados Unidos, impulsionados pela expansão da infraestrutura militar.
A Dinamarca, por sua vez, poderia preservar sua soberania formal sobre a ilha e continuar reivindicando sua condição de potência colonial. Afinal, trata-se de uma enorme ilha situada na América do Norte, mais próxima de Nova York do que de Copenhague. Mas, tudo bem: os dinamarqueses continuariam sendo os soberanos.
A negociação havia funcionado.
A pergunta, então, é inevitável: valeu a pena toda aquela retórica bombástica, que irritou nossos aliados?
O Canadá
Todos sabem que o Canadá mantém, há muito tempo, um superávit comercial de dezenas de bilhões de dólares com os Estados Unidos — cerca de US$ 50 bilhões, imagino. Também deixou de cumprir, por duas décadas, suas metas de gastos militares no âmbito da OTAN.
Cerca de 45% de sua população é formada por imigrantes de primeira ou segunda geração. Sua economia, marcada por políticas socialistas, está estagnada e apresenta um desempenho particularmente fraco entre as economias industriais ocidentais.
As negociações comerciais avançam, mas os canadenses resistem a reduzir determinadas tarifas. Há muitas outras questões em jogo que não posso detalhar.
Trump, então, diz que gostaria de transformar Alberta, a potência canadense em recursos naturais, no 51º estado americano. Em outras ocasiões, chega a sugerir que o Canadá inteiro poderia se tornar um estado dos Estados Unidos.
Ninguém nos Estados Unidos quer isso — muito menos Trump. A última coisa que os republicanos conservadores de seu movimento MAGA desejam é incorporar um Canadá de esquerda, com 40 milhões de habitantes, que seria uma espécie de segunda Califórnia.
Mais uma vez, estamos diante da Arte do Acordo.
Quando tudo estiver resolvido e o primeiro-ministro Mark Carney tiver recebido seu Prêmio Nobel — ou qualquer outra distinção que deseje —, o resultado deverá ser um acordo comercial. Afinal, cerca de 80% do comércio canadense é realizado com os Estados Unidos.
O Canadá terá de encontrar maneiras de evitar que seu superávit comercial e suas exportações de petróleo acabem contribuindo para que a China contorne as tarifas americanas. Isso inclui impedir que metais chineses baratos sejam usados na fabricação de produtos canadenses destinados ao mercado americano com o objetivo de driblar as barreiras comerciais.
Os canadenses também deverão eliminar a exigência de que 5% das receitas de determinadas empresas de mídia digital sejam destinados à produção de conteúdo local, voltado ao público canadense ou produzido em francês. E haverá um acordo. É provável, ainda, que o Canadá amplie suas compras de produtos agrícolas americanos.
O resultado será positivo para os Estados Unidos. Também servirá para trazer o Canadá de volta à realidade e lembrar aos canadenses que, embora sejam um povo admirável, seus líderes adotaram um paradigma socialista, prejudicaram a economia e não aproveitaram plenamente a enorme riqueza de recursos naturais do país.
A OTAN
Quando Trump assumiu a Presidência, em 2017, apenas seis países da OTAN cumpriam a meta de gastar 2% do PIB com defesa. O compromisso havia sido discutido informalmente em 2006 e formalizado alguns anos depois.
Essa meta, aliás, nem sequer contabilizava integralmente os custos indiretos da enorme estrutura militar americana que beneficia a aliança, como logística, inteligência, projetos de uso dual e construção conjunta de bases.
Os aliados, porém, não avançavam no cumprimento do compromisso. Barack Obama ficou tão frustrado que chegou a chamá-los de free riders, ou seja, países que aproveitam os benefícios da proteção americana sem pagar sua parte.
Trump assumiu uma postura ainda mais agressiva. Ameaçou retirar os Estados Unidos da OTAN e deixou claro que não continuaria aceitando aquela situação indefinidamente.
Quando deixou o cargo, quase todos os membros da aliança haviam mudado de posição. O cenário se invertera: em vez de apenas seis países cumprirem a meta, restavam apenas cinco ou seis que ainda não a alcançavam.
Ao voltar à Presidência, Trump retomou a cobrança. Em essência, disse aos aliados: vocês precisam cumprir suas obrigações. Durante minha ausência, a Rússia invadiu a Ucrânia. Eu havia alertado contra o acordo para a construção do gasoduto Nord Stream, que ajudaria a financiar o aparato militar russo, mas vocês seguiram adiante. Também pedi que se rearmassem, e vocês não fizeram o suficiente. Agora estão tentando corrigir isso, mas já perderam tempo demais.
Trump passou, então, a exigir que os países da aliança destinassem 5% do PIB à defesa.
E os aliados começaram a aceitar essa nova meta.
Qual é, mais uma vez, o tema central? Trump não poderia ter sido mais educado, como Obama ou Biden? Talvez. Mas nenhum dos dois conseguiu fazer a OTAN cumprir sequer a meta anterior, que era importante para a própria aliança.
Os resultados justificam os métodos?
O que quero dizer com tudo isso?
Ao olhar para os resultados, os defensores de Trump apontam para uma América Latina na qual a influência chinesa e russa teria perdido espaço. O Canadá vê crescer a insatisfação popular com seu primeiro-ministro, e muitos canadenses começam a questionar as políticas adotadas pelo governo. Dizem que é preciso rever a política de imigração, as regras de eutanásia, o radicalismo ambiental e o socialismo.
Veremos o que acontecerá.
Os groenlandeses estariam satisfeitos com os termos do acordo. A OTAN estaria mais forte do que nunca. E, pela primeira vez em muito tempo, haveria uma possibilidade concreta de a América Latina ser formada majoritariamente por governos alinhados ao Ocidente, com orientação política consensual e condições muito melhores do que aquelas associadas aos modelos cubano, brasileiro ou nicaraguense.
Valeu a pena? Cada um pode tirar sua própria conclusão.
Donald Trump polarizou muita gente com seu discurso agressivo. Mas a pergunta que fica é esta: você prefere um líder abrasivo, que fala de maneira provocadora, mas consegue alcançar resultados como esses, ou alguém de discurso suave e conciliador, como Barack Obama ou Bill Clinton, que, segundo essa interpretação, não conseguiu obter conquistas comparáveis?
Afinal, os resultados reivindicados por Trump não beneficiariam apenas os Estados Unidos, mas também a aliança ocidental como um todo.
Victor Davis Hanson é colaborador sênior do Daily Signal, onde apresenta um podcast, produz comentários em vídeo e escreve uma coluna semanal. É autor de “The Counterrevolution The Fall and Rise of Donald Trump and the MAGA Movement.”
©2026 The Daily Signal. Publicado com permissão. Original em inglês: The Genius Behind Trump’s Art of the Deal



