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Ontem, em meio àquele turbilhão de notícias, me lembrei da famosa imagem de Alexandre de Moraes com seu relógio de R$600 mil. Na época, dei uma filosofada em cima do acessório, me perguntando e perguntando aos leitores da Gazeta do Povo por que um ministro que ganhava R$45 mil por mês ostentava um relógio caríssimo daqueles. Orgulho, claro. O relógio que, tanto para um banqueiro quanto para um vagabundo, mostra a mesma coisa: o tempo está passando. E, se Deus quiser e ele há de querer, nos livraremos do traste.
A queda do ministro é aguardada por todos. Mas, como Paulo Gonet deixou claro ontem (1), não será fácil. Porque essa gente tem uma cara de pau como nunca se viu. Eu, pelo menos, nunca vi coisa igual. Vergonha na cara, honra, decência – essas expressões e palavras foram excluídas do vocabulário da gentalha. Como é possível que um procurador-geral da República peça a nulidade das provas em que ele é mencionado? E o detalhe que não me escapa: em nenhum momento Gonet ou Moraes negam a veracidade das mensagens e a proximidade pornográfica com o banqueiro.
Vai cair
Moraes consulta as horas em Rolex provavelmente comprado com dinheiro de Daniel Vorcaro. Não consigo entender. Eu e você que vivemos vidas modestas pelo menos dormimos pesadamente à noite. Há dificuldades, claro, até porque uma vida sem dificuldades não vale a pena ser vivida. Mas há também momentos de paz e alegria. Os amigos na mesa do Dante, por exemplo. Uma simples ida ao mercado. A consciência tranquila de quem não vendeu a alma a um diabrete qualquer em troca de um relógio de R$600 mil, charutos e Macallan, contrato de R$131 milhões, cartão de crédito para os filhos, cotas de jatinho e o que ainda há de ser revelado.
Vai cair. Alexandre de Moraes vai cair e não demora. Vai virar nota de rodapé nessa que é apenas mais uma página infeliz da nossa história. Não a última, infelizmente. E, ao cair, com alguma sorte arrastará consigo toda a corja que o cerca e que lhe deu apoio nos últimos anos. Mas mesmo que caia sozinho... Vai cair, vai cair, vai cair. Acredito. Vai cair e gosto de imaginá-lo assim: caído e aproximando o punho dos olhos para consultar as horas na lembrança do relógio de R$600 mil que, sem saber, ele usava para consultar quanto tempo de poder absoluto ainda lhe restava.

Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e escritor, não necessariamente nessa ordem. Já foi também tradutor, mas agora não tem tempo. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



