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“Eu sou o maior orador da minha geração no mundo.” Foi assim que Renan Santos se apresentou à Economist. A revista britânica achou graça, mas levou a sério: comparou Renan a Javier Milei e apresentou como a voz liberal que a direita brasileira esperava desde o declínio do bolsonarismo.
A matéria foi publicada segunda de manhã. Segunda à tarde, a Economist já tinha trocado o título, de "aposta ousada da direita" para "o candidato que as autoridades brasileiras tentam banir".
Foi nesse intervalo que um ministro do TSE suspendeu a campanha inteira de Renan Santos, e foi isso que me colocou na posição de defender o direito de disputar eleição de um candidato em quem eu nunca votaria.
E pra entender o porquê, melhor perguntar: será que a Economist sequer leu o Livro Amarelo, plano de governo de que Renan tanto se orgulha?
Porque é ali que um candidato revela como enxerga o país e o que pretende fazer com o poder. É a partir dessas ideias que se decide se o governo deve cobrar mais imposto, controlar empresas, regular jornais ou limitar o que as pessoas podem fazer com a própria vida.
O candidato que a Economist apresenta como liberal trata o liberalismo de Smith, Hayek e Friedman como uma visão simplista. Para Renan, essa defesa da liberdade promete milagres onde existem apenas desafios operacionais. O liberal da Economist não acredita no liberalismo.
E, para quem se identifica com o lado conservador da direita, vale prestar atenção no que Renan escreve sobre ele no Livro Amarelo: “Do lado mais conservador do espectro político, teorias da conspiração floresciam sem respaldo na realidade concreta.”
Não dá para criticar a concentração de poder em um plano de governo e aceitar o excesso de poder na caneta de um ministro.
Enquanto rejeita as ideias de liberais e conservadores, deixa claro quem admira: Getúlio Vargas. Sim, o ditador que fechou o Congresso, revogou a Constituição e governou o Brasil por oito anos sem eleição presidencial.
A primeira parte do plano de governo se chama “Estado Novo”, o mesmo nome do regime implantado por Vargas em 1937.
Nesse período Vargas fechou o Legislativo, governou por decretos, dissolveu os partidos, substituiu governadores eleitos por interventores escolhidos por ele e submeteu a imprensa à censura. Foi assim que o Estado brasileiro ganhou a forma centralizadora, corporativista e sufocante que cobra seu preço até hoje.
Renan elogia Getúlio por ter “forjado o Brasil industrial e moderno”, afirma querer fazer “algo similar” e promete “sepultar a Nova República”.
E a marca autoritária segue: o Livro Amarelo propõe regulamentar a imprensa e criar um “Código Unificado” para “disciplinar o setor”.
Também prevê um “Comissariado Federal de Gestão Pública”, com comissários federais fiscalizando prefeituras em tempo real. Pela “Cláusula Antimáfia”, o STJ poderia extinguir mandatos de uma cidade e colocá-la sob gestão federal por até 24 meses. O fundo partidário e eleitoral passaria a depender de indicadores definidos pelo próprio governo federal.
E cria o “crime de favelização”, com demolições em 48 horas, sem ordem judicial, e monitoramento mensal por satélite das cidades. A tecnologia que o INPE usa contra o desmatamento seria voltada para dentro dos bairros.
E o que mais assusta, apesar de tudo, não é o que está nas páginas do plano. É o que está no discurso de que eles são "os escolhidos". Há um tom quase divino, como se Renan tivesse recebido de Deus o direito de ocupar o trono, à moda do Rei Leopoldo II.
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Como em um vídeo de um homem apresentado como marqueteiro do MBL comparando Jesus Cristo e seus doze discípulos ao legado que o movimento poderia deixar para o futuro. Sim, Jesus Cristo.
E em uma entrevista com o vice de Renan, o coronel Aroldo Medina, no Sem Rodeios, aqui da Gazeta do Povo. Perguntado sobre a falta de diploma do presidenciável, que abandonou o curso de Direito da USP, Medina, ao falar de Renan, se emocionou. Chorou. E disse que estaria disposto a morrer por Renan Santos.
Que ele é um bom orador, isso todo mundo sabe. Mas a história está cheia de homens que falavam bem demais e usaram esse talento para convencer multidões a aceitar coisas desastrosas.
Mas combater ideias autoritárias exige coerência. Não dá para criticar a concentração de poder em um plano de governo e aceitar o excesso de poder na caneta de um ministro.
Dias Toffoli suspendeu a campanha digital de Renan Santos.
Juristas foram praticamente unânimes em chamar a decisão de aberração. Dentro do próprio TSE houve contraponto de ministros que defendem que mesmo se a omissão fosse intencional, a punição cabível seria multa, e, jamais, suspensão de campanha inteira.
Felizmente a decisão não durou nem 24 horas. Publicada na segunda-feira, foi derrubada pelo próprio Toffoli na terça. Um ministro reconhecendo, na prática, que tinha ido longe demais.
Não tenho interesse em proteger Renan Santos. Não voto no seu projeto, não compartilho suas referências, me assusta o culto em torno dele.
Mas rejeitar um candidato é uma coisa. Aceitar que um ministro, sozinho, decida quem merece disputar a eleição é outra.

Anne Dias é advogada, mestranda em Ciência Política pela UFPR, comentarista e colunista da Gazeta do Povo. Tem trajetória em instituições no Brasil e no exterior dedicadas à promoção da liberdade, com experiência em Washington, D.C. É fundadora do Instituto Amplifica, iniciativa voltada à formação de vozes em defesa da liberdade no debate público. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



