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Derrotado na corrida presidencial, Flávio Bolsonaro (PL) surpreendeu rivais e apoiadores ao rumar escondido para os Estados Unidos e tentar converter 60 milhões de votos em liderança. Num momento inaugural, o desejo de comandar a oposição, mesmo do exterior, foi tido como plausível por aliados.
Rogério Marinho (PL-RN), líder da oposição no Senado e coordenador de campanha da direita ao Palácio do Planalto, comparou o eventual novo papel de Flávio ao que a opositora venezuelana María Corina Machado exerceu. Mas a manifestação inicial do filho 01 de Jair Bolsonaro no exílio dificultou a aposta.
Na primeira versão da carta que divulgou após chegar a Miami, Flávio ousou se proclamar presidente “de facto” e ainda buscou abrigo simbólico em Rui Barbosa, Charles de Gaulle e Juan Guaidó. Governistas e formadores de opinião tacharam o pronunciamento fora do país de golpista e ingênuo.
Com o pai preso e o irmão Eduardo exilado nos EUA, Flávio tinha razões para temer investidas já iniciadas pelo maior inimigo dos Bolsonaro e da direita, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Sem garantia de Justiça, restou salvar a voz e expor a juristocracia ao mundo.
Postura de Flávio oscilou duas vezes entre reconhecer ou não a sua derrota
As urnas do segundo turno da eleição presidencial ampliaram as incertezas econômicas, políticas e institucionais do país. A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deixou o país ainda mais dividido e ameaçado pelo colapso fiscal. Aturdida, a oposição se viu diante de escolhas difíceis para não perder força.
Nesse contexto, Flávio e o entorno mais próximo trataram de contestar o resultado do segundo turno, marcado por controvérsias até o último minuto. Passado o furor inicial, a oposição buscou desarmar espíritos e impedir que frustração evoluísse para perigosa inconformidade. O presidenciável recuou.
A reação de Flávio passou da negação do resultado à promessa de buscar a cassação da chapa Lula-Geraldo Alckmin por abuso político e econômico. A alegação de fraude na votação foi suspensa por ele, seguindo o próprio partido. Contudo, já em território americano, voltou a evocar suspeitas.
Curiosamente, María Corina acaba de fazer o caminho inverso de Flávio: voltou à Venezuela em 25 de outubro, após 10 meses fora. O retorno dela já busca recuperar protagonismo na transição que Washington negociou com a presidente Delcy Rodríguez. O caso brasileiro guarda muitas diferenças.
Motivações para liderar oposição do exterior esbarram no tom do discurso
A ordem de Moraes para recolher passaportes de Flávio, minutos após a derrota nas urnas, alimentou a percepção de perseguição. Esse fato, além da súbita prorrogação da votação determinada por um juiz amigo de Lula, também repercutiu entre apoiadores no Brasil e aliados no exterior.
María Corina foi impedida de disputar a eleição de 2024. Flávio concorreu e seu PL ampliou a força parlamentar. Ao apresentar-se como verdadeiro presidente eleito, expressão depois trocada por "líder do Brasil" na definitiva versão da carta, ele anteviu desfecho trágico que a Venezuela experimentou.
O dia seguinte das eleições brasileiras provocou reações e temores, mas também endereçou acomodações práticas do jogo político. Esse cenário em evolução destoou de um quadro pintado por Flávio, que serve mais aos apoiadores fervorosos e a anfitriões mais alinhados ao Partido Republicano.
A retórica de Flávio abriu distância nítida em relação aos aliados. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, mostrou descontentamento com a carta. Rogério Marinho afirmou não ter provas de fraude, apontada por Flávio diante de "impossibilidades matemáticas", e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) defendeu respeito às urnas e "olhar para frente".
Liderança da oposição almejada por Flávio deve ser disputada no Brasil
Com o PL à frente das bancadas das duas Casas, a oposição tem instrumentos para tentar impor limites ao Judiciário e pressionar Lula 4. Nessa perspectiva, a eleição da Mesa do Senado, em 2027, terá peso crucial. A missão mais importante da direita exige acordos que não incluiriam Flávio.
O desafio do candidato derrotado será, então, manter alguma capacidade de coordenação, além da exposição digital na rede e uma tribuna globalizada. A sua votação e a influência da família Bolsonaro constituem patrimônio expressivo, mas não asseguram comando exclusivo sobre quem rejeitou Lula.
Assim, entre a pecha de covarde aplicada pelos críticos e a imagem de mártir de apoiadores, Flávio poderá administrar do exterior um capital político cada vez mais repartido entre os que ficaram no Brasil, sobretudo Tarcísio e líderes parlamentares. Tudo dependerá de novos feitos do autoexilado.
O não-reconhecimento da vitória de Lula pela administração Donald Trump ainda deixa no ar riscos de novos capítulos das tensões bilaterais e dentro do Brasil. Também há grande expectativa no plano doméstico sobre a divulgação de um dossiê americano sobre o Judiciário corrupto do Brasil.

Jornalista de política e economia com foco na cobertura do Congresso Nacional. Passou pelos jornais Diário do Comércio (MG), Gazeta Mercantil, Estado de Minas, Brasil Econômico, Correio Braziliense e A Tarde (BA). **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




