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Depoimento secreto

Vorcaro diz que sofreu pressão para não delatar diretor da PF e membros do governo

Vorcaro tratava pagamentos ao escritório de Viviane Barci como prioridade e determinava urgência e sigilo nas operações.
Vorcaro tratava pagamentos ao escritório de Viviane Barci como prioridade e determinava urgência e sigilo nas operações. (Foto: SAP-SP/EFE)

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No depoimento secreto prestado na quinta-feira (27) a um juiz auxiliar do ministro André Mendonça, Daniel Vorcaro afirmou ter sofrido intimidações e maus-tratos na prisão e disse que teria sido pressionado para não incluir em uma eventual colaboração premiada nomes de integrantes do governo.

Entre os mencionados pelo ex-controlador do Banco Master está o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, com quem ele disse ter tido uma relação cordial e de encontros em eventos. Ele também apontou que teria sido pressionado para não mencionar pessoas ligadas ao governo que teriam dado sustentação ao esquema do Master. Não há registros da formalização desses nomes.

A informação sobre a audiência secreta foi publicada pelo jornal Estadão e confirmada pela Gazeta do Povo. A reportagem confirmou que Vorcaro teria afirmado ao juiz auxiliar que gostaria de ter falado diretamente a Mendonça e que teria sido impedido de mencionar, em suas propostas rejeitadas de delação, integrantes do atual governo.

A oitiva ocorreu justamente na data em que Vorcaro deveria prestar depoimento à Polícia Federal em outro procedimento relacionado ao caso Master. A audiência com a PF, que seria realizada por videoconferência, acabou não acontecendo depois de a Polícia Militar do Distrito Federal, responsável pela custódia de Vorcaro no Complexo da Papuda, informar a existência de uma suposta falha técnica na chamada.

Um dos advogados de Vorcaro, que em tese não saberia do depoimento a Mendonça, chegou a entrar de forma remota na sala onde ocorreria a audiência com a PF.

Enquanto a PF aguardava a realização da videoconferência, Vorcaro era ouvido pelo juiz auxiliar de Mendonça em uma audiência marcada a pedido de um dos advogados que passaram a integrar recentemente sua defesa.

A coincidência de datas e horários provocou reação da Procuradoria-Geral da República (PGR) e aumentou a tensão com a cúpula da PF. A defesa havia solicitado que Vorcaro fosse ouvido com urgência pelo gabinete depois de relatar supostas intimidações no sistema prisional quando estava custodiado no sistema federal e pela Polícia Federal. A Gazeta do Povo procurou Andrei Rodrigues, o Ministério da Justiça e a Polícia Federal e aguarda retorno.

Depoimento ocorreu sem a presença da PF

A audiência com o gabinete de Mendonça foi realizada com a participação de um procurador do Ministério Público, sem agentes da Polícia Federal. O procedimento ficou sob responsabilidade de um juiz auxiliar de Mendonça e foi tratado com sigilo. A gravação teria sido armazenada em um dispositivo externo, fora da rede, com o objetivo de restringir o acesso ao conteúdo.

A própria defesa optou por não receber uma cópia sob a preocupação de que, caso o vídeo fosse posteriormente divulgado, pudesse haver uma tentativa de atribuir o vazamento aos advogados. O representante da PGR presente na audiência registrou em ata que comunicaria o conteúdo do depoimento ao Procurador-geral da República, Paulo Gonet.

A Procuradoria só teria sido informada sobre a audiência na noite anterior, por volta das 22h de quarta-feira (26). A forma como o depoimento foi organizado e a comunicação feita à PGR foram alguns dos pontos que teriam provocado insatisfação entre os procuradores.

O episódio gerou polêmica porque enquanto a PF aguardava a audiência previamente prevista, Vorcaro prestava depoimento reservado ao gabinete de Mendonça. O ex-banqueiro havia manifestado interesse em apresentar novos relatos relacionados às circunstâncias de sua prisão e às negociações em torno de uma possível delação premiada.

Vorcaro disse que foi pressionado sobre eventual delação

Durante a audiência, Vorcaro afirmou que sua intenção de colaborar com as autoridades envolvia delatar pessoas ligadas ao atual governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo ele, a inclusão desses nomes teria relação com uma tentativa de Vorcaro se proteger diante de ataques que dizia estar sofrendo antes da liquidação do Banco Master.

O ex-banqueiro afirmou que algumas situações teriam ultrapassado aquilo que considerava aceitável e que pretendia relatá-las. Foi nesse contexto que teria citado Andrei Rodrigues.

Vorcaro disse que o diretor-geral da PF teria mantido uma relação anterior com ele e participado de eventos ligados ao banco. Ao ser questionado sobre a natureza desse relacionamento, classificou-o como cordial e mencionou encontros familiares e convites para eventos.

Questionado se incluiria Rodrigues em uma eventual colaboração premiada, Vorcaro teria respondido afirmativamente. Segundo ele, o diretor-geral estaria inserido no contexto das relações que desenvolveu antes das investigações envolvendo o Master.

