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Fazia um bom tempo que eu não dava uma olhada na minha coleção de selos. Selos postais. Aquele negócio que você passava na língua e colava na carta. Tenho que explicar o que é uma carta? São três álbuns que contêm selos acumulados nas últimas quatro décadas de vida – com mais afinco na primeira e segunda, um surto da terceira e pouquíssima coisa desde então. Não me considero apaixonado nem nada. Tampouco sei distinguir um selo valioso de um papelzinho à toa. Apenas os tenho, os guardo e os admiro.
E sofro, porque os selos têm o poder de me transportar para um tempo mais simples e lento. Alguns me lembro de os contemplar sentado feito índio no carpete da casa do Bairro Alto. Usava pinça e lupa e me sentia especialista em alguma coisa. Brincava de ser, melhor dizendo. As lembranças vêm como flashes. São facadas de uma alegria que avinagrou e hoje me chega como tristeza. São agulhadas de inocência e sonhos e vida, ah, tanta vida pela frente! E uma curiosidade que não perdi nem pretendo perder. Jamais.
Olho de Boi
Era outro, o mundo. Com outros países. Alguns não existem mais. Um tempo de conquistas celebradas em todo o planeta, inclusive entre povos inimigos. E os homens. Em todos os países havia homens admiráveis por qualquer motivo e sem muita contestação. Inclusive tiranos – e, sinceramente, vejo graça nisso. Ah, a honra de virar selo. A glória. Tantos feitos e malfeitos cometidos para isso. Toda aquela ambição para se tornar um retângulo de papel num álbum guardado no armário de um apartamento no Pilarzinho, Curitiba, Paraná, Brasil.
De qualquer modo, aqui estou eu, fechando o último dos álbuns. Vontade danada de chorar. Nos fones de ouvido, Roberto Carlos canta. Ouço alguém escrever à máquina. Este escritório onde escrevo se banha em cores não muito nítidas. A vida vira uma fotografia tirada na velha e boa Yashica. Meu maior sonho era ter um Olho de Boi e eu o tenho, douradamente emoldurado e exposto na entrada de casa. Não sei se é autêntico, mas quero crer que é e ninguém há de me convencer do contrário. Ninguém o vê. Nem eu, ocupado que estou em entrar e sair, cheio de problemas insolúveis e expectativas irrealizáveis.

Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e escritor, não necessariamente nessa ordem. Já foi também tradutor, mas agora não tem tempo. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



