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“Lá dentro, em volta de uma mesa grande, estavam sentados meia dúzia de granjeiros e meia dúzia de porcos dentre os mais eminentes, Napoleão no lugar de honra, à cabeceira. Os porcos pareciam perfeitamente à vontade em suas cadeiras. O grupo estivera jogando cartas, mas havia interrompido o jogo por instantes, evidentemente para os brindes. Ninguém notou as caras admiradas dos bichos, que espiavam pela janela.”
Assim George Orwell escreve no último capítulo da fábula “A Revolução dos Bichos” (Animal Farm), publicada há 81 anos. Muitos veem a obra de Orwell apenas como uma alegoria da Revolução Russa de 1917 e identificam seus principais personagens — os porcos — com os principais líderes comunistas — Lênin, Stálin e Trotsky. No entanto, o que Orwell pretendeu com seu pequeno livro — uma leitura indispensável para qualquer terráqueo do nosso tempo — foi retratar metaforicamente todo e qualquer processo revolucionário de tomada do poder. Ali está o destino de todas as revoluções políticas. E o Brasil não foge a essa regra.
Olavo de Carvalho sempre dizia que a realidade política sempre reproduz algo que já estava na literatura — ou seja, no imaginário cultural da humanidade. Nesta semana, os ministros do Supremo Soviete Federal foram flagrados reproduzindo quase que literalmente a última cena do livro de Orwell:
“As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco.”
A gargalhada de Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes, Cristiano Zanin e Edson Fachin, captada pelas lentes de um fotógrafo pelas frestas de uma janela do STF, é a imagem do pesadelo que estamos vivendo no Brasil. Enquanto o povo brasileiro padece com os cinco C’s diabólicos — crime, corrupção, custo de vida, carga tributária e censura —, eles dão risada de nossa cara.
É uma gargalhada na escuridão. A nossa escuridão. É uma mensagem clara para que continuemos calados, trabalhando e pagando nossos impostos, enquanto os porcos, ou melhor, os chefes, seguem sugando as últimas forças vitais do país e cometendo crimes em série.
Porque, ao fim das contas, “todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros”.
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Paulo Briguet é escritor, jornalista, palestrante e professor de literatura. Trabalhou em diversos jornais, revistas e assessorias de comunicação no Paraná. Foi colunista da Folha de Londrina e editor-chefe do jornal Brasil Sem Medo. Publicou diversos livros, dentre eles: “Nossa Senhora dos Ateus”, "Coração de mãe", “O Mínimo sobre Distopias” e “Diário de Moby Dick”. Já escreveu mais de 2 mil crônicas. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