O ex-banqueiro, entretanto, não apresentou provas que comprovassem irregularidades cometidas por Rodrigues. Também não detalhou datas, locais ou circunstâncias específicas que pudessem, por si só, demonstrar a ocorrência de ilícitos.

Vorcaro disse que temeu ser jogado de helicóptero

Uma parte importante do depoimento foi dedicada às condições que Vorcaro afirma ter enfrentado durante sua prisão e nos deslocamentos entre unidades prisionais.

O ex-banqueiro relatou que, durante uma transferência de São Paulo para Brasília, teria permanecido durante horas em um espaço que descreveu como extremamente fechado e sem ventilação. Segundo ele, ficou em um compartimento pequeno, com calor e dificuldade para respirar.

Vorcaro afirmou ainda ter ouvido de um agente uma frase que interpretou como uma ameaça relacionada à possibilidade de falar sobre pessoas consideradas superiores na estrutura investigada. Em outra transferência, disse ter escutado uma advertência semelhante, associando eventuais consequências à decisão de “mexer com os patrões”.

O ex-banqueiro também relatou ter sido transportado de helicóptero com os olhos vendados e que agentes teriam feito comentários intimidatórios durante o deslocamento. Um deles teria sugerido que seria possível jogá-lo da aeronave.

Vorcaro também descreveu as condições que afirma ter enfrentado após chegar a unidades prisionais. Segundo ele, na penitenciária federal em Brasília permaneceu em uma cela com a luz ligada continuamente e ficou vários dias sem contato com advogados.

Afirmou ainda que, ao chegar à unidade, teria sido questionado sobre a preferência entre ficar em um pavilhão associado ao Comando Vermelho ou ao Primeiro Comando da Capital.

Em outro episódio, já nas dependências da PF, Vorcaro disse ter permanecido em uma cela de trânsito e passado um dia sem comida e água. Ao descrever o período de prisão, afirmou ter sofrido o que classificou como tortura psicológica.

Nenhuma ordem foi atribuída diretamente a uma autoridade

Durante a audiência, o juiz teria questionado Vorcaro sobre quem teria determinado as supostas intimidações. O ex-banqueiro não apontou diretamente uma autoridade como responsável.

Quando questionado se algum delegado da PF o havia ameaçado pessoalmente, Vorcaro respondeu que não. Também negou ter recebido ameaças diretamente da PGR.

O ex-banqueiro afirmou ainda que sua família também teria sido alvo de intimidações. A defesa se comprometeu a apresentar evidências dessas alegações no processo.

A defesa de Vorcaro também teria solicitado que ele tivesse uma nova oportunidade para negociar uma eventual colaboração premiada. A estratégia provocou resistência na PGR. O órgão já havia analisado propostas de colaboração apresentadas por Vorcaro e rejeitado. Segundo a avaliação dos investigadores e procuradores, o ex-banqueiro não teria apresentado informações novas acompanhadas de elementos suficientes para justificar um acordo.

A PGR também demonstrou descontentamento com a forma como a nova tentativa foi apresentada. Na avaliação de bastidores do órgão, a iniciativa do advogado teria contornado as negociações anteriores e buscado diretamente o gabinete do relator.

PGR rejeita os relatos e pede arquivamento

A reação de Gonet foi quase imediata. Na quarta-feira (2), a PGR se manifestou pelo arquivamento do procedimento relacionado aos relatos apresentados por Vorcaro.

Gonet considerou que o depoimento não apresentou elementos concretos capazes de sustentar as afirmações feitas pelo ex-banqueiro. Na avaliação da Procuradoria, faltariam informações objetivas que permitissem identificar fatos específicos e juridicamente delimitados.

O procurador-geral também argumentou que Vorcaro não necessariamente conhece todas as provas já reunidas pelos investigadores e que acontecimentos que o ex-banqueiro considera novos poderiam já fazer parte do material em posse das autoridades.

O depoimento também expôs uma divisão dentro da própria defesa de Vorcaro. A iniciativa de levar o ex-banqueiro ao gabinete de Mendonça teria sido apresentada por um dos advogados sem a assinatura dos demais que já acompanhavam o caso.

A estratégia foi interpretada como uma iniciativa individual de um novo defensor, que teria identificado uma oportunidade de levar diretamente ao relator informações sobre supostas pressões sofridas por Vorcaro.

A defesa informou que não comentaria o conteúdo da audiência. Mendonça confirmou que houve a tomada do depoimento. Para juristas, o ponto mais sensível do depoimento é justamente a alegação de que haveria uma tentativa de impedir que determinados nomes fossem incluídos em uma eventual delação.

Para o criminalista Márcio Nunes, se Vorcaro citou especificamente o diretor da PF, mas não atribuiu diretamente a ele qualquer ordem de ameaça ou constrangimento, então caberia às autoridades avaliar se há elementos capazes de confirmar ou afastar os relatos apresentados pelo ex-banqueiro.

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