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Já viste, numa tarde triste de outono, caírem as folhas mortas? Assim caem todos os dias as almas na eternidade. Um dia, a folha caída serás tu.
— São Josemaría Escrivá, Caminho, 736.
Um dia (não tarda) este será meu último texto. Meus quatro últimos parágrafos – se é que conseguirei chegar ao fim deles. Neste texto, que chamarei carinhosamente de crônica, refletirei sobre todas as coisas que escrevi. Isto é, das que me lembro. Assim, por alto e rapidamente. E soltarei um suspiro, me perguntando o que fica? Outro suspiro e outra pergunta: valeu a pena? Mais suspiros, agora misturados às lágrimas que não me envergonham. Pelo contrário! Elas me lembram de que sou humano. Eu que não me chamo Ivan, mas também não sei se fiz o certo.
Não tenho a exata dimensão das mentiras que contei a mim mesmo. Terei um dia? Mas sei que foram muitas. Procurei lógica onde não havia – e encontrei um monte de nada que confundi com a verdade. Acreditei em destino, abdiquei de escolhas, segui o fluxo e às vezes fiquei num canto, só olhando. Talvez eu devesse ter feito isso e aquilo – penso. Mas de que adianta especular a esta hora? Muitos foram os caminhos não trilhados, e cada qual tinha lá seus desafios. Jamais são suaves as estradas da vida. No meio do caminho sempre há uma pedra. Contornar é preciso; esmurrar não é preciso.
Toneladas de tempo
Quantas dores mais a vida nos reserva? Quanto sofrimento? Melhor não pensar nisso, mas não consigo. Há dias em que me parece tão fácil acreditar na bondade. E há outros em que a bondade desaparece. Bondade, bondade, cadê você? Queria poder esfregar na cara de uns as lições que aprendi na vida. Esta da qual nada se leva. Lições que são de abismo, sim, mas também de Eternidade. Me ouviriam? Provavelmente não. Talvez zombassem do poeta que têm por palhaço. Talvez me cortassem a cabeça ali, no ato. E então eu seria apenas mais um guilhotinado cheio de ideias, sonhos e esperanças nos olhos arregalados e vítreos.
Um dia um menino encontrará estes caracteres amontoados e os admirará com curiosidade, estreitando os olhinhos. Larga isso, moleque! – dirá a mãe dele. Dá azar. O menino vai obedecer e a folha voltará à terra. À lama. Ao oblívio. E tudo isto que um dia já foi a expressão máxima das aspirações e do amor de um sujeitinho à toa estará reduzido a um lixo inútil que, com alguma sorte, as chuvas dos próximos dias levarão rio abaixo, enterrando-o para sempre sob toneladas e toneladas de tempo. O sujeitinho que não se chama Ivan. E que neste momento se contenta em reconhecer com um derradeiro suspiro: ao menos ele tentou. Tentei. Tento. Continuo tentando. Enquanto for possível.

Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e escritor, não necessariamente nessa ordem. Já foi também tradutor, mas agora não tem tempo. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



